Oito.

Um é o cara. O primeiro, o único, o melhor. O mais solitário, um café e a conta, a saideira.

Dois é casal, parzinho, duo, díptico, dupla, olhos, orelhas, mãos, pernas.

Três é realeza, triunvirato, tríade, trindade, pai-filho-espírito-santo, sangue-suor-e-lágrimas.

Quatro é marcação de tempo, estações, cantos do mundo, patas, apoio.

Cinco é redondo, só mais cinco minutinhos, top five, outro primo, uma mão cheia.

Seis é metade, meio ano, meia dúzia. Seis graus de separação entre mim e qualquer vivente da face da terra.

Sete é cabalístico. Dias da semana, pecados capitais, cores do arco-íris, notas musicais, conta de mentiroso, sete léguas, sete vidas, sétima arte.

Oito é o quê? Octópode? Dois terços de um ano? Bola oito?

Bobagem. Oito trabalha na profundeza e na imensidão.

Oito deitado é infinito, matemático e filosófico (matemática é filosofia e vice-versa, em meu humilde entendimento de filha e irmã de matemáticos que filosofam), laço que se encerra em si mesmo. Finge ser banal na gravação da aliança, na tatuagem de amor-eterno-amor-verdadeiro-fulano, na bola preta da sinuca, no quadradinho de oito do funk carioca. Oito deitado, com um lado aberto, vira rabisco de peixe.

Com um oito de pé começa-se a desenhar um gato. Ou um gordinho. Ou uma mulher grávida. Um oito de pé também é laço que se encerra em si mesmo. Cérebro e vísceras. Razão e instinto. Cabeça e barriga. O que governa e de onde sai a fome. O que traduz em pensamento aquilo que se passa nas entranhas.

A l i m e n t o

C o z i n h a r

E s c r e v e r

D a d i v o s a

Oito letras.

Omeunome tem oito letras.

Omeuamor tem oito letras.

Oito.

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De volta à Suíça

- Ça va, ma jolie cusinière?
- Tô triste, Suíço.
- Vem pra cá!
- Ó que eu vou…
- Ouiiiii!!

Chego duas semanas depois dessa conversa pelo Skype meio em frangalhos, com alguns planos, casacos e biquíni (porque o tempo era incerto), cachaça e suco de maracujá na bagagem conforme o pedido. Os frangalhos, aquela troca de casca anual e necessária mas nem por isso confortável, começam a cair já pela janela do trem que passa ao redor do lago.

O mesmo amigo do Suíço, que o acolhia há um mês e tanto, atura a intrusa por 20 dias. Mentira. Não atura. Viramos amigos instantâneos, parece que nos conhecemos há dez anos. Bebemos caipirinha e dançamos na sala até a madrugada – vejam só – pop francês dos anos 80 e toda sorte de musiquinhas coreografáveis, parando em Livin’ La Vida Loca do Ricky Martin só porque o vizinho desce para reclamar, todo gentil, todo educado, todo suíço.

Somos três. Três mais ou menos recentemente solteiros que queimaram seus navios e largaram o que muitos chamam de ‘vida estável’ em busca do que de verdade importa, querendo pisar no mundo de um jeito mais leve e dispostos a bancar suas próprias escolhas, por mais desafiadoras que sejam. Conversamos noite adentro e tarde afora naquele apartamento com janelas de coração.

Rimos e choramos juntos, compartilhamos bobagens, confissões, confidências e profundezas. Das mais ricas, doloridas, surpreendentes, felizes e promissoras profundezas. Faço fotos dos pés em frente ao espelho da sala. Muitas delas.

Jogamos Uno com o Léonard, filho do anfitrião, que mora com ele e com a mãe em semanas alternadas. Passeamos com o pequeno, preparamos a festinha de aniversário dele. Faço brigadeiros com granulado marrom e colorido, as crianças não curtem, acham muito doce (também acho). Preparamos tapas para os adultos: nós três e os poucos vizinhos daquele prédio antigo com uma claraboia no meio. Léonard chega correndo, cata o primeiro copo que vê pela frente e, antes que consigamos impedir, emborca um golão de vinho. E faz a cara mais malina, ri até quase chorar, acha o máximo esse engano, sente-se muito adulto aos seis anos. Desenhamos e contamos histórias. Vamos almoçar onde Léo quer me levar, um restaurante chinês. Tiramos muitas, muitas fotos. Caminhamos montanha acima, vemos cogumelos, subimos na torre, comemos maçã roubada do pé, catamos espadas em forma de graveto. Tenho uma flor no cabelo e Léo diz que estou bonita. Acredito. Quando um menino-de-tudo diz uma coisa dessas, a gente acredita. Semana sim, semana não, portanto, somos quatro. Quatro crianças descobrindo o mundo.

E, feito criança, vou brincar de comprar frutas e legumes da estação na feirinha orgânica local, o mercado da praça que acontece aos sábados. Compro ingredientes e cozinho nesse e em praticamente todos os outros dias em que ficamos em casa. Ou melhor, cozinhamos. Os três juntos; um comanda e os outros dois ajudam; um sozinho pra fazer agrado aos outros dois (ou outros três, semana sim, semana não) e em duplas para o terceiro ficar com a louça. Sou muito paparicada por eles.

Etienne, amigo dos dois, oferece-nos um jantar. Como ele cozinha bem, como esses homens suíços cozinham bem! Ganho dele um livro do Girardet. Pierre-Alain é nomeado Chef Pâtissier, o Suíço é o Saucier e eu… bem, eu sou Dadivosa, La Jolie Cuisinière.

Dadivosa toma leite de vaca suíça, creme de leite de vaca suíça, queijo de leite de vaca suíça, iogurte de leite de vaca suíça. Que me lembre, só um pedacinho de chocolate de leite de vaca suíça, que não sou lá muito fã de doce. Vamos os dois dançar com as uvas na festa da colheita. Vamos os três tomar banho nas águas borbulhantes de Lavey no meio da semana, somos os mais jovens do lugar. Temos ataques de bobeira, lagarteamos ao sol fraquinho, deixamos a água correr com força pela espinha, boiamos com os ouvidos submersos ouvindo sons de baleias, que bom que trouxe o biquíni. Voltamos com sono. Estamos sempre em dupla ou em trio e, ao contrário dos meus planos, apesar de gostar, não viajo sozinha por um só momento e é melhor assim, tenho certeza.

Tinha planejado dar um pulo na Espanha, precisava resolver umas coisas, fechar conta em banco, matar saudades. Vamos os dois, jantamos no que pra mim é o melhor restaurante de Madri. Tanto fazemos que convencemos o terceiro a vir também. Encontramos mais gente pelo caminho, vamos de tapas e de copas, dançamos, compro muitos livros de comida, os dois me ajudam a levar todo aquele peso até o hotel antes de continuarmos a movida. Compro outra mala. Arrasto Pierre-Alain para o supermercado – como se precisasse – e voltamos carregados de sacolas cheias de latas e vidros mil, de azeite a bochecha de bacalhau, para o espanto e gozação eterna do Saucier. Trocamos presentes, recuerdos engraçadinhos de nossa crescente coleção de piadas internas. Encho a segunda mala, os meninos carregam o trambolho escada abaixo e Calle Fuencarral afora até chegarmos ao táxi.

Também tinha planos de passar uns dias em Paris, minha irmã estava por lá. Mas vamos os dois pra Fribourg. Sinto-me em casa, conheço a família do Suíço, tenho saudades da minha. O pai dele faz o melhor steak tartar que já comi na vida, e não foram poucos. A mãe dele, linda, esguia, doce, ao saber que cozinho me leva para ver os seus livros, relíquias comentadas com letra bonita em caneta azul. Tinha guardado uns recortes de revista pra me mostrar também e me passa sua receita secreta para Moutarde de Bénichon.

O irmão mais novo, se cozinha, não sei. O outro irmão é especialista em jardins, sabe tudo de plantas, tem programa na TV e no rádio, escreve lindo, o livro dele tá para sair. Casado com uma francesa que, adivinhem, cozinha muito bem. Repito-me. Colho morangos e tomates no quintal. Ao chegarmos em casa, a família dele liga. Querem saber ‘o que somos’ um do outro. Rimos muito.

Visitamos Gruyère e Bern. Vamos ao museu Giger, tiro fotos com réplicas do Alien, compro especiarias com embalagens escritas em alemão, tiro foto dos meus pés na chuva, tiro fotos de corações de chocolate, tiro fotos dos nossos pés no trem. Chega o frio, dormimos em Fribourg, visitamos um museu de marionetes, voltamos no dia seguinte.

Vejo nascer naqueles dias essa carinha que estampa o site, a marca da Dadivosa que eu tinha encomendado antes de chegar lá. Acompanho o processo meio de perto, meio de longe. O Saucier pensa numas coisas, eu em outras outras e, por fim, ele apresenta a ideia que vingou. Amplia um pontinho vermelho na tela: “Olha, reconhece? É a tua boca“. Vem o cabelo, a franja de lado, um olho fechado. Ele me vê assim, eu me reconheço ali. Pâtissier dá uns pitacos, dou outros et voilà.

Da tristeza não sobra nada. Despedimo-nos entre abraços infinitos, olhos marejados (dos três) e um beicinho de choro (meu). Um ano depois, dou-me conta de que havia contado muito pouco da viagem aqui (apesar dessa tripa de texto, sigo sem contar boa parte) e que talvez o Leitor e a Leitora achem que andei novamente em terras helvéticas. Não andei, mas quase. É que venho revivendo isso tudo nos últimos dias, pois dessa vez é um pedaço da Suíça que vem até mim. Seremos dois outra vez. Conversaremos de bobagens e profundezas, trocaremos confissões e confidências, riremos muito, pode ser que choremos em algum momento, sairemos um pouco, cozinharemos todo dia e Pierre-Alain e Léonard vão estar com a gente, pois estou pensando em colocar um brega de raiz e dançarmos todos em suas respectivas salas, fazendo balbúrdia pelo Skype. Mas vai ser no meio da tarde, pra evitar encrenca com meus vizinhos, que de suíços não têm nada.

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Luxúria

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Ele gostava das minhas pernas. Talvez ainda goste e prefira como elas estão hoje, não importa. Me gostava inteira e dizia. Dou um meio sorriso ao abrir a despensa e a geladeira, tem algo dele ali. Sempre tem. Numa passada de olhos pelas embalagens de azeite, granola, mel, arroz, café e torradas, lembro dele e lembro de algum outro.

Vão-se os amores e aquela história toda… ficam os sabores e o consumo da geleia X porque gosto do vidro e do fato de ser menos doce, mas sobretudo porque é surpreendente a influência da luxúria em nossos hábitos de consumo. Ser apresentado a determinado ingrediente naquela janela de torpor entre o que está prestes a acontecer e algumas boas horas após o acontecido pode fazer com que você nem olhe pros lados e pegue tal sorvete no supermercado sem pestanejar, a despeito de não achar que seja o mais gostoso e de tantas outras opções disponíveis. E que a marca frequente o seu freezer para todo o sempre, até você achar que foi sua a descoberta, ou que ele é mesmo o sorvete mais gostoso do mundo. É bem provável que passe adiante a dica, ou a memória afetiva, criando um fio invisível entre amantes de corpo, de alma e de comida.

Ele gostava da minha comida e dizia. Talvez ainda goste e não sei se preferiria o menu daquela época ou o de hoje. Mas daria um meio sorriso ao abrir a despensa e a geladeira e se ver ainda ali, naquela latinha de chá ou no copo de requeijão. Talvez se sentisse importante por ter influenciado de alguma forma a cozinheira. E era, sempre vai ser.

Não importava se o bife estivesse duro, o arroz sem sal, as lichias mal escolhidas, o curry apimentado demais. Metade gentileza e metade torpor, enquanto eu amaldiçoava minha falta de jeito, ele elogiava e repetia as poucas receitas que me aventurava a fazer. Dizia que eu era sua Dadivooooosa* com uma voz inimitável e ríamos muito. A luxúria, além de influenciar o consumo, é generosa com pequenos reveses culinários.

Sei que ele adoraria provar a farofa de sriracha e a sobremesa de gengibre. Não lembro se alguma vez mencionou gostar ou desgostar de miúdos – por alguma razão, não falamos a respeito. Gastronomicamente curioso e destemido, certamente provaria a tentativa de moela confitada na gordura de pato que fiz ontem às sete da manhã, aquela que quase carbonizou porque a chama do fogão estava muito forte e porque me distraí com outras coisas. Nem toda a luxúria, gentileza e torpor do mundo o impediriam de fazer uma careta e dar uma gargalhada.

A moela não tinha salvação e lá se foi um pote precioso de gordura de pato. E enquanto eu punha uma panela com água, anis, cravo e canela para ferver e amenizar o cheiro de gordura queimada que grudou na casa toda, praguejando, amaldiçoando minha falta de jeito e franzindo o cenho, ele me puxaria pra dançar, diria baixinho que eu era sua bailarina, esqueceria da comida, voltaria a atenção para as pernas.

*Foi quem me chamou de Dadivosa pela primeira vez, muito, muito antes de o blog existir <3

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O gosto do outro

“Cada vez que me besaba me escribía un poema en la boca.” Fermín, o cozinheiro do livro Los Insaciables*, não apenas absorvia os amores e o mundo por seu aguçado paladar. Tinha também o dom de identificar os ingredientes que davam a eles, aos amores e às coisas do mundo, seu gosto particular e único.

Parece que tudo começou quando deu o primeiro beijo de verdade de sua vida. A boca de Clarita tinha sabor de “tostada con jamón y miel”. No mesmo dia, Fermín chegou em casa determinado a recriar o gosto de Clarita. Deu-se por satisfeito às três da manhã, quando à torrada com presunto cru e mel juntou uns grãos de pimenta, uma pitada de noz moscada, um pouco de pimenta vermelha esmagada, meia cebola caramelizada com vinho do porto e queijo fresco.

Ali mesmo, na página 16, uma pergunta-cisma de meses atrás volta a me importunar. Seria o primeiro beijo um caminho sem volta? Refiro-me a todos os possíveis primeiros beijos que se possa experimentar em dia de vida: o primeiro-primeiríssimo, obviamente, e também o primeiro de cada nova paixão, novo amor, atração antiga, namorico de verão, casinho despretensioso, amigo-com-quem-se-dorme etc. etc. etc..

Seriam eles transformadores do curso de uma vida, já que por coisa de segundos a criatura não passou debaixo daquele prédio, naquela rua, naquele instante em que cairia uma gigantesca bigorna A.C.M.E. em sua cabeça? Teriam os primeiros beijos um caráter irreproduzível, dado o conjunto de sentimentos e sensações provocadas, entre arrepios, derretimentos, toques, não-toques, contexto, temperatura, umidade, pressão e, sim, o gosto do outro? É possível rebeijar pela primeira vez a mesma pessoa e derreter-se igual?

Já achei que sim, já achei que não, decidi que não sei. O que sei é que Fermín continuou a beijar Clarita e a voltar pra casa para aprimorar a receita. Descobriu que para ralar a noz moscada devia usar uma faca de serrinha, melhorava o resultado. Juntou também um pouco de sálvia. E sei que Fermín preferia o sabor às palavras: “El sabor no engaña, te llega directo. No te deja un recado en el contestador ni te manda un mensaje en una botella, te toca el paladar y comprendes enseguida.” Saber-se pelo gosto, isso também sei, vale mais do que saber-se pelo que é dito…

Compreender o sabor, saber o gosto do outro é gostar na profundeza. É conseguir entender, num beijo no cangote ou lambida em qualquer parte, do que o outro é feito: fel, coragem, culpa, preguiça, virtude, noites em claro, filmes trash, humor ácido, baunilha, a cozinha (sempre ela), mel, chocolate, lichia… Está tudo ali, disponível pra quem quiser desvendar com o paladar os recônditos, saliências e reentrâncias da companhia da vez, tanto as do tipo imortal-posto-que-é-chama, quanto as do infinito-enquanto-dure.

Fica um pouco mais difícil saber o outro pelo gosto quando não se tem o paladar absoluto e a frieza de Fermín. Pode-se confundir as coisas e os sabores, como daquela vez em encontrei num moço que, nas mesmas coordenadas de longitude e latitude, tinha um sabor de sucrilhos com leite, tal e qual o de um amor antigo. Antes mesmo que ele me seduzisse com suas artimanhas, senso de humor, personalidade, gestos e carinhos, deixei-me conquistar. Pelo gosto que era do outro.

*Los Insaciables é o primeiro romance de Jakob Gramss. Comprei em Madri, em meio a tantos outros que me fizeram  ter de comprar uma mala extra. Estou lendo muito aos poucos, pois não quero que acabe. Mais ou menos aquele ‘não querer que acabe’ do primeiro beijo, ou de um abraço de despedida. 

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Muito mais fomes escondidas

Corei e sorri apertando os olhos quando ele me comparou à crème pâtissière cheia de pintinhas de baunilha que recheava um sonho parecido com esse da foto. Detalhes como país, idioma, autor e época da vida são irrelevantes para Leitor e Leitora, pois o que me arrebatou agora não foi a lista de similitudes sensoriais que se pode identificar numa comparação dessas.

O que me tirou o chão enquanto comia um sonho com café preto de manhã, sorria e corava e apertava os olhos ao lembrar do galanteio foi uma terrível constatação: se tenho tantas pintas e sardas na pele branca quanto essa crème pâtissière, se pareço ser salpicada de pontinhos pretos, então minhas fomes tem muito mais esconderijos do que eu imaginava. Elas não vivem só naquele cortiço em formato de coração entre o umbigo e o manúbrio. Elas estão pelo corpo inteiro!

Percebi que Dadivosa, que já esteve de castigo no cortiço, tem usado todos os tipos de fomes para me mandar recados. Descobri ser ela a líder da vez no comando de uma rede descentralizada muito eficiente (embora às vezes devastadora) de pequenos agentes. Há dias vem usando como mensageiros mudos a inapetência, a insônia, a falta de noção espacial (consegui cair enquanto estava parada, estatelando os dois joelhos no concreto), apela recusando-se a cozinhar qualquer coisa que não aquele macarrão com manteiga e parmesão e agora essa: enviou a fome-reminiscência que me deu esse estalo.

Minha cara nesse instante (fiz questão de checar no espelho, na exatidão que a gravidade do assunto exige) tem olhos de terror, sobrancelhas de preocupação e uma mordida no lado esquerdo do lábio inferior. Assusta-me saber que essas pintas todas podem abrigar fomes que desconheço, sentimentos não identificados e portanto perigosos em potencial. Preocupa-me saber que muito provavelmente venho lidando mal com essas fomes e devo ter feito alguma besteira. Mordo o lábio concentrada na determinação não de repassar todos os microacontecimentos dos últimos dias, mas de buscar as condições de tempo-espaço-temperatura-pressão para que a mistura de leite, gemas, açúcar, farinha, manteiga e fava de baunilha não desande nem vire outra coisa, para que resulte doce, sedosa, perfumada, agradável, gostosa, descomplicada e feliz como tem de ser… para mim e para quem a provar.

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Cuando cocino me pasan cosas…

… que no me pasan cuando no cocino.

Sou toda coração, baixo a guarda, desarmo-me, sinto-me forte e maleável como massa de pão e, ao mesmo tempo, impermanente, vulnerável e minúscula como um ovo de codorna pochê.

Posso confessar amores, derreter-me inteira, desnudar a alma, chorar na frente do moço ou da geladeira como naquele dia: descalça, pouco vestida, olhos pintados e avental azul-marinho. É que não passo de um amador: aquele que renova seu prazer, que ama uma e outra vez, que se instala voluntariamente a troco de nada no significante, tal e qual Barthes escreveu:

“El amateur (alguien que se dedica a la pintura, la música, el deporte y la ciencia sin espíritu competitivo ni ánimo de convertirse en un maestro) renueva su placer (amator: aquel que ama una y otra vez), no es ningún héroe (de la creación, de la representación); se instala voluntariamente (a cambio de nada) en el significante: en la sustancia inmediatamente definitiva de la música y de la pintura; su práxis, por regla general; no implica ningún rubato (ese robo del objeto en beneficio del atributo); es – o acaso será – el artista antiburgués.”

Enquanto mexo a polenta, vigio a zuppa di farro, tempero o frango, abro a fava de baunilha, asso as batatas, apronto um macarrão com manteiga e parmesão, apuro o molho de limão siciliano pro cabelinho de anjo a razão passa longe. Bem longe. Chega a perder o caminho de volta e me dá rasteira (sabe quantos novos hematomas acumulei nas últimas semanas?). E sem a razão, perco eu o caminho do meio e viro 100% sentimento, à mercê das zombeteiras fomes escondidas, essas fanfarronas. Experimento o inferno e o céu de todo dia, oscilo, beijo na boca, tenho vertigem, faço beicinho, choro, recebo e dou carinho, fico na ponta dos pés, queimo o braço no forno.

Sou amadora, aquela que ama uma e outra vez, e assim devo continuar, pois quando cozinho me acontecem coisas que não acontecem quando não cozinho.

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Fomes Escondidas

Manúbrio, mais uma daquelas palavras feias para coisas bonitas, é a parte superior do osso esterno, aquele “U” onde se encontram as clavículas.  A exatos 21 cm ao Sul do manúbrio e 16 cm ao Norte do umbigo – tive a pachorra de medir – descobri o esconderijo das minhas fomes.

M. F. K. Fisher, escritora de quem sou fã e que teve dois livros editados no Brasil traduzidos pela Nina Horta, de quem também sou fã, disse no prefácio de “The Gastronomical Me”: “It seems to me that our three basic needs, for food and security and love, are so mixed and mingled and entwined that we cannot straightly think of one without the others. So it happens that when I write of hunger, I am really writing about love and the hunger of it, and warmth and the love of it and the hunger of it…and then the warmth and richness and fine reality of hunger satisfied… and it is all one.” M.F.K. Fisher desossava fomes de comida, de segurança e de amor como ninguém. Estou bem longe disso, pois mal acabo de achar que descobri o paradeiro delas e ainda preciso comer muito arroz e feijão para tão somente entender quais e quantas são, que dirá discorrer sobre elas.

Costumo dizer que a comida é só uma desculpa, já que essas fomes, ainda que escondidas, são o fundo dos meus escritos. Porque, pra mim, são todos fomes, esses sentimentos tão difíceis de diferenciar. Angústia, a fome de encontrar solução praquela situação agoniante sobre a qual não se tem controle; desejo, a quase insaciável fome do outro;  ansiedade, a fome que faz parecer que o mundo vai acabar na velocidade daquela taquicardia; paixão, a fome que há tempos não vejo;  desamparo, a fome que provoca atitude de desespero fazendo o vivente refém de um vazio, destrutivo ou apenas pouco nutritivo encontro de uma noite só ou vários anos; solidão, a fome suportável;  medo, a fome que paralisa; saudade, vontade, excitação, raiva, muita raiva, não pertencimento, coragem, ternura, frustração.

Descobri o esconderijo das minhas fomes todas outro dia, enquanto tomava um sol e apoiava ali o livro da vez, sem me importar com a marca feita pela sombra. O X no mapa do pirata, o indicador de que ali foi enterrado o baú, é uma pinta marrom em forma de coração deitado bem na boca do estômago (onde mais????), como podem ver na foto. Mede 5 mm dos extremos Leste e Oeste e 5 mm do Oiapoque ao Chuí – outra vez parei tudo e medi, que fomes escondidas são importantes demais para deixar a preguiça vencer a precisão.

A preguiça, também ela mora ali, fome duas-caras que tanto pode ser uma delícia com ou sem companhia ou uma inércia nefasta daquelas que forma uma crosta sobre outra fome, a de ver o mundo lá fora. Ao lado dela, só uns olhos assustadores brilhando na escuridão, uma fome ainda sem nome, a que jogou Dadivosa num calabouço, de castigo, sem cozinhar ou escrever. Jogo aqui, sem pensar ou reler, fragmentos que me acompanham antes de pouco dormir e acordar às 4h30 sem motivo aparente. Meses de insônia e inapetência foram o preço pra encontrar o cortiço onde vivem essas desgraçadas fomes que,  com a ajuda de Dadivosa fugida do castigo, hão de me trazer de volta a fome que me é mais cara, a de escrever.

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Maktub em fogo brando

Passava das dez da noite de uma terça-feira quando quebrei a tampa da minha panela, uma Le Creuset. A famosa Creuza (como diz a Fer), de ferro fundido esmaltado, que deveria durar uma vida, de fundo abaulado, foi ao chão. Justo a favorita companheira do ano em que estive longe, com quem acertei a sopa de tomate mais gostosa, arrisquei com sucesso na lentilha branca, amaciei por horas a fio a carne ao molho de vinho, empapei o arroz de todo dia e o basmati com açafrão, desmaiei um frango ao curry, deixei derramar pelo minúsculo fogão algo que nem lembro mais. A mesma que ocupou preciosos quilogramas na franquia da bagagem por medo de perdê-la no furdunço da mudança.

Segurava as alças com um bom pano de prato seco e as duas mãos, na intenção de escorrer qualquer coisa na pia quando, na cena que revivo ainda hoje nas horas mais inconvenientes, a coisa toda balançou. Num reflexo baixei os braços esticados o mais possível, salvei a panela e o que havia dentro, mas derrubei a tampa, fazendo um estardalhaço no piso, uma rachadura medonha de fora a fora e uma lasca no esmalte que expôs a carne, digo, o ferro.

Eu quebrei a tampa da minha panela. Não, esperem. Na língua em que vivi naquele ano, diria que foi a tampa que me escapou das mãos, como explicado por este artigo aqui. O idioma espanhol é bastante mais preciso em incidentes assim… não há culpado, só fatos. E como sabem doer, esses fatos! Aconteceu de a tampa pular fora, ignorar a garantia vitalícia, quebrar o contrato e romper com a intenção de envelhecer junto da panela, não mais abafar o calor nem participar dos cozinhados. Em espanhol, a culpa não foi da panela abandonada, nem minha. Era pra ser assim.

Era pra ser, não era pra ser. Quando a perplexidade atrasou o grito, a amiga já estava a postos. Olhos arregalados apesar do sono e cansaço do dia longo, me abraçou em palavras enquanto ainda segurava nas mãos a panela quente. Você tá bem? Quebrou? Deve ter garantia, leva na loja, que chato, nem sei o que dizer, quer ajuda, você vai ficar bem? Salvou-se a panela? E agora, o que você vai fazer? Ai, quer dizer, que hora pra perguntar isso… não sei o que dizer. Certeza que não dá pra colar, não tem conserto, não tem volta?

Sem conserto, sem volta, nem uma chance ou pedido duns meses pra viver outras coisas. Com impressionante e devastadora frieza comunicou a decisão no sopetão da queda, covarde ou corajosamente, sem jogar na panela mágoa, raiva ou levá-la na marra ao chão. Ainda hoje posso ouvi-la dizendo aquele “não estou feliz“. É, fato. E como podem doer, esses desgraçados fatos!

Dizem que a maior dor/estresse que um ser humano pode passar depois da perda de um ente querido é a separação. Sinto a dor da panela separada da tampa, encostada na área de serviço, exposta ao pó, ao calor e ao temporal, recusando-se a voltar a sentir a chama do fogão. Estão as duas sob o mesmo teto, civilizada e estranhamente arranjadas em prateleiras diferentes há um mês e meio num lugar que passou de aconchego a silenciosa agonia, deixou de ser um lar. É, a panela passa por uma espécie de luto.

Ela tenta se revestir de coragem, esmalte intacto a olhos nus, embora vazia, errática e surrealista como se num pesadelo derretesse prateleira abaixo. Quer sair desse parafuso, já que mesmo sendo forte e se saber sobrevivente da queda, reconhece sua fraqueza e pede colo pros potes plásticos mais próximos, conversa com a frigideira vermelha e a chapa azul (desde sempre e por definição sem tampa), aconselha-se com outras panelas de ferro, maiores, essas sim firmes e fortes com suas respectivas tampas, algumas até deram cria a coloridas e fofas miniaturas que, na infinita sensibilidade infantil, chegam com abraços, beijos e brincadeiras. Percebe, então, que é tempo de pensar no que realmente importa e deseja a quem vê pela frente um Feliz Ano Novo, reconhecedora de que gentileza e carinho são como cozinhar, uma dádiva que faz bem a quem recebe e ainda mais a quem oferece. Simples assim, porque assim tem de ser.

Olho para a panela aflita e fantasio encontros com minhas avós. Sento a Vó Nair no sofá, passo hidratante em suas mãos tremelicantes e braços craqueladinhos de 80 anos, escancaro minha dor e ouço que tudo vai ficar bem, que pra todo pé cansado tem um chinelo velho e que em breve encontrarei outra tampa pra minha panela, pergunta se sou eu que vou dormir na casa dela neste fim de semana, nos acomodamos na cama de casal, ela ronca, passo a noite em claro a lutar contra os mosquitos. Ganho um abraço apertado da Vó Dinah e os óculos de gatinho, pretos como seus cabelos, marcam minhas bochechas, ela esbraveja contra essa tampa e todas as outras, reclama das fugidas do vô, me chama pra ajudar a fazer o almoço de domingo prum batalhão, tomamos as duas um remédio pra dor de cabeça e dormimos no sofá da sala com a televisão ligada. Ao acordar, estamos as três na mesma casa, tomamos café em silêncio, pois nada mais precisa ser dito.

Era pra ser, não era pra ser, vai passar, foi infinito enquanto durou, não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe, estava escrito, maktub. Repasso mentalmente edulcorantes clichês, na certeza de nada é tão simples ou de repente como parece. Feito lulas num imperceptível e dissimulado fogo brando, tampa e panela cozinharam por demais, passaram do ponto, infelizmente. Mas sempre aceitei o revés culinário como parte do aprendizado e passo aqui para contar à Leitora e ao Leitor queridos que essa panela dá sinais de vida e vai voltar a cozinhar, nem que seja só pra ela. Aproveito pra dizer que estamos bem, dentro de toda essa confusão, e que em 2011 estaremos mais presentes por aqui. Ah, e  Feliz Ano Novo!

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De etiquetas, cabelos ao vento e volta pra casa

Aos poucos, vou restabelecendo as coisas nesse blog, que tanto sofreu com meu descaso, com a troca de roupa provocada por ataques de hackers e com a desconfiguração de uma montoeira de coisas no caminho. Pouco a pouco vou pendurando etiquetas, as “tags”, em cada uma das cerca de 500 postagens escrevinhadas e fotografadas nesses 4 anos e pouco.

Junto com as categorias (Escritos, Pitadas ou Receitas, por enquanto), são elas que vão ajudar o Leitor ou a Leitora a entender como (des)organizei tudo isso. É até gostoso ver as fotos escuras e granuladas do começo (não que tenham melhorado muito) e a timidez das primeiras publicações, que tinham só a receita, pura e dura. Bom reler alguns escritos de que continuo gostando, mais que nada porque continuam a refletir uma parte bem gorda do que sou. Alguns desses etiquetei como “família” e preciso dar outra volta para ver se não levariam pendurado esse pedacinho de papel invisível quase todos os escritos e receitas em que escancaro a alma.

São lembranças e sentimentos de pai, mãe, irmãos, amigos, vós, tios e tias que de mim fazem parte e com os quais, daqui dessa lonjura, sinto o laço apertar ainda mais, espremendo água do zóio. Como esse texto que rerererererevisitei agora há pouco, desta vez com Mr. Dadivoso lendo cada parágrafo em voz alta (gosto tanto quando lê em voz alta, acho que nunca disse isso pra ele nesses 7 anos de matrimônio) do outro lado do mundo. E pela trocentésima vez, nas mesmas linhas, senti os cantos da boca se repuxarem num beiço horroroso (como agora, só de lembrar)  e soltar um buáá desafinado.

Em duas, especificamente, Mr. Dadivoso parou, olhou pra câmera e me consolou com um ôôôô, neguinha…: quando ela fala que o marido a faz uma pessoa melhor (isso sim, já disse pra ele) e quando se dá conta de que quer estar perto para ver os cabelos de seus pais se mexendo no vento da praia. Vários são os temas e meandros desse texto que me dão cosquinha na alma, reafirmo.

Mas isso do amor de pai, mãe, marido, amigos, tios, tias, primos e primas, agregados e desconhecidos, de parar para olhar a vida, de às vezes sentir desconforto no conforto, de ser e escrever e as duas coisas ao mesmo tempo me derruba mesmo os cantos da boca e me faz pensar agora se de repente não deveria mudar completamente o sistema de etiquetas que venho consertando há umas duas semanas, pouquinho a pouquinho, enquanto releio parte dos arquivos desse blog e me deixo levar.

Porque nos breves intervalos dessas semanas tão corridas, me estou deixando levar em pedacinhos. Porque meus 12 meses em Madri estão muito perto de serem completados, o que significa que está chegando a hora de estar fisicamente mais próxima dos meus amores, amigos, tios, tias etc.

Também aí em casa, nos intervalos das semanas corridas que vem pela frente, me deixarei levar: pela delícia dos colos, almoços, pizzas de bairro, cafés da manhã e da tarde e de depois do almoço e de depois do jantar (não me faz mais efeito, a cafeína, durmo como se tivesse tomado um chazinho de melissa). Prevejo, além de tudo isso, um reencontro paulatino e igual de bom com minha cozinha, meus desastres e descobertas, desconcertos e pequenos triunfos.

Levo o hábito de comer pão com azeite de manhã (às vezes com tomate também), a reorganização de hábitos de consumo provocada pela microgeladeira, as panelas coloridas que me fizeram companhia, uns quantos livros e revistas de comida que acumulei, alguns cabelos brancos a mais (daqueles que viram antenas e não se mexem nem com vento sul), a certeza de que não combino com esses fogões de vitrocerâmica, uma que outra receita espanhola bem aprendida, a vontade de bater um bolinho e assá-lo num forno “de fogo” e os sentidos à flor da pele para absorver (ou repelir) todo o bom (ou o menos bom, porque assim é às vezes, sobretudo quando a gente se mexe) que me espera pela frente.

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