Televisão de Cachorro


Disparado o mais fácil, mais saboroso e mais caro frango que assei na vida. De lá de dentro da geladeira do supermercado me sussurrou que era limpinho, não havia tomado hormônios, pesava 1,700 kg… e que seria meu por 15 euros. Quinze euros pelo franguinho caipira espanhol.

Morrendo de medo de estropear tão valioso ingrediente, desafiei o bom senso e em vez de esquartejar o bicho para diluir o risco, tomei o caminho oposto e resolvi, porque era domingo, assar tudo de uma só vez.

Deixei meu sedutor amigo fora da geladeira por uma hora para que se preparasse psicologicamente, preaqueci o forno a 220 graus, lavei e sequei o bicho, besuntei sua pele e entranhas com 50 gramas de manteiga, depois massageei sua pele e cavidade com a mistura de sal, pimenta moída na hora e ervas finas secas (1 colher de chá de cada).

Deitei o frango de ladinho numa forma justa para seu tamanho, tornozelos cruzados e amarados, forneei por 20 minutos, virei o bicho pro outro lado, mais 20 minutos, finalizei com 20 minutos de barriga pra cima (o frango, não eu, já que estava entretida consertando umas coisas no furdunço desse blog). A cada virada, mais uma besuntada com os sucos e manteiga do cozimento.

Já fora do forno, fiz para ele uma cabaninha com papel alumínio e deixei que descansasse por 10 minutos. O resultado foi uma pele dourada, um aroma irresistível e uma carne suculenta, macia, fresca e saborosa.  Não careceu de longas marinadas nem espetos giratórios, o danado se bastou!

Servi a televisão de cachorro para minha companhia mais constante (eu mesma) com um talharim adornado pelo molho que se formou no fundo da forma.

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Frango Bárbaro

2008 é o ano dos nenéns, estou convencida. É o segundo porteiro que vem me mostrar a foto do recém-nascido no celular, com aquele sorrisão comendo as orelhas, todo pimpão. Bár-ba-ra, olha que cabeludinha, enche os pulmões para contar enquanto abre a porta do elevador e aperta o botão do meu andar. Que linda, nome da minha irmã! Parabéns pela filhinha, até mais!

Barrigões aparecem aqui e ali, rostos rechonchudinhos fazem caretas para o “ultrassom 4D”, é menino, é menina, estamos grávidos, nasceu!

A receita a seguir, executada no fim de semana, estava à espera de uma alcunha até há pouco, quando cheguei em casa e ouvi do moço esse nome tão bonito. É leve, fresca, alegre, saudável e nutritiva. Dedico-a pois à mamãe barriguda, ao papai babão, à bebê cabeludinha e à minha querida irmã Babi*, que relampagueou por São Paulo na segunda-feira passada.

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Um homem inebriante, inesquecível, cheiroso…

Morava numa cidade onde havia, em quase todo bairro, um indiano em cada esquina, indiano servindo para designar desde lojinhas de conveniência que vendiam leite com  prazo de validade vencido, até portinhas quase suspeitas que entregavam fumegantes e aromáticas refeições em embalagens de alumínio, passando pelos movimentados restaurantes de paredes vermelhas com garçons de reluzentes cabelos negros e profundos olhos amendoados.

Variados foram os momentos felizes que tiveram o aroma das especiarias indianas como pano de fundo. No indiano da esquina dava um pulo naquelas horas em que me agarrava a vontade de bater um bolinho de cenoura e, no meio da função, descobria estar sem chocolate para a cobertura, pois o mercado mais próximo era longe demais para o adiantado da hora ou para o frio que fazia.

Era para o indiano da esquina que ligávamos quando não havia energia ou tempo para preparar o jantar, já que batatas fritas, sanduíches e pizzas de massa grossa não nos apeteciam, já havíamos recorrido ao chinês da esquina há poucas semanas e se era para comer algo em frente à TV, então que fosse gostoso, colorido, repleto de vegetais, com diversão para a boca e acalanto para o coração.

Foi num restaurante de paredes vermelhas e garçons de cabelo lustroso e olhos amendoados que, diante de um copo de lassi e em meio às palavras desconexas de uma frase desastrada, ensaiada e disfarçadamente corriqueira, ouvi um tímido e apaixonado eu te amo num idioma que não era o meu.

A paixão foi um pouco mais intensa e durou um tanto mais do que o ardido daquele frango ao curry que me arrebatou as pupilas gustativas e cujo fogaréu nem o lassi deu conta de abrandar. Vão-se os amores, ficam os sabores, já disse d’outra feita. E meu caso de amor com as especiarias indianas tem hoje mais anos de vida do que qualquer namoro ou casamento, daqui e d’alhures.

Pode ser pela conveniência de estar sempre logo ali, pode até bem ser pela alegria de receber à porta a pequena pilha de quentinhas variadas quando o estômago ronca e não há forças para ir ao fogão. Suspeito, no entanto, que foi a lembrança daquela noite no restaurante, da tão singela e ao mesmo tempo forte declaração de amor, da simpatia e cumplicidade dos garçons do cabelos pretos, do coração que pulava pela boca dormente de pimenta, do lassi geladinho a descer pela garganta, do sorriso bobo e das lágrimas que escapavam dos olhos de nós dois, que o curry ficou pra sempre marcado em minha memória gustativo-afetiva como ingrediente aconchegante, perfeito para comidas de alma.

Nostalgia é falta de memória, e enquanto revivo o momento para encontrar lá no fundo do baú as palavras que possam descrever a primeira vez que experimentei um curry típico, são mais nítidas as paredes, os barulhos, o tilintar dos talheres, os aromas e a ardência da língua do que a expressão facial, as palavras, a data, o bairro, a voz e o sotaque exato que me proporcionaram aquele momento tão caro. Se é verdade que o sapateiro olha pro sapato, a cozinheira em mim fez questão de lembrar com fidelidade a sensação do tempero, a despeito do que lhe disse o rapaz por quem estava enamorada.

O curry é feito homem inebriante e exótico, tinhoso e doce, gentil e cheiroso, forte e adorável, um ciumento incorrigível. Não dá bola pra chimango, acachapa a concorrência e faz soressair seus encantos diante de todo e qualquer outro ser vivente. Reina em minha despensa desde então, até pouco tempo somente na versão em pó. Foi uma rainha que me fez lembrar que tinha dele outra versão a testar.

Em formato de pasta, empreguei-o nesta receita simples e rápida para reconfortar-me, ao mesmo tempo com exuberância e leveza, às dez e tanto da noite de uma segunda-feira.

Ingredientes:

  • 1 colher de sopa de azeite ou óleo
  • 1 peito de frango em cubos
  • 1/2 cebola picada
  • 1 cenoura grande em rodelas finas
  • 1 colher de sopa bem cheia de curry em pasta
  • 200 ml de leite de coco
  • sal a gosto

Como fazer:

  1. Leve a manteiga com azeite ao fogo até aquecer bem. Frite nela o frango até dourar.
  2. Acrescente a cebola e a cenoura, refogue até aquecer, misture a pasta de curry e acrescente meia xícara de água quente para dissolver. Ele vai tomar corpo e engrossar o molho lindamente.
  3. Quando a cenoura estiver macia, porém ainda al dente, adicione o leite de coco.
  4. Deixe ferver até engrossar como mais goste, prove, corrija o sal e sirva com algum arroz branco aromático (usei arroz de jasmim, polvilhei com gergelim preto). Ao comer, aproveite para relembrar o momentos simples e felizes do passado, depois agradeça pelo privilégio do presente e finalize imaginando as alegrias da semana vindoura.
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Sopa de mãe e a mãe das sopas

Eis que na correria da vida lá fora, um dia antes do dia D, juntei panelas e temperos e carnes e legumes e utensílios e preparei três sabores diferentes de sopas, que a priori me apeteceram já pelo nome:

  • Carne com mandioca e legumes ao perfume de louro
  • Abóbora com cenoura e gengibre
  • Mandioquinha com alho-poró e manteiga

Esperava, com isso, dar certo aconchego aos dias de dieta líquida. Qual nada! Nenhuma delas, nem a substanciosa carne, nem a atrevida abóbora, nem a delicada mandioquinha me agradou o paladar. Um pouco pela temperatura – gelada, nada condizente com o frio da barriga e de fora dela - um pouco pela falta de inspiração maternal na hora da cocção, outro tanto por ter ignorado os princípios básicos da comida restituidora, errei na mão e tive de engolir muito a contragosto o resultado. Ruins não ficaram, mas faltou-lhes um quê de carinho.

Redimi-me hoje, com a simplicidade de uma canja daquelas que só a mãe (ou a gente, quando tem o firme propósito de auto-mimar-se) sabe fazer.

Ingredientes (para duas canecas):

  • 1 sobrecoxa de frango, sem osso, sem pele e sem gordura
  • 1 batata em cubos
  • 2 cenouras em cubos
  • 1 colher de sopa cheia de arroz cru
  • pitada de sal
  • 3 bolinhas de pimenta-do-reino branca
  • azeite para regar
  • sementes de papoula para polvilhar

Como fazer:

  1. Em panela pequena vão o frango, a batata, a cenoura, a pimenta e o sal. Cubra com água e leve ao fogo para cozinhar até que tudo esteja macio.
  2. Liquidifique tudo ou apenas desfie o frango.
  3. Ao servir, polvilhe a semente de papoula (ou salsinha fresca, se tiver) regue com azeite e contemple a barriga e o coração se aquecerem com a mãe das sopas, aquela que, junto com a prudência e o dinheiro no bolso, não faz mal a ninguém.
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Frango Ligeiro com Páprica e Iogurte

Frango Ligeiro com Páprica e Iogurte

Com o Sr. Dadivoso em restrição alimentar, reinam em minha casa alimentos ainda mais saudáveis.

E por saudáveis entenda-se também coloridos e apetitosos, pois frango desmaiado, alface tristonha e cenoura ralada todos os dias tornam a vida enfadonha e perigam causar danos irreversíveis à força de vontade de qualquer ser humano.

Pois, tivesse eu mais tempo naquele dia, meu frango com páprica teria ficado mais vermelhinho e curtido, mas os estômagos roncantes (meu e do Sr. Dadivoso) não permitiram uma marinada mais longa do que 20 minutos.

Quando o leitor e a leitora reproduzirem a receita em casa, por favor, deixem tomar gosto por umas horas na geladeira que o resultado ficará ainda mais saboroso.

A receita abaixo rende bem para duas pessoas. A quantidade de frango pode ser aumentada para até 600g sem prejuízo algum de sabor.

Ingredientes:

  • 300 g de peito de frango desossado e sem pele, em cubos
  • 200 ml de iogurte [usei desnatado de copinho, pois os meus caseiros tinham acabado]
  • 2 generosas colheres de sopa de páprica picante
  • 1 colher de sopa de curry em pó
  • 1/2 colher de café de sal grosso triturado na hora
  • cebolinhas verdes para polvilhar

Como fazer:

  1. Misture o iogurte com os temperos (menos a cebolinha), incorporado todos muito bem e envolva nesse creme/pasta os cubos de frango.
  2. Deite o frango numa vasilha funda de vidro, cubra com plástico-filme e deixe marinar por horas. Você pode deixar de um dia para o outro, ou preparar de manhã para fazer à noite. No meu caso, deixei muito pouco tempo e também ficou bom, mas recomendo mesmo que se faça tomar gosto por umas 4 horas, no mínimo.
  3. Preaqueça o forno em temperatura quente.
  4. Eu, muito viva, preparei uma forma especial para assar meu franguinho, forrando um tabuleiro grande com papel alumínio. Muito prático mesmo!
  5. Com uma pinça ou pegador (nada de furar com o garfo), transfira os cubinhos para o tabuleiro forrado, de forma que eles não se sobreponham. Isso é importante para que o cozimento se dê por igual. Não se preocupe com o excesso de pasta, caso haja.
  6. Leve ao forno forte por uns 15 a 20 minutos. Em caso de dúvida, experimente.
  7. Transfira os cubos novamente, desta vez para uma travessa que possa ir à mesa. Polvilhe com cebolinha verde e sirva.

Para acompanhar o Frango Ligeiro com Páprica e Iogurte, servi arroz de sete grãos e ervilhas-tortas salteadas no alho.

P.S: Dadivosa também é gente, fiiiilha! Estou de semiférias, mas continuo a publicar algumas receitas inéditas e novos escritos, só que com menor freqüência, talvez. Passo por aqui para ler os comentários e deixar um beijo para a Leitora e o Leitor queridos.

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Miscelânea com Curry

Miscelânea com Curry / Curry Mess

A ocasião faz o ladrão…e também o cozinheiro! Estava com ganas de comer um frango ao curry com arroz de jasmim, mas olvidei-me de pôr o arroz a cozinhar e a fome foi maior do que a paciência, de forma que empreguei o que me ocorreu na hora: talharim instantâneo. Ficou tão espetacular que resolvi dividir com a leitora e o leitor o meu improviso. A receita é para uma porção:

A ocasião faz o ladrão…e também o cozinheiro! Estava com ganas de comer um frango ao curry com arroz de jasmim, mas olvidei-me de pôr o arroz a cozinhar e a fome foi maior do que a paciência, de forma que empreguei o que me ocorreu na hora: talharim instantâneo. Ficou tão espetacular que resolvi dividir com a leitora e o leitor o meu improviso. A receita é para uma porção:

Ingredientes:

  • 1 colher de sopa de azeite de oliva
  • 1/2 peito de frango cortado em quadrados
  • 1 cebola pequena cortada em gomos
  • 1 cenoura em rodelas beeeeeem finas
  • 1/2 xícara de ervilhas
  • 2 colheres de sopa de curry em pó
  • 250 ml de iogurte natural
  • sal a gosto (não pode exagerar)
  • 1/2 pacote de macarrão instantâneo sem o veneninho ou meia placa de talharim instantâneo (daqueles que vêm numa embalagem comprida)
  • salsinha desidratada para polvilhar

Como fazer:

  1. Antes mesmo de ligar o fogo, recomendo deixar os ingredientes separados, pois a cocção é bastante rápida.
  2. Aqueça o óleo numa frigideira grande ou panela wok e deite ali o frango.
  3. Quando o frango estiver branquinho, adicione a cebola e mexa até que ela fique transparente, depois junte a cenoura. Polvilhe metade do curry e incorpore. Se ameaçar grudar no fundo, adicione um pouquinho de água quente, não mais do que 1/4 de xícara.
    Caso a leitora e o leitor não estejam habituados a esse tempero, recomendo, por cautela, usar uma colher de chá como medida inicial no lugar da colher de sopa. É possível adicionar mais no final.
  4. Quando a cenoura estiver macia, agregue as ervilhas e revolva tudo.
  5. Misture a outra metade do curry no iogurte, que vai ficar num amarelinho simpático e despeje o creme sobre o frango.
    Aqui, novamente, por precaução, você pode ir dosando a quantidade de curry para adaptar o tempero ao seu gosto. A quantidade que usei originalmente não deixou o prato nem muito forte, nem muito fraco, apesar de eu gostar bastante de um curry bem picante.
  6. Quando aquecer, abra caminho no meio, arrumando o frango e os legumes para a borda da panela, formando um laguinho. É nesse laguinho que você vai colocar o macarrão.
  7. Abafe a panela e aguarde uns três minutos, espiando na metade do tempo para separar a massa com um garfo e cuidar para não queimar.
  8. Prove o sal, adicione uma pitada se for preciso e sirva polvilhado com a salsinha desidratada.

A leitora e o leitor verão na foto que minhas rodelinhas de cenoura não foram muito finas. Isso ocasionou uma demora inesperada para amaciar, fato que ignorei e comi como se as rodelinhas crocantes fizessem parte do plano desde o início… mas cozidinhas teriam ficado mais gostosas :)

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