Cozinha pra mim?

A depender do interlocutor, “Cozinha pra mim?” tem o efeito de um “Me beija!“. Um pedido assim é promessa de preguiça, samba e amor até mais tarde, ou o interlúdio que sucede algumas horas no computador para terminar um trabalho, responder os correios, buscar aquela música do fim do século passado, pagar as contas… e precede o dobro dessa quantidade de horas numa soneca de pernas enroscadas em tarde de canícula que não suporta mais do que uma salada.

Um “Cozinha pra mim?” pode ser “Vem dançar comigo” entre o meio da sala e a frente do fogão, falar sobre o dia enquanto o outro pica tudo miudinho, rir do choro involuntário e certeiro da cebola ardida, varrer os cacos daquele copo quebrado, buscar mais gelo, arriscar um samba com a colher de pau na mão, apresentar um tempero novo, abrir todas as janelas, ligar coifa e apelar para o ventilador quando o vinho jogado na assadeira do pato te faz desaparecer em nuvem de fumaça de ninja.

“Cozinha pra mim?” às vezes nem se diz com a boca, mas com o olho. É pedido de colo, neutralizador do dia ruim para um, libertador do aconchego recolhido para o outro, curativo de tantos males, aporrinhações e enfermidades agudas do espírito. Quase sempre funciona, quase nunca precisa-se verbalizar o motivo do apelo ou o resultado do calorzinho no estômago.

Tem dias em que “Cozinha pra mim?” é um “Estou com saudade…“, carinho de pai-mãe-filha-irmãos, desculpa pra tomar alguma coisa e conversar sobre a impermanência da vida e a perenidade de amor, perguntar do fulano, saber da beltrana, que bom que estão bem, apresentar uma piada nova que apareceu na internet, chorar de rir e irem todos empoleirar-se na cama de um.

Há também o “Cozinha pra mim?” proferido pela cozinheira e tomado com certo espanto e terror pelo interlocutor mal acostumado e avesso ao fogão. Mal sabe ele que tudo o que ela quer depois de tantas receitas testadas e servidas e fotografadas, tudo o que ela espera depois de tantas horas em pé de avental e faixa no cabelo, tudo que a faria feliz é um arroz com ovo que seja, um café passado na hora, até uma mesa posta para o empadão trazido da padaria tá valendo.

“Cozinha pra mim?” não carece de porobséquios e sivuplés. O veludo da voz dá conta da boa educação. Nem precisa motivo, para dizer a verdade. É feito aquele presente perfeito que se encontra por acaso e entrega-se assim, sem data imposta, só porque eu vi e lembrei de você, surpresa provocadora de friozinho no estômago, sorriso de criança, abraço pendurado no pescoço e beijo barulhento na bochecha. É assim, um prazer para quem serve e para quem é servido (servir o outro é tão bom, como o mundo precisa de pequenas e grandes gentilezas…). É, por fim, das coisas mais dadivosas que se pode pedir e conceder, é quase uma declaração… Cozinha pra mim?

Receita da Salada “Cozinha pra Mim?”

Ingredientes: (para dois)

  • 1 endíva cortada em tiras finas
  • 1 bulbo de erva-doce cortado em tiras finas
  • 2 xícaras (aproximadamente) de alface lisa rasgada com as mãos
  • 1/2 xícara de brotos de feijão
  • 2 xícaras de tomate-cereja cortado em quartos
  • 1/4 de xícara de pancetta ou bacon em fatias finas
  • 2 dentes de alho
  •  2 xícaras de pão italiano (ou português, ou outro semelhante) rasgado em bocados
  • 1/2 xícara de azeite de oliva para o molho, mais algumas colheres de sopa para o pão
  • 1/4 de xícara de vinagre de vinho branco ou de cava
  • 1/2 xícara de pimentão vermelho assado e sem pele picado
  • pimenta-do-reino moída na hora
  • sal a gosto
  •  lascas de parmesão ou grana padano

Como fazer:

  1. Coloque as folhas, brotos e tomates em uma saladeira grande.
  2. Frite a pancetta até dourar e ficar crocante, retire-a e reserve-a deixando a gordura na frigideira. Acrescente um fio de azeite e, em fogo baixo, doure o alho, retire-o com cuidado e reserve.
  3. Ainda à mesma frigideira, junte mais um fio de azeite, a pimenta, e doure ali o pão. Deixe de lado.
  4. Prepare o molho: misture o pimentão, o vinagre e o azeite, corrija o sal e moa um pouco mais de pimenta se gostar. Na hora de servir, junte a pancetta quebrada em pedaços e o alho frito, agora já frios, à saladeira. Despeje o molho e envolva tudo com cuidado. Por cima de tudo, salpique o pão e as lascas de queijo.
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Uma daquelas saladas

Quando se é parte calor, parte privação de sono, parte rebuliço e parte inapetência, vai-se à cozinha de avental azul, faixa no cabelo e assam-se beterrabas, confitam-se tomates amarelos e lava-se aquela folharada toda. Porque a cozinha, mesmo em tempos revoltos (e sobretudo neles), é mais um daqueles Cs que curam.

E faz-se uma daquelas comidas que revigoram os olhos, o corpo e a cabeça. No prato: um punhado de folhas de rúcula lavadas e secas, tomates ‘sweet’ amarelos confitados*, beterraba orgânica bem lavada e assada em papel alumínio com a casca**, queijo de cabra curado e cubos de pão fritos*** no azeite onde foram confitados os tomates, um pouco de flor de sal, algumas gotas de vinagre de cava e pimenta moída na hora.

* Tomates Confitados

** Beterrabas Assadas

*** Croûtons

 

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Salada de Beterrabas

Salada de Beterraba

Quando o frio lá fora nos faz soltar um riso nervoso para as gélidas folhas verdes da salada, estas beterrabas morninhas acompanham com formosura e exuberância a refeição. Basta cozê-las com casca em água, depois passá-las rapidamente pela água fria enquanto puxa as peles com a faca, picá-las como preferir com a ajuda do garfo para não queimar as mãos e fazê-las descansar bem cobertas até a hora de servir numa vasilha de vidro ou cerâmica com um pouco de vinagre de vinho tinto, sal e pimenta moída na hora. Se desejar, pode adicionar ao tempero fatias fininhas de cebola e ervas frescas. Na hora de servir, um fio de azeite vai bem.

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Salada de Camarão com Abacate

Para fazer jus a um camarão fresco, deve-se apenas assustá-lo no fogo, coisa de poucos minutos, somente até que fique corado e perca a translucidez.

Pouco antes de irem pra mesa, esses daí foram sapecados numa frigideira muito quente com um fio de azeite, receberam umas pitadas de sal, umas gotas de tabasco e, tão logo bem aquecidos, um pouco de vodca, que evaporou num fogaréu daqueles.

Após arrefecerem, ganharam a companhia de folhas de alface lisa, pedaços de mozzarela de búfala, tomates-cereja, cubos de abacate, folhas de endro (dill), umas gotas de limão, uma rega de azeite grego e uns nacos de pão italiano.

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Uma caneca de salada – ou como fazer croûtons

Idéia supimpa para alegrar a saladinha de alface-tomate de todo dia é servi-la em charmosa canecona de cerâmica. Na foto, alface americana, tomates sem sementes em cubinhos, molho de mostarda com limão-azeite-orégano-sal, croûtons e parmesão ralado.

Para fazer meia xícara de croûtons, corte em cubinhos uma fatia de pão (usei integral). Em frigideira antiaderente, esquente bem um fio de azeite. Deite ali os cubos, polvilhe sal e orégano e sacuda e remexa e misture tudo até tostar. Para comer puro, adicionar crocância à salada ou ornar uma sopa, que logo-logo também vai pra caneca nova.

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Salada de Laranja com Canela

Herdei de meu pai, o Babbo, uma paciência incrível para descascar laranjas. Faço-o com maestria, sem bagunça nem chacina. Nem pareço eu!

A técnica consiste em retirar a casca toda de uma só vez, formando uma linda espiral. Depois retira-se, com velocidade de prestidigitador, toda a pele branca e amarga, penúltimo vestígio da interface da laranja com o mundo.

Deixa-se intacta a membrana fina que reveste os gomos, podendo-se retirar as sementes com um golpe certeiro da faca afiada ou, numa versão mais selvagem, com uma mordida voraz.

A salada a seguir foi preparada para o evento da Colher de Tacho e pode ser montada aos gomos, cubos ou rodelas, mas confesso que prefiro essas últimas.

Ingredientes: (por porção)

  • 1 laranja-pera bem madura, suculenta e geladinha
  • 1 colher de chá de açúcar (não deixe de usar, eu que não gosto de açúcar, aprovei)
  • 1/2 colher de sopa de água de flor de laranjeira (encontrada em supermercados e lojas de produtos árabes)
  • canela a gosto

Como fazer:

  1. Descasque a laranja retirando toda a pele branca e corte-a em rodelas. Retire as sementes.
  2. Disponha as fatias sobre um prato raso, preferencialmente sem sobrepô-las, pois elas deverão estar livres para receber a festa de sabor que vem a seguir.
  3. Polvilhe as fatias com o açúcar. Não exagere, use somente a quantidade indicada para não mascarar os outros sabores.
  4. Regue a laranja com a água de flor de laranjeira, cuidando para que cada fatia receba sua porção dessa chuvinha mágica. Aqui, também, um exagero pode tornar a salada repugnante, enjoativa.
  5. Polvilhe tudo com canela a gosto e sirva. Não espere muito tempo, pois a laranja oxida rápido e nada se compara ao frescor da fruta recém-cortada!

Para baixar um vídeo com outra técnica de descascar laranja, clique aqui.

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Salada com Sementes de Abóbora

Eis uma combinação feliz:

  • folhas rasgadas de alface e de rúcula
  • tomate italiano em gomos
  • lascas de cenoura (feitas com o descascador de legumes)
  • fatias de cebola roxa
  • sementes de abóbora passadas em frigideira quente e seca por 5 minutos

A mistura foi fotografada antes do tempero, que não poderia ser mais simples: aceto balsâmico e azeite de oliva. Não precisei do sal, pois as sementes de abóbora já eram salgadas.

Da próxima vez, cuidarei para deixar a cebola de molho em água com gelo, pois deixei-me levar pelas aparências (e pelo sono!). A dita dava sinais de doçura e suavidade, mas revelou-se amarga e enxofrenta.

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Um Tartar Refrescante

Dia desses agarrou-me um desejo de comer abacates. Desde que fui abduzida pelos alienígenas que me fizeram gostar de manga, tenho essas vontades diferentes.

Antes que o Leitor e a Leitora imaginem que existe um dadivosinho ou dadivosinha a caminho, aviso que não é o caso. Pelo menos por um tempo.

A vontade de abacate, faz-se mister esclarecer, nada tinha a ver com o clássico creminho doce batido. Eu precisava de algo mastigável e salgado, uma salada, talvez.

Acabei por chegar a uma mistura mui simpática que chamei de tartar (embora não o seja, eu sei) e ficou tão apetitoso que refiz no dia seguinte.

O segredo está em escolher bem os ingredientes, caprichar ao picá-los e, principalmente, não se render ao comichão de adicionar mil e um temperos, alhos e conservas.

Ingredientes:

  • 1/2 abacate
  • 1/2 cebola roxa pequena (precisa ser da roxa, que é mais suave e crocante)
  • 1 tomate sem peles e sem sementes
  • 1/2 limão
  • algumas folhinhas de manjericão fresco (o seco não vai prestar)
  • sal e pimenta moídos na hora
  • 1 colher de sopa de lábane (coalhada seca), cream cheese, sour cream ou iogurte dessorado.
  • 1 raminho de manjericão fresco
  • 1 fio generoso do melhor azeite que seu bolso permitir comprar

Como fazer:

  1. Por conta da efemeridade do abacate, esse não é um prato para se fazer com antecedência. Deixe, portanto, para prepará-lo no último minuto. É bem fácil e não vai dar trabalho algum.
  2. Comece picando a cebola roxa em minúsculos cubinhos (os meus tinham 1 mm). Uma faca bem afiada vai ser de grande valia nessa hora. Reserve a cebola numa tigela de vidro.
  3. Esprema o limão por cima da cebola.
  4. Corte o tomate sem pele nem sementes em cubinhos um pouco maiores (0,5 cm) e deixe-os na tigela com a cebola.
  5. Chegou a hora da estrela. Como a polpa do abacate é sensível, você deve tomar alguns cuidados ao cortar. A primeira providência é deitá-lo com carinho sobre a tábua e fazer um corte profundo, horizontal, acompanhando o caroço. Pronto! Agora você tem sua metade de abacate com a qual trabalhar. A outra metade, se não for usar, respingue com limão e leve à geladeira, ainda com o caroço e coberta por uma película plástica.
  6. Com uma faca afiada, vá cortando a casca. Para esse prato não vale aquela técnica de tirar a polpa com a colher, pois vai transformar tudo numa papinha e não estamos a fazer guacamole.
  7. Depois de descascada a metade, deite-a novamente na tábua, com o buraco do caroço para baixo. Faça três cortes horizontais, separe as seções com cuidado e corte-as em quadrados. Formarão cubos de um centímetro, mais ou menos.
  8. Junte o fruto à mistura que aguarda na tigela e envolva com bastante delicadeza. Moa sal e pimenta por cima (resista e não ponha muito, pois a idéia é manter a diversidade de sabores delicados e frescos).
  9. Misture as folhinhas de manjericão e empregue.
  10. Usei um aro para enformar e, às colheradas, fui preenchendo a cavidade, cuidando para não despejar o líquido que se formou.
  11. Em cima do tartar vai a colherada de lábane (ou um dos substitutos recomendados), e o galhinho de manjericão. Um toque de excelente azeite e estamos conversados.

Fica delicioso como entrada leve, compondo uma salada ou acompanhando camarões grelhados para uma refeição frugal em noites de calor.

Pode-se também usar um bom pão como coadjuvante, como de fato fiz. E foi a sorte, pois minha inapetência já começa a incomodar a Vogra, que está querendo bisnetinhos e me deu uma bronca ao telefone:

- Alô?
- Ooooooi minha Lindaaa! Já jantou?
- Já, acabei de jantar.
- E comeu o quê?
- Uma salada de…
- Filha, você tem de começar a se alimentar direito! Imagiiiina, comer só salada! Precisa comer uma carne, frango, um coiso. Porque do jeito que você está, quando ficar grávida, não vai ter nada pra dar pro neném!
- Mas…
- Não tem mas! Estou falando que tem de comer direito e pronto. Salada, salada! Humpf! Salada sozinha não alimenta!
- Mas eu comi uma fruta também. E pão. E lábane.
- Comeu pão com lábane? Então tá bom. Se comeu lábane, tá bom.

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Salada de Rúcula com Queijo

Dia desses a Valentina falou sobre a vontade mastigar saladinha. Sou acometida diariamente por essa necessidade de comer coisas cruas e frescas. Sinto-me mais viva, parece.

Aí na foto, o Leitor e a Leitora podem ver uma combinação que resultou muito agradável: rúcula com Chabichou.

Uma pausa para a informação:

Chabichou é um queijo de cabra de origem francesa, de massa mole e casquinha mofada e branca (quando jovem, pois à medida que amadurece, vai se tornando azulada).

Ele é vendido em pequenas toras de uns seis centímetros de comprimento, mais ou menos. O preço é acessível e você pode encontrá-lo nos supermercados sem muito esforço, já que existem produtos nacionais bastante honestos.

Reza a lenda que o nome, que acho adorável, vem do árabe chebli (cabra).

Observe que me empolguei e, no intuito de promover um colorido mais dramático, espalhei tirinhas de pimentão vermelho, mas são totalmente dispensáveis, acredite! A rúcula e o queijo se bastam.

Como fazer:

  1. Escolha uma rúcula bem tenra e novinha, e arrume-a no prato.
  2. Tempere com sal moído na hora.
  3. Respingue um pouco de vinagre balsâmico.
  4. Corte as rodelinhas de queijo (umas três).
  5. Moa pimenta-do-reino por cima de tudo.
  6. Finalize com um bom azeite e delicie-se.

Um pão (baguette, sírio…) para acompanhar também pode cair muito bem, mas dispensei dessa vez.

Ah, e aqueles pontinhos pretos são gergelim torrado.

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