Estimada Marinha

Que a dadivosice corre no sangue da família, a Leitora e o Leitor queridos já devem ter se dado conta.

São tantas influências deliciosas, tantas pessoas que me fizeram gostar de cozinhar (muito embora não seja lá nenhuma especialista e tenha meus dias de gororoba) que às vezes vem a sensação de que não vou conseguir dar o devido crédito a todas elas enquanto viver.

Dadivosa pra lá de enrustida, Ti’mara – ou Tia Mara, ou Marinha - teima em dizer que não sabe e não gosta de cozinhar, que suas comidas são ruins e que seu talento nesse cômodo da casa se concentra em lavar bem a louça. Um tempo atrás, tomando um café cheiroso na casa dela, travamos o seguinte diálogo:
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Bolo com açúcar mascavo e aveia da Seca

Bolo da Seca

Há amigos que transcendem gerações. São dos pais, dos avós, dos tios e dos filhos, moram no coração da família toda. Em casa temos uma coleção dessas figuras queridas por todos, dessas amizades raras e especialíssimas com que o Pai e a Mãe nos presentearam e cujo carinho nos ensinaram a cultivar.

A Seca é uma dessas amigas. Continue reading

Quem sai aos seus, não degenera!

Vagem Ensopadinha

Um dia ainda hei de ter a pachorra de listar as façanhas culinárias de maman. Algumas não são lá muito gloriosas, como a fuzarca de louças, panelas, facas, talheres e cascas que fica a pia ao término da cozinhança, o caos organizado da geladeira ou aquela história do caldo de peixe sem peixe que volta e meia o tio reconta.

Mas a mãe tem assim um jeito de cozinhar inimitável e delicioso, com pratos e proezas de se tirar o chapéu, como a habilidade para preparar uma jantinha urgente em poucos minutos para marido, filhos, genros, noras, neto, irmão, agregados e quem calhar de aparecer de última hora, o amor de cada bolo de laranja batido à mão pro café da tarde, o carinho disfarçado nas camadas da lasanha, a sabedoria em forma de molho escurinho da galinha caipira em panela de ferro, o bife à milanesa, as ceias de natal, o amendoim açucarado da páscoa, o ovo frito, as verdurinhas…
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Aipim com Bacon

Aipim com Bacon

Pode-se classificar a família entre os espirituosos e os incautos, sendo os primeiros bastante mais numerosos e despachados. São também os primeiros a refutar e depois propagar pelo mundo afora as Teorias de Maman. Algumas envolvem comida, como a afirmação de que da cebola deve-se cortar as pontas e pelo menos duas camadas depois da casca e tirar o miolo para que não deixe gosto ardido na comida (desperdiça que é uma barbaridade, mas desde que me conheço por gente as cebolas dela jamais se sobressaíram além do desejado).
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Nega Maluca da Yuli

Há quase dois anos, publiquei a receita de Nega Maluca que a Yuli costuma preparar com muito garbo e formosura.  Como ontem ela comemorou seu aniversário, já em sua casinha nova mais para o Sul, e recebeu, ainda com voz de caverna, meu telefonema de feliz aniversário às oito e meia da madrugada, republico o post à guisa de singela homenagem à minha querida irmã que tem altura de freira*.

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Sábado é dia de Cuca

De origem alemã, esse bolo-pão com cobertura doce é muito apreciado no Sul do Brasil, onde recebe a alcunha de cuca (ao que tudo indica, uma corruptela de ‘kuchen’).

De origem alemã também era a Vó Nair, exímia fazedora de variadas e aromáticas cucas atraidoras de visitas para o café no meio da tarde. Às vezes ela me deixava descascar, picar e passar em açúcar e canela as bananas da cobertura enquanto preparava a massa úmida. Por maior que fosse a quantidade de tabuleiros a preencher, por mais frenética que fosse a lida de preparar a massa, a farofa, o creme de coco com gemas e o café, a vó não se abalava.

A mansidão de seu andar já cansadinho persistia também na voz e no linguajar. Se o leite transbordasse, sujando todo o fogão enquanto ela tinha as duas mãos na massa (e eu era ainda muito pequena para que ela deixasse chegar perto do fogo), o máximo do mau-humor que deixava escapar era um estalar de língua e um ‘ai, o leite!’. Palavrões e xingamentos não faziam parte de seu falar.

Mas quando a cuca ficava pronta… ah, quando a cuca ficava pronta e o cheirinho de banana com canela, massa de pão fresquinha e coco queimado invadiam e alegravam o mundo ao redor, a vó ficava malina. Nessa hora, costumava proferir uma frase célebre, mezzo-trocadilho-mezzo-piada-interna. Empostava um sotaque alemão que não tinha, punha um olhar maroto e, usando o nome de algum filho, falava:

“Marquinho, não deixa o cuca aí!”

Quando a vó não estava ou não fazia cuca, a gente saía para comprar. Mas tinha de ser cuca verdadeira, não valia ser de padaria. De modo que, logo após o almoço, fazíamos pequenas viagens em busca de alguma ’Cuca da Alemoa’, num raio de 100 a 200 quilômetros de curvilínias estradas de terra batida. E ao chegar lá, após escolher uns quatro ou cinco pedaços de sabores diferentes, quando a moça loira de bochechas rosadas já havia desaparecido para dentro da casa estilo enxaimel, invariavelmente alguém a chamava de volta: “Moça, ô moça… não deixa o cuca aí!” E a moça ficava vermelha e ria um riso gostoso com a cumplicidade de quem também devia ouvir a mesma brincadeira desde sempre.

Ontem me agarrou uma saudade e fiz duas cucas: a primeira foi de ricota e mel (ensinada pela Carla Pernambuco em seu livro Carlota: Balaio de Sabores), depois repeti a massa para essa aí da foto, de uva preta. A receita, comentada, testada e aprovada, vem para a semana.