Crema Catalana

E agora o Leitor e a Leitora queridos vão ter de me aguentar, pois desembestei, abri a porteira, estou com a macaca e resolvi dar vazão às receitas e causos que estavam na fila há meses. Começo com o preparado do livro “Cocina de Temporada para Inexpertos”, que driblou meu receio e me fez comprar (e finalmente usar!) o maçarico culinário. Quem não dispuser do utensílio não deve se acanhar, há sempre um truquinho a aprender.

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De etiquetas, cabelos ao vento e volta pra casa

Aos poucos, vou restabelecendo as coisas nesse blog, que tanto sofreu com meu descaso, com a troca de roupa provocada por ataques de hackers e com a desconfiguração de uma montoeira de coisas no caminho. Pouco a pouco vou pendurando etiquetas, as “tags”, em cada uma das cerca de 500 postagens escrevinhadas e fotografadas nesses 4 anos e pouco.

Junto com as categorias (Escritos, Pitadas ou Receitas, por enquanto), são elas que vão ajudar o Leitor ou a Leitora a entender como (des)organizei tudo isso. É até gostoso ver as fotos escuras e granuladas do começo (não que tenham melhorado muito) e a timidez das primeiras publicações, que tinham só a receita, pura e dura. Bom reler alguns escritos de que continuo gostando, mais que nada porque continuam a refletir uma parte bem gorda do que sou. Alguns desses etiquetei como “família” e preciso dar outra volta para ver se não levariam pendurado esse pedacinho de papel invisível quase todos os escritos e receitas em que escancaro a alma.

São lembranças e sentimentos de pai, mãe, irmãos, amigos, vós, tios e tias que de mim fazem parte e com os quais, daqui dessa lonjura, sinto o laço apertar ainda mais, espremendo água do zóio. Como esse texto que rerererererevisitei agora há pouco, desta vez com Mr. Dadivoso lendo cada parágrafo em voz alta (gosto tanto quando lê em voz alta, acho que nunca disse isso pra ele nesses 7 anos de matrimônio) do outro lado do mundo. E pela trocentésima vez, nas mesmas linhas, senti os cantos da boca se repuxarem num beiço horroroso (como agora, só de lembrar)  e soltar um buáá desafinado.

Em duas, especificamente, Mr. Dadivoso parou, olhou pra câmera e me consolou com um ôôôô, neguinha…: quando ela fala que o marido a faz uma pessoa melhor (isso sim, já disse pra ele) e quando se dá conta de que quer estar perto para ver os cabelos de seus pais se mexendo no vento da praia. Vários são os temas e meandros desse texto que me dão cosquinha na alma, reafirmo.

Mas isso do amor de pai, mãe, marido, amigos, tios, tias, primos e primas, agregados e desconhecidos, de parar para olhar a vida, de às vezes sentir desconforto no conforto, de ser e escrever e as duas coisas ao mesmo tempo me derruba mesmo os cantos da boca e me faz pensar agora se de repente não deveria mudar completamente o sistema de etiquetas que venho consertando há umas duas semanas, pouquinho a pouquinho, enquanto releio parte dos arquivos desse blog e me deixo levar.

Porque nos breves intervalos dessas semanas tão corridas, me estou deixando levar em pedacinhos. Porque meus 12 meses em Madri estão muito perto de serem completados, o que significa que está chegando a hora de estar fisicamente mais próxima dos meus amores, amigos, tios, tias etc.

Também aí em casa, nos intervalos das semanas corridas que vem pela frente, me deixarei levar: pela delícia dos colos, almoços, pizzas de bairro, cafés da manhã e da tarde e de depois do almoço e de depois do jantar (não me faz mais efeito, a cafeína, durmo como se tivesse tomado um chazinho de melissa). Prevejo, além de tudo isso, um reencontro paulatino e igual de bom com minha cozinha, meus desastres e descobertas, desconcertos e pequenos triunfos.

Levo o hábito de comer pão com azeite de manhã (às vezes com tomate também), a reorganização de hábitos de consumo provocada pela microgeladeira, as panelas coloridas que me fizeram companhia, uns quantos livros e revistas de comida que acumulei, alguns cabelos brancos a mais (daqueles que viram antenas e não se mexem nem com vento sul), a certeza de que não combino com esses fogões de vitrocerâmica, uma que outra receita espanhola bem aprendida, a vontade de bater um bolinho e assá-lo num forno “de fogo” e os sentidos à flor da pele para absorver (ou repelir) todo o bom (ou o menos bom, porque assim é às vezes, sobretudo quando a gente se mexe) que me espera pela frente.

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Salmorejo de Zanahoria con Manzana

Foram-se os dias calorentos, ficou mais essa sopinha fria para publicar. Periga ser mais fácil de fazer do que pronunciar o nome, espia:

Ingredientes

Ingredient
4 tomates médios em cubos
2 cenouras em rodelas finas
1 dentinho de alho
1 maçã vermelha pequena
1/2 xícara de azeite de oliva
2 colheres de sopa de vinagre de jerez
sal e cominho em pó a gosto
ovo cozido para ornar


Como fazer:
1. Leve os tomates ao copo do liquidificador e bata bem. Incorpore as cenouras aos poucos e vá liquidificando.
2. Pele e pique a maçã e bata também. Quando estiver tudo homogêneo, junte o alho e bata mais um pouco.
3. Sem parar de bater, junte o azeite de oliva, o vinagre, o sal e o cominho.
4. Coe e sirva com o ovo cozido picado e mais um chorinho de azeite.Ingredientes
  • 4 tomates médios em cubos
  • 2 cenouras em rodelas finas
  • 1 dentinho de alho
  • 1 maçã vermelha pequena
  • 1/2 xícara de azeite de oliva
  • 2 colheres de sopa de vinagre de jerez
  • sal a gosto
  • cominho a gosto (esqueci de colocar)
  • ovo cozido para ornar

Como fazer:

  1. Leve os tomates ao copo do liquidificador e bata bem. Incorpore as cenouras aos poucos e vá liquidificando.
  2. Pele e pique a maçã e bata também. Quando estiver tudo homogêneo, junte o alho e bata mais um pouco.
  3. Sem parar de bater, junte o azeite de oliva, o vinagre, o sal e o cominho.
  4. Coe e sirva com o ovo cozido picado e mais um chorinho de azeite.
Vi muitas receitas de salmorejo com pão amolecido, que também deve ficar bom. Mas gostei da mistura com maçã que vi aqui.
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Gazpacho de Melocotón

Lembrete para mim mesma: Se for beber aquela tacinha de vinho, morrendo de fome enquanto prepara a receita, não fotografe. E se for fotografar a receita, morrendo de fome, mesmo tendo bebido aquela tacinha de vinho, verifique luz e foco… pelo menos.

E com essa foto malacabada, deixo aqui a com pêssegos,  segunda colocada da enquete, que me foi gentilmente presenteada pelo leitor que atende pelo codinome de Anxiño, via este comentário.

  • Cubra o fundo de uma panela com azeite de oliva e ali refogue em fogo baixo uma chalota e dois alhos porós (parte branca) com uma pitada de sal até amolecer.
  • Adicione 1 litro de caldo natural de galinha e deixe ferver.
  • Junte 4 pêssegos bem maduros (dos amarelos) sem casca e em cubos e cozinhe por 10 minutos.
  • Bata tudo muito bem com o mixer de mão (com cuidado, pois poderá espirrar) ou liquidificador. Coe e leve à geladeira para esfriar.
  • Enquanto a sopinha esfria, faça as virutas de jamón: numa frigideira antiaderente, leve fatias de presunto cru em fogo baixo até ficarem sequinhas e crocantes. Reserve.
  • Para servir, arrume nos copinhos o gazpacho, polvilhe uma pitadinha de nada de noz moscada ralada na hora, decore com as virutas de jamón e uma folhinha de menta.

Eu gostei dela assim, um pouco mais pastosa… mas se quiser uma consistência mais leve, pode afiná-la com água gelada até dar o ponto desejado.

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Só dá ela…

E foi a batata mesmo que ganhou a enquete, seguida de perto pelo pêssego. Vou publicar as três receitas, na ordem de pontuação.

Compartilho com o leitor e a leitora queridos uma versão do meu petisco madrilenho preferido, aquele me que puxa o zóio na hora de ler o cardápio e que, na sua ausência, me faz pedir-por-favor-seu-garçom se não tem como preparar uma porçãozinha.

Com vocês… Las Patatas Bravas!

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Saudade não cozinha feijão

O nome dela era Pilar, o que só descobri na despedida, e tem 74 anos, o que descobri mais ou menos na metade do caminho. Estava na minha frente, cabelos brancos, ralos e curtinhos, casaco bege como o meu, metro e meio, esperando para atravessar a rua, quando desatou a chover uma água fina e gelada. O homem de terno preto fumava entre nós duas, impaciente. Me enchi de coragem e, num ato tremendamente egoísta nesse dia tão estranho,  perguntei baixinho se ela não queria uma carona debaixo da minha sombrinha vermelha. Ela riu um riso tranquilo de vó e atravessamos com cuidado.

Falamos das obras que estão por quase todas as partes de Madri e da necessidade de andar atentas (eu sobretudo, diga-se de passagem, já que dois sábados atrás me estabaquei na rua de novo), da Gripe Aquela Inominável e da reação da vacina e do fato dela não ter problemas respiratórios, e de ela não precisar porque era para grávidas e velhos,  e de eu observar que ela não me parecia nada grávida e de rirmos muito e ela por fim dizer que “vacina é coisa pros fracos”. Para onde a senhora vai, não quero molestar, vou até El Corte Inglés e não tenho pressa, pego o ônibus 21 minha querida, então a senhora vai comigo até lá. Ofereci o braço, “claro, já somos amigas!”, sorriu.

E contei que peguei a sombrinha na última hora, porque tinha ouvido na TV que ia chover, ela contou que sabia mas não pegou a dela, pois sabia também que tudo se acerta e que ora-veja, o anjo da guarda dela era bem esperto e tinha me deixado ali de presente-carona. E eu perguntei como ela ia fazer entre o ônibus e a casa, e ela me disse que não me preocupasse que alguém ajudaria, como sempre, que as coisas se ajeitam como sempre e desejou que meus dias em seu país fossem agradáveis, encantadores.

Tive vontade de entrar naquele ônibus, ir pra casa dela, ganhar colo e comida de vó, já que eu não tinha nada que fazer no El Corte Inglés coisíssima nenhuma. Será que ela faria uma sopa quentinha, um chá, sacaria um cozido com grão-de-bico àquelas alturas do campeonato, uma lasanha congelada, um banquete, uns biscoitos adormecidos? Entrei no supermercado do El Corte Inglés só porque então lembrei que precisaria comer, mas mal pisei e dei meia-volta , espreitei pela esquina e vi que ela estava bem abrigada, embaixo da marquise. Atravessei a rua. Aproveitei que já chovia mesmo e mandei a brasa nos efeitos especiais estilo Emília do Sítio do Picapau Amarelo, com o rímel escorrendo cara abaixo.

Pulei o segundo, o terceiro e entrei no quarto mercado do caminho, o que fica embaixo do meu prédio. Foram uns 20 minutos perambulando pelas parcas gôndolas, em trajetória caótica, tropecenta e indecisa, até pescar uns camarões e uma seleta de legumes da porta de congelados. Vou me arranjar com um couscous.

Calei o soluço, falei com o Mano rapidinho já que ele precisava anestesiar um gato, conversei com meu amor, reativei os soluços, troquei emails com a Chiquita e me dei conta que, por mais que meu dia não tenha sido assim o mais bacanudo de todos os tempos, o que eu chorava pra fora era a saudade.

Uma saudade que, segundo a mãe do Xico Sá, não cozinha feijão.

Não cozinha feijão, mas refogou os camarões em azeite, juntou os legumes, pitada de sal, umas ervas de provença, um bocadinho de vinho branco e xícara de caldo de galinha, apagou o fogo, juntou o couscous, tampou 5 minutos e serviu regado com azeite.

Não cozinha feijão, mas passou uns bons minutos de braço dado com a Pilar, que não sei se é vó de alguém e tampouco me importa, já que senti como se minha fosse,

Não cozinha feijão mas olha, se o tanto de água que chorei hoje fosse parar ali na panela, renderia era um bom caldo.

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Pintxo de Tortilla de Arroz

Na falta de batatas, refoguei no azeite uma xícara de arroz já cozido, misturei na cumbuca com três ovos batidos rapidamente com o garfo, juntei sal e pimenta, devolvi a mistura pra frigideira, baixei o fogo, esperei cozinhar quase totalmente, virei no prato, devolvi para a frigideira até dourar o outro lado, cortei em pedacinhos, espetei num pão adornado com uma colherada de molho de tomate com ‘pimentón picante’ e estavam feitos os pintxos de tortilla de arroz que devoramos assistindo TV num dos sempre insuficientes e lindos dias em que ele está aqui comigo e essa casa atinge a categoria de lar-doce-lar.

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Ajo Blanco

Embora leve alho no nome, essa prima branquela do Gazpacho não costuma ser muito forte. Tem como base amêndoas cruas, pão dormido, azeite, vinagre de jerez e água filtrada ou mineral geladinha.

A receita original, do livro “Cocina de Temporada para Inexpertos”, levava um ovo e oito (oito!) gordos e egocêntricos dentes de alho para quatro porções. Fiz metade da receita, adaptando uma coisa daqui e dali, nada de ovo, um só alho.

Vamos a ela:

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Gazpacho

Diz que ele é como escova de dente, traseiro e molho de tomate: cada um com seu cada qual. E depois de provar alguns gazpachos por aí (de restaurantes bacanas aos comedores da fiiiirrrrma), de espiar receitas várias e de arriscar em casa uma que outra versão, posso dizer agora também tenho meu preferido: saboroso o suficiente para ser memorável, suave o suficiente pra não ser “inesquecível”.

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