Sem farelos, sem cortes e sem tradição.


(foto: divulgação)

Nos almoços de família somos encarregados de levar o chanclich e o pão árabe. Sr. Dadivoso, conhecido por sua organização & método, esmaga o chaclich com azeite na proporção perfeita enquanto eu, embora conhecida por minha falta de jeito com facas, corto o pão em 2, depois 4, 8, 16 seções tal e qual bem caprichadas mini-fatias de pizza branca. Cortar o pão árabe para a família é minha missão na terra, diz a lenda.

Ao longo do tempo, fomos paulatinamente promovidos, acumulando o corte do assado e da torta/bolo/sobremesa, tarefas que também executamos com prazer e alegria.

O produto da foto,  forminhas de torta individuais com jeito de fatias generosas, bastante prático e fofo, tiraria um pouco da graça, dos farelos e da folia desses momentos. Espero que uma coisa parecida para assar pão árabe em formato de fatiazinhas milimétrica e amorosamente cortadas não apareça tão cedo para desbancar a tradição familiar e me deixar sem propósito neste planeta! :D

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Aquisição Culinária do Ano


(foto: divulgação)

Dia desses me agarrou a vó Dinah. Tive ímpetos não de bater um bolinho, mas sim de fazer massa. Nunca havia me aventurado no amassa-estica-estica-estica-estica, muito embora soubesse que não era complicado, porque as maiores delícias são assim: simples.

Simples, porém trabalhosas, como comida de vó. Via de regra, essas receitas-tesouro têm meia dúzia de ingredientes, duas frases de instruções de preparo e algumas horas de labuta. É o caso das rosquinhas de polvilho da bisa Lina, da sobremesa de banana da vó Nair, dos charutinhos e esfihas da Vogra…

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Para Cortar-se com Estilo


(Foto: Divulgação)

Encantei-me pela beleza das facas Sha Ra Ku Mono, que parecem carregar no gume mil histórias de samurais.

Sempre balanço ao avistar facas de chef, mas tenho arrepios só de pensar no cenário de horror que poderia provocar a união de uma cozinheira desastrada com uma faca profissional.

Com elegantes talhos nos dedos, ao menos poderei dizer que me cortei com estilo :)

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O Senhor da Razão

Cozinhar tem o poder de provocar-me a perda da noção do tempo. Um bolinho para bater, um ramo de alecrim, uma vulgar pitada de sal e sou facilmente transportada para outras dimensões.

Sinto-me como a criança que brinca sem notar que escureceu, como o velho que joga dominó na praça até que sua véia venha lhe buscar chacoalhando o rolo de macarrão, ou como aquela moça que dança sozinha na festa, de olhos fechados, alheia ao sol que chega e aos poucos viventes que a observam.

Numa espécie de fluxo de consciência, quando tenho por companhia as panelas e colher de pau custo a seguir qualquer linearidade ou procedimento. Não raro me perco nas receitas e quantidades, emimesmada e distraída, ao misturar ingredientes com lembranças-planos-sentimentos.

As conseqüências variam bastante, como o Leitor e a Leitora mais assíduos já puderam acompanhar. Olvido-me de um ingrediente importante, ponho sal duas vezes ou nehhuma, perigo botar fogo no mundo, deito tudo fora e começo outra vez.

Muito embora extraia imenso prazer de abandonar-me à cozinha desse modo assim despretensioso e não-planejado, tendo como intenção nada além de produzir uma refeição simples e acolhedora, hei de admitir que qualquer cozinheiro, por menos sistemático que seja, necessita às vezes cuidar em marcar o tempo de cozimento de algumas coisas.

Ao ver esses dispositivos de cronometrar, com suas sinetas diferentes e formatos tentadores, namorava todos eles e chegava mesmo a escolher um bem lindo, mas relutava - consciente ou inconscientemente - em inserir nos arredores do fogão qualquer objeto que pudesse estorvar meus instantes jamesjoyceanos.

Mas rendi-me toda ao receber, de uma prima querida e astuta, o timer de ovinho que nos observa aí na foto.

De aviso discretíssimo, tem a sineta no volume certo para provocar um despertar tranqüilo sem quebrar o encanto dos devaneios nem fazer queimar o bolo.

Marca de um a 60 minutos, bastando para isso girar seu corpo sobre os sapatos num sentido que ainda não decorei se é horário ou anti-horário.

Tornou-se imediatamente um daqueles utensílios do coração e ocupa agora o posto de Marcador Dadivoso do Tempo – aquele que dizem ser o senhor da razão.

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