Como fazer Guefilte Fish – receita de vó

No meu entendimento, cozinhar com a vó – própria ou alheia – é sempre uma dádiva, um privilégio. São algumas horas (porque comida de vó não se faz em 15 minutos) ali, trocando receitas, ouvindo e contando causos, tentando absorver de alguma forma toda aquela sapiência que só os anos da delicadeza oferece. Delicadeza e impertinência, que se vocês se tornarem íntimas o suficiente logo aparecem a audição seletiva, a teimosia, uma que outra bronca dirigida a você ou a um passante na rua.

Já perdi as esperanças de anotar a receita durante esses encontros. Em parte, para poder aproveitar melhor a companhia, em parte porque elas, as vós, não costumam ter medidas. É um tal de jato de vinagre pra cá, um punhado de farinha pra lá e sal até ficar bom que mesmo que você filme o processo e anote tudo ela vai fazer tudo diferente da próxima vez. E vai ficar bom igual.

É preciso muita generosidade para se compartilhar esse momento neta-vó. E na semana passada uma amiga me fez esse gesto assim, do nada. “Sábado vou na minha vó fazer guefilte fish, vamos?”. “Claro!!!”. Assim como as cucas de banana da Oma, o molho de tomate da Nonna e as esfihas da Vogra (que continua sendo, já que sogra é para sempre e não existe ex-vó), o guefilte fish de uma vó judia é só dela. Cada uma vai ter uma receita e sempre vai ser a melhor, a certa, a mais gostosa.

O dia começou cedo, com uma ida à feira com a amiga. Quis levar flores para a Dona Clara. Será que ela vai gostar destas? Como será que ela vai reagir à presença de uma estranha em sua cozinha? Será que ela vai gostar de mim? Quebrarei alguma louça? Quantas gafes serei capaz de cometer? Seremos amigas?

Apaixonei-me pela Dona Clara assim que a vi. Ganhei abraço e beijo. E ela me emprestou um avental, que na correria tinha esquecido de levar. Ela me mostrou a casa, as fotos da família decorando móveis e paredes e partimos para a ação.

O guefilte fish é um bolinho de peixe que se costuma comer na páscoa judaica, o Pessach. Dona Clara tinha na geladeira, já limpos, 4 kg de carpa e 4 kg de traíra. Também já tinha descascado umas 10 cebolas enormes. Está aí outra verdade quando se cozinha com vó: por mais que você avise que vai querer acompanhar tudo desde o comecinho e que não quer que ela tenha trabalho, ela sempre, sempre vai começar antes de você chegar.

Apesar de ter caído no dia anterior e de sentirmos o cheiro de cânfora da pomada que passou nos joelhos muito roxos, Dona Clara estacionou a bengala na bancada da pia e não nos deu descanso. Ignorou com cara de paisagem todos os apelos que fizemos para que ela se sentasse.

Peguei umas cebolas pra picar. Na mão mesmo, que o espaço era escasso. Enquanto retirava os machucadinhos e fazia os pedaços com a faca, ouvi Dona Clara dizer à neta: “Gostei dela, ela faz como eu quero”. Comecei a lacrimejar, um vexame, e passei a faca à amiga. Agora era preciso passar tudo pela máquina maravilhosa, pedaços de peixe e pedaços de cebola. Dona Clara ensinou como faz, com uma agilidade que transformou quase todas as fotos em um borrão. Sobrou esta:

“São dois ovos por quilo de peixe”, ela disse. Mas contamos e, em vez de 16, ela colocou 14. “Está bom.” Então tá. Um a um, ela quebrava os ovos em uma vasilha antes de adicionar ao peixe.

E a astúcia que sigo em casa provou-se mais uma vez bem útil, pois um dos ovos estava podre. “Tá vendo?” E desapareceu e reapareceu em um segundo, com um spray desses que se colam nas paredes do banheiro. Espirrou aquele perfume forte pela cozinha toda, para o espanto e tosse das duas testemunhas. Se o guefilte fish sairá com aroma do campo, não sabemos ainda.

Não consegui precisar a quantidade de sal e açúcar com que o peixe foi temperado. Mas sabia que chegava a hora menos agradável do dia: provar um tequinho daquela mistura de peixe cru, com ovo cru e cebola crua moída pra ver se estava no ponto. Não estava. Foram necessárias mais umas duas provas daquele negócio. Tempero nos trinques, era preciso adicionar a farinha de matzá.

 Pelas minhas contas, foi mais ou menos uma xícara, mas não se fiem. A consistência da massa é de almôndega molinha (por falta de referência melhor). Há quem faça o guefilte fish em bolinhas, tal como as almôndegas. Dona Clara faz tijolinhos, que embala em papel manteiga e congela até o dia de cozinhar no caldo de peixe. Conseguimos fazer com que ela sentasse para demonstrar como fazia os bolinhos.

 ”Ela é bem jeitosinha”. A essas alturas, eu já estava me achando.

Alternamos, amiga e eu, a feitura dos pacotes, que foram guardados no freezer “do quartinho”. Missão cumprida, fomos conversar um pouco. Dona Clara se trocou, pôs um batom vermelho e dei-lhe um beijo na bochecha, registrado em foto (se ela autorizar, coloco aqui). Fomos almoçar numa cantina e a deixamos na manicure. Não sem antes ganhar mais beijos e ouvir que eu podia ligar para ela, que já éramos amigas. E eu nem quebrei nada.

 

Daqui a pouco saberei o resultado desse guefilte fish. É que a amiga, em mais uma demonstração de generosidade e tolerância com a crença alheia, convidou-me a passar a primeira noite do Pessah em sua casa. Escrevo isso correndo para me aprontar, pois vou ajudar na cozinha também. E espero não cometer nenhuma gafe… quando avistar a mesa, pretendo não soltar um “Jesus Cristinho, quanta comida!”

 

Boa Páscoa e Chag Sameach a todos!

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Namorado Crocante em Cama Quentinha

É uma pena que os textos das receitas publicadas no site do programa Menu Confiança sejam assim, tão desabridos, burocráticos, sem sal. Adoraria que a redação fosse mais cuidadosa, com explicações um pouquinho mais claras, quem sabe com os comentários divertidos e um pouquinho do sotaque do Claude Troisgros.

Ontem, enquanto preparava esse Namorado Crocante com Molho Antiboise, tentei lembrar de alguns detalhes do programa assistido há um tempo (o azeite ia todo para o refogado, ou uma parte era adicionada no final? quanto vai de urucum, uma pitadinha ou uma pitadona? o trigo empana o peixe todo ou só um lado?), mas tudo o que me vinha à mente era o sotaque do homem: namorrádo, crrocõntch, orrientále, tomááta…

Tirando o fato de que estorriquei metade dos filés, e que a quantidade de ovos (quatro, para besuntar quatro filés de um lado só!) devia estar errada, o prato é facílimo, rápido, uma delícia e não exige nenhuma habilidade de chef. É divertido empanar dum lado só com cubinhos de pão e esse molho, ah, esse molho antiboise deixou o peixe ainda mais gostoso, oferecido, cheio de preguiça, facinho-facinho, como se tivesse acabado de acordar, ainda na cama quentinha.

A receita original está lá no site do programa, para cadastrados. Partilho aqui, com o Leitor e a Leitora, como o prato foi reproduzido em meus domínios:

Namorado Crocante (para 2)

Ingredientes:

  • 400g de namorado, em 4 filés
  • sal e pimenta a gosto
  • farinha de trigo para empanar (calculo mais ou menos meia xícara, um pouco deita-se fora, não há muito jeito)
  • 1 ovo
  • 3 fatias de pão de forma
  • azeite para grelhar o peixe

Como fazer:

  1. Com uma faca de serra, corte as fatias de pão em cubos bem pequenos e deixe-os num prato fundo.
  2. Tempere os filés com sal e pimenta. Noutro prato, despeje a farinha de trigo e passe os filés por ela, dando batidinhas em seguida para tirar todo o excesso. Gosto de deixar só uma camada bem fininha, só para tirar a umidade o suficiente para o peixe se agarrar com o ovo.
  3. Num terceiro prato, bata o ovo ligeiramente, só até misturar. Pegue cada filé com as duas mãos e delicadeza, encoste um dos lados no ovo para molhar e fazer uma cola e, em seguida, pressione o filé nos cubinhos de pão, lado com ovo para baixo, e reserve.
  4. Aqueça um fio de azeite na frigideira em fogo beeeeem baixinho e deite ali o namorado, lado com pão para baixo, até dourar. Em seguida, adicione mais um fio de azeite e, ainda no fogo baixo, grelhe a outra banda, aquela que ficou pelada. Nos primeiros eu fiz certo, fiquei de olho, volta-e-meia afastava a frigideira do fogo, juntava mais um pouco de azeite e o pão ficou linda e delicadamente tostado. Da metade pro fim, entretanto, atendi telefone, botei a mesa, relaxei, me achei a supercompetente, fiquei de frozô, de trelelê e carbonizei, praticamente ‘asfaltei’ o empanado. Com muito custo, consegui separar o piche do peixe, troquei de frigideira e finalizei o cozimento, de modos que metade da receita virou somente um namorado grelhado envolto numa nada sutil ‘névoa ambiente com toques de fumacê’. Ao Leitor e à Leitora, recomendo concentração e que deixem para grelhar o peixe quando tal do molho antiboise estiver no jeito, só para garantir :)
Molho Antiboise
Se o peixe eu fiz tal e qual, minha memória, a despensa e o supermercado faltaram comigo, de modo que algumas substituições foram necessárias.
Ingredientes:
  • 4 tomates sem pele nem sementes, em cubinhos
  • 1/2 colher de cebola beeeeem picadinha
  • 1 dente pequeno de alho picado
  • 60 ml de vinagre de vinho tinto
  • 30 ml de molho de soja
  • 75 ml de azeite extra virgem (desculpem-me pelos números quebrados, é que fiz metade da receita)
  • 1 colher de chá de grãos de mostarda (a receita pede coentro em grão, mas não havia para comprar)
  • Pimenta malagueta ou Mole Mexicano a gosto (esqueci!)
  • 1/2 colher de chá de colorau (não tinha urucum em casa, uma pena)
  • Salsa picada (aqui foi a memória mesmo, acabei por usar orégano fresco da micro-horta e ficou ótimo)
  • Sal a gosto (recomendo uma pitadinha de nada junto com a cebola, ou que você adicione só no final, pois o shoyu já é salgado)

Como fazer:

  1. Numa frigideira grande, aqueça o azeite. Nele refogue a cebola e o alho. Quando estiverem transparentes, adicione o tomate. Deixe cozinhar em fogo baixo por 20 minutos. A receita mandava cobrir a frigideira, li errado e deixei descoberta, mas não deu problema.
  2. Desligue o fogo, incorpore os demais ingredientes, prove o sal e sirva.

No programa, o Claude serviu esse peixe com vagem oriental, que nada mais é do que o vegetal frito rapidamente numa panela repleta de óleo fumegante. Deve ser bom, mas preferi cozê-las no vapor. Para servir, arrume as vagens no prato, cubra com um pouco do molho e coroe tudo com o namorado crocante, todo pimpão.

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Peixe Rápido com Leite de Coco e Grão de Bico

Peixe com Leite de Coco

Já vi gente se afogar com espinha de peixe. Embora não tenha eu mesma passado pela experiência, sei que o episódio é capaz de traumatizar. Dizem os antigos que nestas horas o líquido não ajuda, o certo é ter sempre por perto um bocado de pão, uma colheradona de arroz ou um punhado de farinha para ajudar a descer a lança que se prendeu na garganta.

É como o ardor da pimenta que, a contrário do que dizem os desenhos animados e o senso comum, não se aplaca com água nem cerveja. O líquido, neste caso, só faz espalhar a queimação por toda a boca. O iogurte neutraliza o tempero e restabelece um pouco a dignidade, mas na falta dele o incauto deve mesmo apelar é, novamente, para um naco e pão, um bocado de arroz, um tanto de farinha.

No intento de evitar que as lágrimas dos convivas sejam de pavor ou ardume e não de tanto rir, o jantar-urgente foi preparado com muito bem organizados filés de pescada branca, meticulosamente livres de espinhas e nadica de pimentas. O Leitor e a Leitora fiquem à vontade para adicionar outros temperos, na medida da malemolência e picância toleradas pelos integrantes de sua mesa. Tenho pra mim que uma pimenta dedo-de-moça saberia aqui muitíssimo bem, testarei em breve.

O peixe, por sua vez, também pode ser substituído (linguado, bacalhau fresco, robalo, o que sua vontade mandar), desde que muito asseado e sem surpresas, pois o colorido do prato não combinaria com o terror de presenciar o engasgo de um ente querido. Por via das dúvidas, seja ladino(a), cozinhe um arroz branco, deixe à vista uns pãezinhos e providencie um uma tigela com farinha ;)

A receita a seguir, que já teve outras versões não registradas tão saborosas quanto, desta vez ganhou mais sustância com a companhia do grão de bico já cozido (aqueles prontos, no vapor ou na latinha, também hão de funcionar).

Ingredientes: (para três)

  • 600 g de filé de pescada branca
  • 4 dentes de alho esmagados
  • 1 colher de sopa rasa de sal (ou a gosto)
  • sumo de dois limões
  • 1 colher de sopa de azeite
  • 2 xícaras de grão de bico cozido
  • 2 tomates grandes, bem maduros, em rodelas
  • 1 cebola roxa em rodelas finas
  • 1 pimentão amarelo em rodelas
  • 200 ml de leite de coco
  • 1 colher de sopa de azeite de dendê
  • salsinha fresca a gosto

Como fazer:

  1. Ligue o forno para preaquecer.
  2. Lave o peixe em água corrente e deixe escorrer. Numa vasilha ou prato, misture o alho, o sal e o sumo de limão. Deixe o peixe marinar nesse tempero enquanto prepara o passo 3.
  3. Unte com azeite o fundo de uma travessa que possa ir ao forno e faça uma caminha de grão de bico. Sobre ele, arrume fatias de um tomate, depois a cebola e metade do pimentão.
  4. Acomode os filés de peixe na travessa, preferencialmente numa só camada. Sobre o peixe, disponha o restante do pimentão e as rodelas do outro tomate. Vai sobrar um pouco do tempero do peixe, pode derramar por cima de tudo.
  5. Despeje o leite de coco na travessa, pingue o azeite de dendê e leve ao forno, coberto com papel alumínio, por uns 20 minutos. Meu forno não é muito parâmetro para nada, de modos que convém dar uma espiadinha antes para checar se já está bom. Sirva com a salsinha fresca picada (ou, se gostar, coentro).

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Atum Grelhado com Gergelim e Molho “Picante Suave”

Há tempos ensaio reproduzir em casa aquele atum fresquíssimo com crosta de gergelim, grelhadinho por fora e bem cru por dentro.

Ora faltava-me disposição para procurar uma peixaria de confiança, ora faltava atum na peixaria de confiança, ora o tempo era escasso para cozinhar qualquer coisa, ora estava traumatizada por ter ateado fogo nas sementinhas.

Num belo domingo de sol, fui buscar o peixe, meio quilo para duas pessoas, que sou exagerada desde sempre, mas não sobrou foi nadinha para contar a história. Nem foto consegui fazer, tamanha a vontade de atacar minha nova conquista culinária!

Ingredientes:

  • 500 g de atum muito fresco
  • azeite para besuntar
  • um pacote de gergelim torrado [comprei pronto dessa vez!]
  • um pacote de gergelim branquinho [a quantidade usava vai depender da quantidade de pedaços de atum: quanto mais pedaços, mais gergelim será necessário]

Para o molho:

  • 1/2 xícara de cebolinha verde picada
  • 1 colher de sopa de gengibre fresco ralado na hora
  • 2 pimentas dedo-de-moça
  • suco de meio limão
  • 1 colher de sopa de azeite
  • 1/2 xícara de shoyu

Como fazer:

  1. Prefira compraro atum já limpinho, se possível em pedaços cilíndricos para um efeito mais bonito. Se usar filés, eles passarão do ponto.
  2. Unte os pedaços com azeite e deixe-os reservados enquanto prepara o molho.
  3. Abra as pimentinhas com cuidado (recomenda-se usar luvas ao lidar com elas), retire as sementes e pique-as fininhas.
  4. Misture os ingredientes do molho e disponha-o numa molheira que possa ser levada à mesa.
  5. Aqueça uma frigideira antiaderente em fogo forte.
  6. Num prato fundo, misture os gergelins e nele passe os pedaços de atum. O azeite vai ajudar a colar as sementinhas no peixe.
  7. Leve o atum assim coberto para a frigideira fumegante. O calor vai selar o peixe e algumas sementinhas vão pipocar. Não se assuste. Um minuto de cada lado é o suficiente. Vire o atum com uma pinça, para não feri-lo. Leve à mesa, fatie e coma com o molhinho por cima.
  8. Caso prefira um molho mais picante, você pode deixar as sementinhas da pimenta, acrescentar mais uns dedinhos, carregar mais no gengibre… fique à vontade!
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