A culpa é do Né!

Foi o tio por parte de marido que provocou a cisma ao comentar sobre um molho de calabresa que todos comeram, repetiram, se lambuzaram e apelaram ao pãozinho francês quando a massa acabou. A despeito dos protestos da esposa (que cozinha uma barbaridade e esteve ali ao lado o tempo todo para garantir que nada viesse a desandar), bateu o pé e atribuiu ao seu preciso corte da linguiça e à sua perfeita mescla de temperos o sucesso da empreitada. Era dele, portanto, o mérito do jantar e não se falava mais nisso.

De fato, ninguém mais questionou, novos assuntos e risadas surgiram à mesa, o sorvete foi servido, os olhinhos começaram a pescar, um bocejo aqui outro ali denunciaram a hora da soneca e o domingo seguiu tranquilo. Tranquilo para quase todos, exceto para mim, que não parava de pensar no tal molho. E sonhei com ele na soneca, e sonhei com ele mais tarde, e não sosseguei até fazer o dito-cujo, logo eu, que nem sou muito fã de calabresa. Pois ficou foi um espetáculo, comi, repeti, só não apelei para o pão porque não tinha em casa, arruinei qualquer intenção de começar a semana na sopinha e a culpa é toda do Né :)

Ingredientes (para dois)

  • 1 colher de sopa de azeite
  • cerca de 1 xícara de chá de linguiça calabresa (portuguesa também fica boa) em fatias finas
  • 1/2 cebola cortada em tiras beeeeem fininhas
  • 1 colher de sopa rasa de açúcar
  • 1/2 xícara de chá de vinho tinto
  • 1 lata de tomate pelado
  • pitadinha (inha mesmo) de nada de ervas secas: manjericão, salsinha e orégano (erva-doce também deve ornar)
  • sal só se precisar (pra mim não careceu)

Como fazer

  1. Leve a linguiça para fritar rapidamente no azeite até dourar. Junte a cebola, deixe murchar um pouco, adicione o açúcar e mexa até a cebola dourar.
  2. Adicione o vinho e deixe evaporar um pouco, raspando bem aquele fundo grudadinho.
  3. Junte os tomates pelados, quebrandos-o um pouco com a colher de pau.
  4. Tempere levemente com as ervas e deixe apurar. Se necessário for, junte um bocadinho de água.
  5. Sirva com talharim al dente ou polenta, acompanhe com umas folhas de rúcula se gostar e, sem a menor culpa, mande às favas qualquer idéia de começar a semana na salada e na sopinha.
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Namorado Crocante em Cama Quentinha

É uma pena que os textos das receitas publicadas no site do programa Menu Confiança sejam assim, tão desabridos, burocráticos, sem sal. Adoraria que a redação fosse mais cuidadosa, com explicações um pouquinho mais claras, quem sabe com os comentários divertidos e um pouquinho do sotaque do Claude Troisgros.

Ontem, enquanto preparava esse Namorado Crocante com Molho Antiboise, tentei lembrar de alguns detalhes do programa assistido há um tempo (o azeite ia todo para o refogado, ou uma parte era adicionada no final? quanto vai de urucum, uma pitadinha ou uma pitadona? o trigo empana o peixe todo ou só um lado?), mas tudo o que me vinha à mente era o sotaque do homem: namorrádo, crrocõntch, orrientále, tomááta…

Tirando o fato de que estorriquei metade dos filés, e que a quantidade de ovos (quatro, para besuntar quatro filés de um lado só!) devia estar errada, o prato é facílimo, rápido, uma delícia e não exige nenhuma habilidade de chef. É divertido empanar dum lado só com cubinhos de pão e esse molho, ah, esse molho antiboise deixou o peixe ainda mais gostoso, oferecido, cheio de preguiça, facinho-facinho, como se tivesse acabado de acordar, ainda na cama quentinha.

A receita original está lá no site do programa, para cadastrados. Partilho aqui, com o Leitor e a Leitora, como o prato foi reproduzido em meus domínios:

Namorado Crocante (para 2)

Ingredientes:

  • 400g de namorado, em 4 filés
  • sal e pimenta a gosto
  • farinha de trigo para empanar (calculo mais ou menos meia xícara, um pouco deita-se fora, não há muito jeito)
  • 1 ovo
  • 3 fatias de pão de forma
  • azeite para grelhar o peixe

Como fazer:

  1. Com uma faca de serra, corte as fatias de pão em cubos bem pequenos e deixe-os num prato fundo.
  2. Tempere os filés com sal e pimenta. Noutro prato, despeje a farinha de trigo e passe os filés por ela, dando batidinhas em seguida para tirar todo o excesso. Gosto de deixar só uma camada bem fininha, só para tirar a umidade o suficiente para o peixe se agarrar com o ovo.
  3. Num terceiro prato, bata o ovo ligeiramente, só até misturar. Pegue cada filé com as duas mãos e delicadeza, encoste um dos lados no ovo para molhar e fazer uma cola e, em seguida, pressione o filé nos cubinhos de pão, lado com ovo para baixo, e reserve.
  4. Aqueça um fio de azeite na frigideira em fogo beeeeem baixinho e deite ali o namorado, lado com pão para baixo, até dourar. Em seguida, adicione mais um fio de azeite e, ainda no fogo baixo, grelhe a outra banda, aquela que ficou pelada. Nos primeiros eu fiz certo, fiquei de olho, volta-e-meia afastava a frigideira do fogo, juntava mais um pouco de azeite e o pão ficou linda e delicadamente tostado. Da metade pro fim, entretanto, atendi telefone, botei a mesa, relaxei, me achei a supercompetente, fiquei de frozô, de trelelê e carbonizei, praticamente ‘asfaltei’ o empanado. Com muito custo, consegui separar o piche do peixe, troquei de frigideira e finalizei o cozimento, de modos que metade da receita virou somente um namorado grelhado envolto numa nada sutil ‘névoa ambiente com toques de fumacê’. Ao Leitor e à Leitora, recomendo concentração e que deixem para grelhar o peixe quando tal do molho antiboise estiver no jeito, só para garantir :)
Molho Antiboise
Se o peixe eu fiz tal e qual, minha memória, a despensa e o supermercado faltaram comigo, de modo que algumas substituições foram necessárias.
Ingredientes:
  • 4 tomates sem pele nem sementes, em cubinhos
  • 1/2 colher de cebola beeeeem picadinha
  • 1 dente pequeno de alho picado
  • 60 ml de vinagre de vinho tinto
  • 30 ml de molho de soja
  • 75 ml de azeite extra virgem (desculpem-me pelos números quebrados, é que fiz metade da receita)
  • 1 colher de chá de grãos de mostarda (a receita pede coentro em grão, mas não havia para comprar)
  • Pimenta malagueta ou Mole Mexicano a gosto (esqueci!)
  • 1/2 colher de chá de colorau (não tinha urucum em casa, uma pena)
  • Salsa picada (aqui foi a memória mesmo, acabei por usar orégano fresco da micro-horta e ficou ótimo)
  • Sal a gosto (recomendo uma pitadinha de nada junto com a cebola, ou que você adicione só no final, pois o shoyu já é salgado)

Como fazer:

  1. Numa frigideira grande, aqueça o azeite. Nele refogue a cebola e o alho. Quando estiverem transparentes, adicione o tomate. Deixe cozinhar em fogo baixo por 20 minutos. A receita mandava cobrir a frigideira, li errado e deixei descoberta, mas não deu problema.
  2. Desligue o fogo, incorpore os demais ingredientes, prove o sal e sirva.

No programa, o Claude serviu esse peixe com vagem oriental, que nada mais é do que o vegetal frito rapidamente numa panela repleta de óleo fumegante. Deve ser bom, mas preferi cozê-las no vapor. Para servir, arrume as vagens no prato, cubra com um pouco do molho e coroe tudo com o namorado crocante, todo pimpão.

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Molho Simples de Tomate Composto

Encantam-me os nomes das coisas, isso desde sempre. Ontem dei-me conta de que ou a criatividade para batizar frutas e legumes anda em baixa, ou essas plantas fecundam-se em encontros às vezes improváveis, formando nomes compostos um tanto surpreendentes.

Banana-maçã, abóbora-moranga, tomate-caqui, umbu-cajá, laranja-pêra, banana-figo, tomate-cereja, feijão-aspargo, batata-aipo, limão-cravo, hortelã-pimenta, abóbora-laranja…

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Pesto de Nozes sem Alho

Tem dias em que, além de bater um bolinho, agarra-me uma vontade de bater temperos no pilãozinho. Foi por isso que ontem, em pleno feriado em São Paulo, pus-me a preparar uma receita ultra-rápida e saborosa para o almoço.

Comprei um belo maço de manjericão fresco, pus água a ferver para a massa curta e atirei-me ao prazer da batucada aromática.

Subverti a receita original, no entanto:

  • Tenho uma certa aflição de comer alho cru e evito-o sempre que posso. Acho que no pesto, particularmente, fica muito pesado e indigesto. Pulei essa parte.
  • Troquei os pinoles por nozes e o sabor ficou ótimo. Da próxima vez tentarei com castanha de caju.
  • O parmesão da receita original foi suprimido por pura falta de memória. Olvidei-me de comprá-lo quando fui buscar o manjericão, mas não achei que fez muita falta no resultado final, pois as nozes deram uma textura interessantíssima.

A receita fiz a olho, não tem muito como precisar os ingredientes. Mas tentarei dar as indicações para que a leitora e o leitor pelo menos tenham um guia de como fazer.

Ingredientes:

  • um punhado generoso de folhas frescas e lavadas de manjericão (deve ter dado umas 40 folhas)
  • 1/4 xícara de nozes
  • 6 grãos de pimenta-do-reino branca
  • 1 colher de chá de sal grosso
  • 2 colheres de sopa de azeite para misturar e mais (a gosto) para finalizar

Como Fazer:

  1. Leve todos os ingredientes ao pilãozinho e entregue-se àquele bate-soca-esmaga terapêutico com vontade.
  2. O sal grosso ajuda a triturar as folhinhas, parece mágica!
  3. Prove para ver se está de acordo com seu gosto, adicionando mais deste ou daquele ingrediente,se preferir. Normalmente utiliza-se mais azeite, mas minha idéia era obter um molho mais levinho. Faça o seu como preferir.
  4. Quando escorrer a massa, que deve estar al dente, lembre-se de guardar um pouco da água quente (umas duas colheres de sopa servem). Ela vai ajudar a envolver melhor o molho. No meu caso, coloquei essa água dentro do pilãozinho, junto com o pesto, e em seguida misturei tudo à massa.
  5. O processo todo levou uns 20 minutos, desde a hora em que coloquei a água para ferver. Muito prático, não? E não suja quase nada de louça, ponto fundamental quando se está com preguiça, sem assistente, ou ambos :)
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Em busca do béchamel perfeito…

…..Sempre fiz esse molho branco meio assim, a olho… até que dia desses me deu vontade de entender melhor as proporções de manteiga:trigo:leite e checar se o que eu chamava de molho branco era mesmo o tal do béchamel. Encontrei uma explicação bem didática daquela que se tornou uma das minhas autoras preferidas.

Aqui vai um trecho do livro:

“Sauce Béchamel
Para uma pequena quantidade de béchamel autêntico, aqueça primeiramente 250ml de leite numa panela pequena; derreta 45g de manteiga em outra panela, adequadamente espessa. Assim que a manteiga começar a espumar, retire do fogo, junte 2 colheres de sopa rasas de farinha de trigo comum peneirada e misture imediatamente. Depois, junte um pouco de leite aquecido, mexendo sempre, até formar uma pasta grossa. Leve a panela de volta ao fogo brando e, aos poucos, junte o restante do leite. O sucesso do molho vai depender dessa operação inicial, pois, uma vez que a manteiga, a farinha e o leite estejam combinados e lisos, é pouco provável que o molho vá encaroçar . Tempere a mistura com cerca de ½ colher de chá de sal, 1 pitada de noz-moscada ralada e um pouco de pimenta-do-reino branca moída na hora. Ponha um difusor de calor sobre a chama e deixe o molho cozinhar delicadamente em fogo muito brando por no mínimo 10 minutos, mexendo sem parar. Metade dos molhos malfeitos que se encontram por aí são resultado de cozimento insuficiente, pois têm gosto de farinha crua. Além disso, é muito comum ficarem muito espessos e pastosos. Um bom béchamel deve ter consistência de creme.
Depois de 10 minutos, a panela que contém o béchamel deve ser colocada dentro de uma maior contendo água. Esse banho-maria improvisado é um procedimento melhor do que cozinhar o molho na parte de cima de uma panela dupla, porque no banho-maria o molho é envolto pelo calor, em vez de estar apenas sobre este, portanto, cozinha melhor e mais completamente.”

Cozinha Francesa Regional
DAVID, Elizabeth
Companhia das Letras
ISBN: 8535900667 


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