Por quê?

Coração ao vinho

Porque sim. Para distrair, passar o tempo, brincar. Inventa, cozinha, conta, escreve, compartilha, mostra aí.

Para mostrar coisas que são o que são, mas que podem revelar segredos para quem souber olhar e sentir. Para dar sentido ao mil-folhas de alegrias, desassossegos, intimidades e acontecimentos indizíveis. Para esquecer.

De todos os portos, daqueles braços, dos arrozes insossos, dos bolos solados. A gente não se esquece de nada não, a gente se acostuma, como diz o Jacques Brel. Por costume. Como rotina necessária. Um hábito de higiene.

Para limpar o entulho de pensamento, faxinar a cabeça, desapegar de receitas e histórias e saudades que vivem no lado de dentro, mas chega uma hora em que precisam ganhar mundo. Porque receitas e histórias e saudades encarceradas assim, ignoradas assim, são bem capazes de cavar um túnel, passar por vasos e veias, grudar nas artérias e arruinar o coração.

Porque no fim das contas é ele quem manda nisso aqui. É o coração quem inventa, cozinha, conta, escreve, compartilha, mostra aí. E se calhar de aparecer um vinho para amolecer as saudades e uma mini salada de cebola com hortelã para refrescar as ideias, tanto melhor.

 Receita de Coração de Galinha com Vinho

Ingredientes:

  • 300 g de coração de galinha muito limpos (sem vestígios de artérias ou pelancas)
  • 150 ml de vinho tinto
  • 2 dentes de alho espremidos
  • 2 folhas de louro
  • 1 galho de alecrim fresco
  • 1 colher de sopa de azeite
  • 1 colher de sopa de manteiga
  • sal e pimenta a gosto

Para a mini salada:

  • 1 cebola (se tiver da roxa, melhor ainda)
  • gelo
  • folhas de hortelã
  • 1 limão tahiti

Como fazer:

  1. Faça uma marinada misturando o coração, o vinho, o alho, o louro, o alecrim, um pouco de sal e de pimenta. Deixe descansar por 30 minutos.
  2. Aqueça no fogo forte o azeite e a manteiga em panela de fundo grosso. Enquanto isso, retire os corações da marinada com uma escumadeira e reserve-os separados, corações de um lado, líquido do outro.
  3. Doure os corações na manteiga. Acrescente o líquido da marinada. Abaixe o fogo e, vigiando de vez em quando, acrescentando um pouco mais de água quando o líquido secar, deixe cozinhar por uma hora. Corrija sal e pimenta.
  4. Meia hora antes de servir, corte a cebola em fatias finas, deixe no gelo com um pouco de água. Elas ficarão mais crocantes e suaves. Passada meia hora, escorra-as e misture com a hortelã rasgada grosseiramente e o sumo do limão.
  5. Sirva os corações sobre uma polenta mole, como a da foto, ou o que achar por bem (com purê de batatas fica muito bom). Cubra com um pouco da mistura de hortelã e cebola, polvilhe flor de sal.
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Cozinha pra mim?

A depender do interlocutor, “Cozinha pra mim?” tem o efeito de um “Me beija!“. Um pedido assim é promessa de preguiça, samba e amor até mais tarde, ou o interlúdio que sucede algumas horas no computador para terminar um trabalho, responder os correios, buscar aquela música do fim do século passado, pagar as contas… e precede o dobro dessa quantidade de horas numa soneca de pernas enroscadas em tarde de canícula que não suporta mais do que uma salada.

Um “Cozinha pra mim?” pode ser “Vem dançar comigo” entre o meio da sala e a frente do fogão, falar sobre o dia enquanto o outro pica tudo miudinho, rir do choro involuntário e certeiro da cebola ardida, varrer os cacos daquele copo quebrado, buscar mais gelo, arriscar um samba com a colher de pau na mão, apresentar um tempero novo, abrir todas as janelas, ligar coifa e apelar para o ventilador quando o vinho jogado na assadeira do pato te faz desaparecer em nuvem de fumaça de ninja.

“Cozinha pra mim?” às vezes nem se diz com a boca, mas com o olho. É pedido de colo, neutralizador do dia ruim para um, libertador do aconchego recolhido para o outro, curativo de tantos males, aporrinhações e enfermidades agudas do espírito. Quase sempre funciona, quase nunca precisa-se verbalizar o motivo do apelo ou o resultado do calorzinho no estômago.

Tem dias em que “Cozinha pra mim?” é um “Estou com saudade…“, carinho de pai-mãe-filha-irmãos, desculpa pra tomar alguma coisa e conversar sobre a impermanência da vida e a perenidade de amor, perguntar do fulano, saber da beltrana, que bom que estão bem, apresentar uma piada nova que apareceu na internet, chorar de rir e irem todos empoleirar-se na cama de um.

Há também o “Cozinha pra mim?” proferido pela cozinheira e tomado com certo espanto e terror pelo interlocutor mal acostumado e avesso ao fogão. Mal sabe ele que tudo o que ela quer depois de tantas receitas testadas e servidas e fotografadas, tudo o que ela espera depois de tantas horas em pé de avental e faixa no cabelo, tudo que a faria feliz é um arroz com ovo que seja, um café passado na hora, até uma mesa posta para o empadão trazido da padaria tá valendo.

“Cozinha pra mim?” não carece de porobséquios e sivuplés. O veludo da voz dá conta da boa educação. Nem precisa motivo, para dizer a verdade. É feito aquele presente perfeito que se encontra por acaso e entrega-se assim, sem data imposta, só porque eu vi e lembrei de você, surpresa provocadora de friozinho no estômago, sorriso de criança, abraço pendurado no pescoço e beijo barulhento na bochecha. É assim, um prazer para quem serve e para quem é servido (servir o outro é tão bom, como o mundo precisa de pequenas e grandes gentilezas…). É, por fim, das coisas mais dadivosas que se pode pedir e conceder, é quase uma declaração… Cozinha pra mim?

Receita da Salada “Cozinha pra Mim?”

Ingredientes: (para dois)

  • 1 endíva cortada em tiras finas
  • 1 bulbo de erva-doce cortado em tiras finas
  • 2 xícaras (aproximadamente) de alface lisa rasgada com as mãos
  • 1/2 xícara de brotos de feijão
  • 2 xícaras de tomate-cereja cortado em quartos
  • 1/4 de xícara de pancetta ou bacon em fatias finas
  • 2 dentes de alho
  •  2 xícaras de pão italiano (ou português, ou outro semelhante) rasgado em bocados
  • 1/2 xícara de azeite de oliva para o molho, mais algumas colheres de sopa para o pão
  • 1/4 de xícara de vinagre de vinho branco ou de cava
  • 1/2 xícara de pimentão vermelho assado e sem pele picado
  • pimenta-do-reino moída na hora
  • sal a gosto
  •  lascas de parmesão ou grana padano

Como fazer:

  1. Coloque as folhas, brotos e tomates em uma saladeira grande.
  2. Frite a pancetta até dourar e ficar crocante, retire-a e reserve-a deixando a gordura na frigideira. Acrescente um fio de azeite e, em fogo baixo, doure o alho, retire-o com cuidado e reserve.
  3. Ainda à mesma frigideira, junte mais um fio de azeite, a pimenta, e doure ali o pão. Deixe de lado.
  4. Prepare o molho: misture o pimentão, o vinagre e o azeite, corrija o sal e moa um pouco mais de pimenta se gostar. Na hora de servir, junte a pancetta quebrada em pedaços e o alho frito, agora já frios, à saladeira. Despeje o molho e envolva tudo com cuidado. Por cima de tudo, salpique o pão e as lascas de queijo.
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De volta à Suíça

- Ça va, ma jolie cusinière?
- Tô triste, Suíço.
- Vem pra cá!
- Ó que eu vou…
- Ouiiiii!!

Chego duas semanas depois dessa conversa pelo Skype meio em frangalhos, com alguns planos, casacos e biquíni (porque o tempo era incerto), cachaça e suco de maracujá na bagagem conforme o pedido. Os frangalhos, aquela troca de casca anual e necessária mas nem por isso confortável, começam a cair já pela janela do trem que passa ao redor do lago.

O mesmo amigo do Suíço, que o acolhia há um mês e tanto, atura a intrusa por 20 dias. Mentira. Não atura. Viramos amigos instantâneos, parece que nos conhecemos há dez anos. Bebemos caipirinha e dançamos na sala até a madrugada – vejam só – pop francês dos anos 80 e toda sorte de musiquinhas coreografáveis, parando em Livin’ La Vida Loca do Ricky Martin só porque o vizinho desce para reclamar, todo gentil, todo educado, todo suíço.

Somos três. Três mais ou menos recentemente solteiros que queimaram seus navios e largaram o que muitos chamam de ‘vida estável’ em busca do que de verdade importa, querendo pisar no mundo de um jeito mais leve e dispostos a bancar suas próprias escolhas, por mais desafiadoras que sejam. Conversamos noite adentro e tarde afora naquele apartamento com janelas de coração.

Rimos e choramos juntos, compartilhamos bobagens, confissões, confidências e profundezas. Das mais ricas, doloridas, surpreendentes, felizes e promissoras profundezas. Faço fotos dos pés em frente ao espelho da sala. Muitas delas.

Jogamos Uno com o Léonard, filho do anfitrião, que mora com ele e com a mãe em semanas alternadas. Passeamos com o pequeno, preparamos a festinha de aniversário dele. Faço brigadeiros com granulado marrom e colorido, as crianças não curtem, acham muito doce (também acho). Preparamos tapas para os adultos: nós três e os poucos vizinhos daquele prédio antigo com uma claraboia no meio. Léonard chega correndo, cata o primeiro copo que vê pela frente e, antes que consigamos impedir, emborca um golão de vinho. E faz a cara mais malina, ri até quase chorar, acha o máximo esse engano, sente-se muito adulto aos seis anos. Desenhamos e contamos histórias. Vamos almoçar onde Léo quer me levar, um restaurante chinês. Tiramos muitas, muitas fotos. Caminhamos montanha acima, vemos cogumelos, subimos na torre, comemos maçã roubada do pé, catamos espadas em forma de graveto. Tenho uma flor no cabelo e Léo diz que estou bonita. Acredito. Quando um menino-de-tudo diz uma coisa dessas, a gente acredita. Semana sim, semana não, portanto, somos quatro. Quatro crianças descobrindo o mundo.

E, feito criança, vou brincar de comprar frutas e legumes da estação na feirinha orgânica local, o mercado da praça que acontece aos sábados. Compro ingredientes e cozinho nesse e em praticamente todos os outros dias em que ficamos em casa. Ou melhor, cozinhamos. Os três juntos; um comanda e os outros dois ajudam; um sozinho pra fazer agrado aos outros dois (ou outros três, semana sim, semana não) e em duplas para o terceiro ficar com a louça. Sou muito paparicada por eles.

Etienne, amigo dos dois, oferece-nos um jantar. Como ele cozinha bem, como esses homens suíços cozinham bem! Ganho dele um livro do Girardet. Pierre-Alain é nomeado Chef Pâtissier, o Suíço é o Saucier e eu… bem, eu sou Dadivosa, La Jolie Cuisinière.

Dadivosa toma leite de vaca suíça, creme de leite de vaca suíça, queijo de leite de vaca suíça, iogurte de leite de vaca suíça. Que me lembre, só um pedacinho de chocolate de leite de vaca suíça, que não sou lá muito fã de doce. Vamos os dois dançar com as uvas na festa da colheita. Vamos os três tomar banho nas águas borbulhantes de Lavey no meio da semana, somos os mais jovens do lugar. Temos ataques de bobeira, lagarteamos ao sol fraquinho, deixamos a água correr com força pela espinha, boiamos com os ouvidos submersos ouvindo sons de baleias, que bom que trouxe o biquíni. Voltamos com sono. Estamos sempre em dupla ou em trio e, ao contrário dos meus planos, apesar de gostar, não viajo sozinha por um só momento e é melhor assim, tenho certeza.

Tinha planejado dar um pulo na Espanha, precisava resolver umas coisas, fechar conta em banco, matar saudades. Vamos os dois, jantamos no que pra mim é o melhor restaurante de Madri. Tanto fazemos que convencemos o terceiro a vir também. Encontramos mais gente pelo caminho, vamos de tapas e de copas, dançamos, compro muitos livros de comida, os dois me ajudam a levar todo aquele peso até o hotel antes de continuarmos a movida. Compro outra mala. Arrasto Pierre-Alain para o supermercado – como se precisasse – e voltamos carregados de sacolas cheias de latas e vidros mil, de azeite a bochecha de bacalhau, para o espanto e gozação eterna do Saucier. Trocamos presentes, recuerdos engraçadinhos de nossa crescente coleção de piadas internas. Encho a segunda mala, os meninos carregam o trambolho escada abaixo e Calle Fuencarral afora até chegarmos ao táxi.

Também tinha planos de passar uns dias em Paris, minha irmã estava por lá. Mas vamos os dois pra Fribourg. Sinto-me em casa, conheço a família do Suíço, tenho saudades da minha. O pai dele faz o melhor steak tartar que já comi na vida, e não foram poucos. A mãe dele, linda, esguia, doce, ao saber que cozinho me leva para ver os seus livros, relíquias comentadas com letra bonita em caneta azul. Tinha guardado uns recortes de revista pra me mostrar também e me passa sua receita secreta para Moutarde de Bénichon.

O irmão mais novo, se cozinha, não sei. O outro irmão é especialista em jardins, sabe tudo de plantas, tem programa na TV e no rádio, escreve lindo, o livro dele tá para sair. Casado com uma francesa que, adivinhem, cozinha muito bem. Repito-me. Colho morangos e tomates no quintal. Ao chegarmos em casa, a família dele liga. Querem saber ‘o que somos’ um do outro. Rimos muito.

Visitamos Gruyère e Bern. Vamos ao museu Giger, tiro fotos com réplicas do Alien, compro especiarias com embalagens escritas em alemão, tiro foto dos meus pés na chuva, tiro fotos de corações de chocolate, tiro fotos dos nossos pés no trem. Chega o frio, dormimos em Fribourg, visitamos um museu de marionetes, voltamos no dia seguinte.

Vejo nascer naqueles dias essa carinha que estampa o site, a marca da Dadivosa que eu tinha encomendado antes de chegar lá. Acompanho o processo meio de perto, meio de longe. O Saucier pensa numas coisas, eu em outras outras e, por fim, ele apresenta a ideia que vingou. Amplia um pontinho vermelho na tela: “Olha, reconhece? É a tua boca“. Vem o cabelo, a franja de lado, um olho fechado. Ele me vê assim, eu me reconheço ali. Pâtissier dá uns pitacos, dou outros et voilà.

Da tristeza não sobra nada. Despedimo-nos entre abraços infinitos, olhos marejados (dos três) e um beicinho de choro (meu). Um ano depois, dou-me conta de que havia contado muito pouco da viagem aqui (apesar dessa tripa de texto, sigo sem contar boa parte) e que talvez o Leitor e a Leitora achem que andei novamente em terras helvéticas. Não andei, mas quase. É que venho revivendo isso tudo nos últimos dias, pois dessa vez é um pedaço da Suíça que vem até mim. Seremos dois outra vez. Conversaremos de bobagens e profundezas, trocaremos confissões e confidências, riremos muito, pode ser que choremos em algum momento, sairemos um pouco, cozinharemos todo dia e Pierre-Alain e Léonard vão estar com a gente, pois estou pensando em colocar um brega de raiz e dançarmos todos em suas respectivas salas, fazendo balbúrdia pelo Skype. Mas vai ser no meio da tarde, pra evitar encrenca com meus vizinhos, que de suíços não têm nada.

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Cuando cocino me pasan cosas…

… que no me pasan cuando no cocino.

Sou toda coração, baixo a guarda, desarmo-me, sinto-me forte e maleável como massa de pão e, ao mesmo tempo, impermanente, vulnerável e minúscula como um ovo de codorna pochê.

Posso confessar amores, derreter-me inteira, desnudar a alma, chorar na frente do moço ou da geladeira como naquele dia: descalça, pouco vestida, olhos pintados e avental azul-marinho. É que não passo de um amador: aquele que renova seu prazer, que ama uma e outra vez, que se instala voluntariamente a troco de nada no significante, tal e qual Barthes escreveu:

“El amateur (alguien que se dedica a la pintura, la música, el deporte y la ciencia sin espíritu competitivo ni ánimo de convertirse en un maestro) renueva su placer (amator: aquel que ama una y otra vez), no es ningún héroe (de la creación, de la representación); se instala voluntariamente (a cambio de nada) en el significante: en la sustancia inmediatamente definitiva de la música y de la pintura; su práxis, por regla general; no implica ningún rubato (ese robo del objeto en beneficio del atributo); es – o acaso será – el artista antiburgués.”

Enquanto mexo a polenta, vigio a zuppa di farro, tempero o frango, abro a fava de baunilha, asso as batatas, apronto um macarrão com manteiga e parmesão, apuro o molho de limão siciliano pro cabelinho de anjo a razão passa longe. Bem longe. Chega a perder o caminho de volta e me dá rasteira (sabe quantos novos hematomas acumulei nas últimas semanas?). E sem a razão, perco eu o caminho do meio e viro 100% sentimento, à mercê das zombeteiras fomes escondidas, essas fanfarronas. Experimento o inferno e o céu de todo dia, oscilo, beijo na boca, tenho vertigem, faço beicinho, choro, recebo e dou carinho, fico na ponta dos pés, queimo o braço no forno.

Sou amadora, aquela que ama uma e outra vez, e assim devo continuar, pois quando cozinho me acontecem coisas que não acontecem quando não cozinho.

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De etiquetas, cabelos ao vento e volta pra casa

Aos poucos, vou restabelecendo as coisas nesse blog, que tanto sofreu com meu descaso, com a troca de roupa provocada por ataques de hackers e com a desconfiguração de uma montoeira de coisas no caminho. Pouco a pouco vou pendurando etiquetas, as “tags”, em cada uma das cerca de 500 postagens escrevinhadas e fotografadas nesses 4 anos e pouco.

Junto com as categorias (Escritos, Pitadas ou Receitas, por enquanto), são elas que vão ajudar o Leitor ou a Leitora a entender como (des)organizei tudo isso. É até gostoso ver as fotos escuras e granuladas do começo (não que tenham melhorado muito) e a timidez das primeiras publicações, que tinham só a receita, pura e dura. Bom reler alguns escritos de que continuo gostando, mais que nada porque continuam a refletir uma parte bem gorda do que sou. Alguns desses etiquetei como “família” e preciso dar outra volta para ver se não levariam pendurado esse pedacinho de papel invisível quase todos os escritos e receitas em que escancaro a alma.

São lembranças e sentimentos de pai, mãe, irmãos, amigos, vós, tios e tias que de mim fazem parte e com os quais, daqui dessa lonjura, sinto o laço apertar ainda mais, espremendo água do zóio. Como esse texto que rerererererevisitei agora há pouco, desta vez com Mr. Dadivoso lendo cada parágrafo em voz alta (gosto tanto quando lê em voz alta, acho que nunca disse isso pra ele nesses 7 anos de matrimônio) do outro lado do mundo. E pela trocentésima vez, nas mesmas linhas, senti os cantos da boca se repuxarem num beiço horroroso (como agora, só de lembrar)  e soltar um buáá desafinado.

Em duas, especificamente, Mr. Dadivoso parou, olhou pra câmera e me consolou com um ôôôô, neguinha…: quando ela fala que o marido a faz uma pessoa melhor (isso sim, já disse pra ele) e quando se dá conta de que quer estar perto para ver os cabelos de seus pais se mexendo no vento da praia. Vários são os temas e meandros desse texto que me dão cosquinha na alma, reafirmo.

Mas isso do amor de pai, mãe, marido, amigos, tios, tias, primos e primas, agregados e desconhecidos, de parar para olhar a vida, de às vezes sentir desconforto no conforto, de ser e escrever e as duas coisas ao mesmo tempo me derruba mesmo os cantos da boca e me faz pensar agora se de repente não deveria mudar completamente o sistema de etiquetas que venho consertando há umas duas semanas, pouquinho a pouquinho, enquanto releio parte dos arquivos desse blog e me deixo levar.

Porque nos breves intervalos dessas semanas tão corridas, me estou deixando levar em pedacinhos. Porque meus 12 meses em Madri estão muito perto de serem completados, o que significa que está chegando a hora de estar fisicamente mais próxima dos meus amores, amigos, tios, tias etc.

Também aí em casa, nos intervalos das semanas corridas que vem pela frente, me deixarei levar: pela delícia dos colos, almoços, pizzas de bairro, cafés da manhã e da tarde e de depois do almoço e de depois do jantar (não me faz mais efeito, a cafeína, durmo como se tivesse tomado um chazinho de melissa). Prevejo, além de tudo isso, um reencontro paulatino e igual de bom com minha cozinha, meus desastres e descobertas, desconcertos e pequenos triunfos.

Levo o hábito de comer pão com azeite de manhã (às vezes com tomate também), a reorganização de hábitos de consumo provocada pela microgeladeira, as panelas coloridas que me fizeram companhia, uns quantos livros e revistas de comida que acumulei, alguns cabelos brancos a mais (daqueles que viram antenas e não se mexem nem com vento sul), a certeza de que não combino com esses fogões de vitrocerâmica, uma que outra receita espanhola bem aprendida, a vontade de bater um bolinho e assá-lo num forno “de fogo” e os sentidos à flor da pele para absorver (ou repelir) todo o bom (ou o menos bom, porque assim é às vezes, sobretudo quando a gente se mexe) que me espera pela frente.

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