Couve-flor Gratinada

Pouco importa o último grito da modinha féxion das coisas de comer. Ou o banzo que dá quando esse tal último grito passa, nos deixando a todos atordoados e a torcer o nariz para aquilo que um dia foi a estrela da festa, o assunto das rodinhas, a capa do suplemento do jornal, a diva onipresente nas fotos das revistas bacanas, a receita ‘chique’ que por fim chega à mesa de (quase) todos e cai na sempre crescente lista do (para mim) indecifrável ‘trivial-refinado’ dos anúncios de domingo que pedem uma cozinheira para a família da cidade grande.

O gratinado, velho de guerra, já aceitou tudo o que foi desaforo e, aparentemente, deu o que tinha que dar. Ficou em revistas de outra década, em cadernos e suplementos de papel jornal amarelado e ressequido. Cansou dos paparazzi e vem seguindo uma carreira mais comedida, independente, voltando às origens do gratinado-de-raiz, do gratinado-arte, do gratinado-moleque, do gratinado-de-várzea…

Ou pelo menos gosto de pensar que foi assim que ele manteve toda a dignidade e formosura na casa da mãe, essa que segura a travessa verde pelando, protegendo as mãos com um paninho de prato que ela mesma pintou e arrematou com uma barra de crochê (preciso escrever sobre minha mania com panos de prato feitos pelas mulheres da família, que caradepaumente peço e ganho cada vez que as visito).

Há algumas semanas abro essa foto e passo bons minutos olhando pra ela como quem olha uma paisagem bonita e relaxante, daquelas que ficam passando nos computadores de vitrine de loja de shopping ou nas telas do último grito da modinha féxion dos televisores modernex. Coisa bem simples, esse prato. Nem receita direito tem. Mas achei por bem mostrar a foto que me diz tanto aqui pra dentro e contar pra vocês que:

A mãe parte a couve-flor em floretes, que são brevemente aferventados em água e sal (às vezes caldo de legumes ou frango) sem que fiquem moles demais, depois escorridos e arrumados em travessa untada. Sobre eles, vai um molho branco (tenho uma receita boa aqui), que pode ou não ganhar o reforço de uma lata de creme de leite no final. Por cima, uma camada de queijo ralado, forno quente até dourar, às vezes um salpico da erva fresca que estiver disponível.

Com a sabedoria de quem já esteve no topo das paradas e hoje não precisa de mais nada daquele circo, essa couve-flor gratinada aceita numa boa ser o acompanhamento daquilo que você resolver. Vai bem com peixe, carne, ave, um arroz branco, uma saladinha e o que mais couber no seu “trivial-refinado”. Aceita até relembrar os velhos tempos e virar a estrela da mesa, se você pedir com jeitinho.

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Manteiga de Castanha do Pará

Gosto muito quando um restaurante me inspira a cozinhar, gosto mais quando a ideia é de simples execução e gosto mais ainda quando consigo acertar a mão.

Essa manteiga é jogo rápido, fica uma delícia sobre pão recém-feito ou tostado e tem sido minha companheira no café da manhã. “Aprendi” no Lá da Venda, mistura de restaurante e mercearia de antigamente, coisa bem querida.

Ingredientes: (rende 1 xícara, aproximadamente)

  • 1/2 xícara de castanha do pará picada
  • 1/2 xícara de manteiga com sal em temperatura ambiente (consistência de pomada)

Como fazer:

  1. Num miniprocessador (ou, se não tiver, no liquidificador mesmo), bata a castanha. Primeiro ela formará uma farofinha fina e, de repente, começará a formar uma pasta. É nessa hora que você pode desligar o equipamento, se preferir que sua manteiga tenha mais textura. Se quiser bater um pouco mai, não tem problema.
  2. Misture a manteiga com sal, da boa, nessa pasta de castanha. Sirva como preferir.

As proporções eu fui fazendo a olho mesmo, dá para brincar com a textura e o tipo de castanha, adicionando mais ou menos manteiga de acordo com o gosto do freguês.

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Sopa de Espinafre

Eu leio livros de comida antes de dormir. E por livro de comida entenda-se desde o manual da batedeira nova que ensina a fazer pães e massas e bolos básicos, até as relíquias hedadas das vós, passando por toda sorte de relatos e estudos gastronômicos, impressos em papéis de variadas gramaturas, com capas duras, moles ou perdidas no tempo, nacionais e gringos, biográficos que fazem chorar, burocráticos que ensinam técnicas, com fotos lindas, medonhas ou inexistentes, receitas, receitas, receitas de tudo o que é credo e cor.

Vai daí que ontem tinha em mãos o “Vegie Food  - from vegies on the side to the main event”, repleto de receitas simples e honestas com vegetais e fotos lindas igualmente simples e honestas e acordei precisada duma sopa verdolenga. À noite, logo após fazer festinha com a Frida, largar mochila, bolsa, casaco e cachecol, abri a página 126 só para me certificar se a batata era mesmo ralada como lembrava, reduzi e adaptei minimamente os ingredientes e satisfiz o pedido da lombriga leitora com uma sopa/creme de espinafre.

Ingredientes: (para 1)

  • 1 colher de sopa de manteiga
  • 1/4 de xícara de cebola picadinha
  • 1 batata descascada e ralada
  • 1 xícara de folhas de espinafre (apertadas na xícara)
  • 1/2 xícara de talo de espinafre picado
  • 2 xícaras de água ou caldo caseiro de legumes (industrializado é forte demais pra essa sopa delicada)
  • sal e noz-moscada a gosto
  • colherada de coalhada seca (ou creme de leite fresco) para servir

Como fazer:

  1. Derreta a manteiga numa panela (se possível, de fundo grosso) e refogue ali a cebola com uma pitada de sal até murchar.
  2. Adicione os talos de espinafre e a batata ralada, dê um remelexo para aquecer todo mundo (inclusive você mesmo(a), se estiver fazendo muito frio), junte a água ou caldo e deixe ferver por 10 minutos.
  3. Corte em tiras ou rasgue as folhas de espinafre e junte à sopa. Rale um pouquinho de noz-moscada na hora (coisa pouca, pitada mesmo) ali pra dentro da panela. Deixe ferver em fogo baixo, vigiando e remexendo tudo de vez em quando para não grudar no fundo.
  4. Estará pronta quando a batata desmanchar quase toda e o espinafre estiver macio. Sossegue o facho, vá tomar um banho quentinho e deixe a sopa ali, descansando, na panela com o fogo desligado, por uns 15 minutos. S
  5. Voltou? Bata a sopa no liquidificador, devolva-a para a panela para aquecer, salpimente se necessário e sirva com a coalhada ou creme.

Gosta de sopa mais grossinha? Pode brincar com a quantidade de líquido e de batata. Não tem coalhada nem creme fresco? Mande uma colherada de requeijão. O liquidificador passou dessa para melhor? Decida que está a fim de algo mais rústico e devore a sopa aos pedaços.  :)

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Oeufs en Cocotte

Sou doida por um ovinho. Não tanto quanto o Babbo, que na época da faculdade ganhou dos irmãos a alcunha de Lagarto por chegar tarde da noite da aula, esbaforido, esfomeado e não contar tempo para devorar alguns (vários) ovos cozidos-fritos-estrelados-com arroz-no pão-com purê de batata-com restinhos-mexidos… não chego aos pés da empolgação de meu pai quando jovem (hoje ele anda bastante mais comedido) mas, como ia dizendo, gosto que me enrosco dum ovinho.

E gosto deles com aquela gema-molho que escorre entre os grãos de arroz ao ser furada, a gema-piscininha para espetar tiras de pão tostado ou mergulhar a ponta do aspargo, a gema-tremelicante do ovo estrelado que se espalha pelo prato, invade a área de seus acompanhantes e, espaçosa, tinge de amarelo os arredores. Gema cozida, só em casos muito especiais, casos esses que serão objeto de outros escritos. Por enquanto, compartilho com o Leitor e a Leitora receita fácil e manjada, mas não por isso menos deliciosa, de charmoso e digníssimo nome francês, esses ovos encumbucados no forno, os oeufs en cocotte:

Ingredientes (para uma porção):

  • 2 colheres de sopa de creme de leite fresco
  • 1 ovo fresco e de boa procedência
  • sal
  • pimenta-do-reino branca moída na hora
  • ciboulette (aquela cebolinha verde bem fina, ou a erva de que você dispuser)

Como fazer:

  1. Preaqueça o forno a 200ºC e coloque água para ferver.
  2. No fundo dum refratário individual, coloque o creme de leite. Quebre o ovo e deite-o ali, com cuidado. Um tico de sal e pimenta moída na hora, um salpico de ciboulette (exagerei, ficou um verdume só, mas ficou bem gostoso ainda assim).
  3. Coloque o refratário dentro de outra forma ou tabuleiro, leve as duas ao forno e despeje a água fervendo na forma maior, até mais ou menos metade da altura da forma pequena. Mais fácil de fazer do que escrever, vai por mim.
  4. Espie de vez em quando, pois cada forno tem suas manias e o tempo pode variar. Pode retirar quando a clara solidificar e a gema ainda estiver molinha.
  5. Aproveite a quentura do forno e toste umas tiras de pão para mergulhar na piscininha da gema mole e folgada.
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Comendo as Panelas

Das suculentas e fofas mini-abóboras recorte a tampa e retire as sementes com uma colher. Leve para cozinhar no vapor por uns 20 minutos. Recheie com colheradas de carne moída refogada , um punhado de cheiro verde e salpique pedaços de ovo cozido só pra fazer graça.

Não tem ou não gosta de carne moída? Use aquele restinho de frango ao curry, recicle o guisado, refogue um pouco de camarão com leite de coco, dê providência no picadinho de tresontonte, inclua um bocado de arroz cozido por baixo, um tico de queijo por cima, um belisco de pimenta no meio… já fiz de um tudo com “as bóbra“, divirto-me com as possibilidades de transformá-las em panelinhas comestíveis.

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Abóbora e Cebola Roxa Assadas

Improviso de uma segunda-feira véspera de estreia de Brasil na Copa, a cebola roxa e a abóbora do fundo da gaveta foram tostadas ao forno e, reformadas e revigoradas, pedem umas folhas verdes, uma massa rápida, um pedaço de queijo, um risoto básico ou apenas uma salsinha como testemunha dessa belezura. Coisa de meia hora de labor (se tanto!), espia:

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Gnocchi

Escarafunchei meus arquivos de fotos dos últimos meses e  não houve maneira de salvar uma que prestasse desses nhoques tão gostosos. De modos que o Leitor e a Leitora querida deverão utilizar de alguma imaginação para visualizar esses bocados macios, verdadeiros travesseirinhos de batata que, complacentes, suportam quase qualquer estrepolia como acompanhamento: manteiga, molhos de queijo, de tomates, tipo pesto, com carne…

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Ravióli Recheado de Espinafre e Ricota

Na foto dá pra ver que tem ravióli de tudo que é tamanho, quantidade de recheio, formato e acabamento. É porque foram feitos a dezoito mãos, mãozinhas e manzorras, no primeiro dia do curso que inventei de fazer no meu restinho de férias (preparem-se, tem muita receita vindo por aí).

Ao contemplar a cena, Alberto, o professor, abriu um sorrisão e disse que isso era comida de verdade, que a irregularidade fazia parte do charme da coisa e que o mais importante era que a massa tivesse a mesma espessura em todos eles (isso sim, tinha). E foi esse o clima do primeiro, do segundo e do terceiro dia do curso. Gente de verdade fazendo comida de verdade e se divertindo a cada virada de vinho na mesa (adivinha quem foi? ), transbordamento de creme fervendo (essa não fui eu), truques, dicas, descobertas e aventais-sapatos-caras-mangas-olhos sujos de trigo.

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Sopa de Lentilhas Brancas

Acho que foi na semana em que voltei de férias, numa correria danada, ainda com as malas por desfazer e sem dormir direito há dias. Olhei pela janela e vi gordos e vagarosos flocos de neve que caíram por não mais que alguns minutos. A grande nevada aconteceu enquanto eu estava fora, o que aconteceu naquele dia foi uma raspa de tacho da onda de frio de janeiro. Mas bastou pro cérebro fazer uma bela pausa contemplativa e voltar com a lembrança de que tinha em casa um pacote fechado de lentilhas brancas, compradas num surto consumista numa loja de produtos indianos (junto com feno grego, asafoetida, lentilhas amarelas e vermelhas, arroz basmati branco e integral, pasta de tamarindo, sementes de nigella etc etc etc)

Por casualidade, encontrei uma inspiradora receita no La Tartine Gourmande, um dos blogs de comida mais bonitos que costumo visitar. Desci pro super que fica aberto até a madrugada, comprei as verduras e esqueci dos ovos e dos tomates, me virei com o que tinha, deixei a sopa no fogo e fui tomar banho, secar cabelo, ver email, assistir ao final dum filme… sei que  a sopa ficou pronta mesmo quase meia garrafa de vinho e duas horas depois (não me acerto com esse fogão!), mas valeu a espera.

Ingredientes: (rende 4 porções honestas)

  • 1 colher de chá de manteiga
  • 1 colher de chá de azeite
  • 1/2 cebola em cubos pequenos
  • 1 dente de alho picado
  • 1 talo de salsão picado
  • 1 folha de louro
  • 1 talo de alho poró picado (só a parte branca)
  • 2 cenouras em rodelas
  • 1 pedaço de mais ou menos 5 cm de linguiça defumada picante em rodelas
  • 1 xícara de lentilha branca
  • 1 litro de água
  • sal a gosto
  • pimentón picante (páprica) e azeite para servir

Como fazer:

  1. Derreta a manteiga junto com o azeite e refogue ali a cebola com uma pitada de sal até murchar. Junte o alho, a cenoura, o salsão, o alho poró, o louro e a liguiça e refogue mais uns 10 minutos, com outra pitada de sal, em fogo baixo (se seu fogão for menos preguiçoso que o meu, fique de olho! é só para murchar um pouco as verduras).
  2. Enquanto isso, lave e escorra a lentilha.
  3. Junte as lentilhas ao refogado, acrescente a água (usei fria mesmo), e deixe tudo ali até amolecer.
  4. Corrija o sal e sirva com um salpicado de páprica picante e um fio de azeite. (no dia seguinte fica mais gostoso ainda, vai por mim!)
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