Cozinhando de Ouvido

Posso dizer se a pasta, os legumes e verduras, o feijão, a batata e o arroz estão cozidos só de olhar (o que não impede me em absoluto de roubar um que outro pedacinho pra acalmar as lombrigas, digo, pra ter certeza). Às vezes também consigo pressentir a hora de retirar o bolo pelo aroma que se desprende do forno e detectar o ponto de uma massa pelo jeito que ela se envolve nas mãos, contando assim com a ajuda da visão, paladar, olfato e tato para lograr êxito na feitura da comida.
A audição, entretanto, costuma ficar relegada a ocupar-se das notícias da TV, da seleção musical, da voz dos comensais ou da própria (o que ultimamente tem ocorrido mais amiúde). Exceções feitas ao frigir dos ovos, ao refogar da cebola, ao oco que sai das batidinhas no pão recém-assado, ao fervilhar da sopa e aos últimos suspiros da água do arroz, pouco exercito os ouvidos na cozinha. E foi por conta disso que topei, ato contínuo, testar a receita do moço da TV.
Era um arremedo do aïoli espanhol, que originalmente exige apenas dentes de alho, azeite de oliva, um pilão e paciência para emulsionar (já fiz, funcionou e comi, registre-se aqui o pequeno efeito colateral de que por uma semana desapareceram, num raio de 20 metros da minha pessoa, todas as edições desses livros de vampiro que andam tão de moda por aí). Digo arremedo porque o moço ladino empregou um ovo, e pá-pum, fez o trem em menos de um minuto, fiando-se nas maravilhas da eletricidade e… em seus ouvidos.
A partir de agora, para mim, a receita ganha o nome de Maionese de Ouvido, espiem (ou escutem) só que fácil:

Ingredientes:

  • 1 ovo
  • 1 dente de alho
  • azeite de oliva
  • umas gotinhas de vinagre jerez (ou aquele que preferir)
  • pitada de sal (só no final)

Como fazer:

  1. No copo de um daqueles mixers de mão, deite o ovo e o alho. Complete com azeite de oliva até chegar a 200 ml. Pingue o vinagre (é pouquinho mesmo, senão desanda)
  2. Aqui entra a beleza da coisa. Posicione o mixer no centro do copo, bem no fundo, ligue o aparelho, feche os olhos e escute com atenção. Em determinado momento, o barulhinho dele vai mudar! Abra os olhos e comprove que a maionese está toda (ou quase toda) emulsionada. Sem desligar o aparelho, levante-o devagar em linha reta, sem remexer, para finalizar a textura.
  3. O sal vai só no final mesmo, para não arruinar a conversa do ovo com o azeite. Se quiser, adicione também umas gracinhas. Pode ser cheiro verde, páprica, pimenta, curry, pepininho em conserva, o que der na telha.

Fiquei tão feliz de ter acertado de primeira (e de reativar meus sentidos para a cozinha), que não fotografei a feita. Servi uma colherada ao lado de umas folhas de alface e um bifão bacana passado na chapa.

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Panquecas de Cottage com Raspinhas de Limão

Dizem que devemos comer como um rei no desjejum, feito um príncipe no jantar e tal qual mendigo no jantar. Apesar de acordar com a boca costurada, sobrancelhas em xis, voz de caverna e ser capaz de virar gente somente após uma caneca de café puro e amargo coado na hora, faço questão de comer equilibrada e substanciosamente na primeira refeição do dia.

Aos domingos, dispondo de mais tempo e inspirada pela receita da dona inglesa da TV, posso até arriscar umas panquecas…

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Ovo do Amor #1

Ovo do Amor #1

Foi no Rainhas do Lar (onde mais?) que vi pela primeira vez umas fotos mui graciosas de ovos estrelados em formato de coração. Tratava-se de material coletado na Rede Mundial de Computadores, motivo pelo qual não pude saber exatamente como reproduzir a feita.

Mas numa das fotos foi detectada a presença de um prático aro de metal em formato de coração, com um cabinho retrátil para facilitar o trabalho de retirá-lo da frigideira.

Adquiri um exemplar e lancei-me à tentativa número 1. Discorro aqui o passo a passo, já com minhas anotações para próximas experiências:

  1. Depois de lavar bem e secar o aro, escolhi uma frigideira antiaderente que estivesse em ótimo estado. Usei a menorzinha de todas, na qual o aro coube perfeitamente, com uma folga de cerca de um centúmetro nas pontas do coração.
  2. Untei levemente a frigideira e o aro com azeite de oliva.
  3. Levei os dois, aro e frigideira, para aquecer em fogo brando. Da próxima vez, tentarei fazer o processo com os dois ainda frios para ver o que acontece.
  4. Na intenção de não fazer balbúrdias com o ovo, cuidei para quebrá-lo da forma mais limpa possível, usando as costas de uma faca. Fiz isso na menor altura possível entre o ovo e a forma, o que me rendeu uma queimadura no dedo da aliança, pois esbarrei sem querer na alcinha de metal. Preciso lembrar-me de que os dedos queimam em contato com metal quente da próxima vez.
  5. Não me dei por vencida e, apesar do “pssssss” que a pele fez, mantive-me firme em meu propósito de deitar o ovo delicadamente dentro do arinho. Confesso que a manobra foi mais difícil do que eu pensava, pois a danada da gema correu para um dos lados e ali ficou.
  6. Salpiquei o ovinho com flor de sal (se preferir, pode usar sal fino comum) e pimenta moída na hora.
  7. Ao ver que o ovo borbulhava um pouco (e não estava lisinho e perfeito como o da foto), quis apressar as coisas e tasquei uma tampa de panela na frigideira pra dar uma “leve abafada”. Acontece que a tal alça de metal tem uma capinha de plástico muito da ordinária que, com o vapor, encrespou-se toda, dando à cozinha aquele cheiro característico de cabo de panela queimado. Jamais cobrirei a frigideira novamente.
  8. Felizmente, consegui tirar a tampa a tempo de salvar o ovinho, que em nada foi prejudicado pelo cheiro.
  9. Como podem ver, a base do ovo dourou-se um pouco. Não que seja ruim, mas pretendo vigiar melhor o fogo da próxima vez, retirando a frigideira do lume de quando em quando para ver o que acontece.

Comi o ovinho no café-da-manhã com uma fatia de pão integral e ficou tremendamente gostoso.

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