
A idéia era fazer uma receita ligeira para ver se a vermelhidão das bochechas dava uma trégua. ( O Leitor e a Leitora queridos que assistiram ao programa devem ter percebido os ganchos que repuxavam meu rosto formando aquela careta congelada, uma verdadeira frozen frown, hei de inventar uma bebida com esse nome!)
Algo me dizia que os vizinhos não aprovariam o som da batedeira à uma e meia da manhã, donde concluí que uma mousse de chocolate não seria o ideal. Torta de limão também exigiria o auxílio do eletrodoméstico, pois já estava eu com bastante sono e exercitar as pelancas do adeus naquele momento para bater na mão as claras em neve não seria tão divertido.
Um bolinho de mui rápida execução foi a escolha. A quantidade seria o suficiente para o tabuleiro pequeno, ocupando mais ou menos metade do copo do liquidificador, para não levar mais do que alguns segundos para bater. Ficaria bonito com amoras por cima, que explodiriam tingindo a massa de um roxo forte.
Antes mesmo de reunir os ingredientes, já havia batizado a feita:
“Bolinho Ronnie Von“.
Apropriado e simpático, pensei.
Ingredientes:
Para a massa…
- 3 ovos em temperatura ambiente
- 1/2 xícara de chá de iogurte natural [usei do que faço em casa]
- 1/2 colher de chá de essência de baunilha (opcional)
- 1 xícara de chá de açúcar
- 2 colheres de sopa de manteiga sem sal em temperatura ambiente
- 1 1/2 xícara de chá de farinha de trigo
- 1 colher de sopa de fermento em pó
Para a cobertura (ou recheio)…
- um punhado de amoras [Não sei bem precisar a quantidade, usei meio pacote das congeladas. Se tiver o privilégio de uma amoreira nos arredores, experimente colher as frutinhas, pintando de roxo-escuro as pontas dos dedos e a língua, porque você não vai mesmo resistir]
- açúcar cristal para polvilhar
Como fazer:
- Ligue o forno em 180 graus para preaquecer.
- Unte um tabuleiro pequeno com manteiga ou margarina. Reserve.
- Coloque os ingredientes da massa no copo do liquidificador, na seqüência em que são apresentados. Bata por alguns segundos somente para misturar. Desligue. Abra o copo para conferir e, caso encontre pedaços de farinha de trigo, raspe as beiradas e ligue novamente por uns três segundos.
Lembre-se de não fazer barulho, pois são quase duas da manhã e o vizinho nada tem a ver com seus ímpetos de cozinheiro insone.
- Despeje a massa no tabuleiro, espalhando-a com cuidado.
- Posicione as amoras sobre massa à sua moda.
Tive a vontade e a paciência de parti-las ao meio e organizá-las em alas, todas com o lado cortado para baixo. Deveria ter feito uma foto, de tão bonito que ficou.
- Salpique açúcar cristal por cima de tudo, sem exagerar, e leve ao forno.
Fiquei imaginando uma bela crosta dourada entremeada pelos riozinhos de suco e pelas amoras. Mas a impermanência, que é uma moça ardilosa, achou por bem se manifestar.
E assim que o bolo começou a crescer, todas as amoras, numa espécie de nado sincronizado com coreografia única e irreversível, mergulharam para o fundo, transformando toda aquela organização artificial e previsível em entropia.
O bolo não vai sair como o esperado, pensei. Será preciso rebatizá-lo.
- Trinta e cinco minutos foram a conta para que, ao enfiar um palito no meio do bolo e retirá-lo rapidamente, sua superfíce se mostrasse limpa e seca.
A crosta doirada e o vapor doce que se desprendia foram irresistíveis. Tasquei um pedaço do bolo ainda pelando para saber como havia ficado.
- Poderia jurar que as amoras estavam aninhadas no meio da massa, mas haviam se acomodado no fundo da forma, tal e qual aqueles bolos de banana caramelada… ah, se eu soubesse antes!
Poderia ter feito tudo ao contrário: açúcar cristal cobrindo a forma untada, depois as amoras e a massa por cima.
Mas meu bolinho soube bem, apesar do seu jeito acanhado. E teve suas semelhanças com o minha aparição no programa, que poderia ter sido mais participativa. Quem sabe menos acabrunhada e caretilda.
Mas a natureza seguiu seu curso e o que tinha por destino se encolher de timidez, para o fundo do sofá e da massa se dirigiu. O que não significa, em absoluto, que não tenha resultado gostoso apesar de tudo.
Mas eu bem levei uma bronca da Vogra por não ter contado na TV que aprendi com ela a fazer o lábane!