De etiquetas, cabelos ao vento e volta pra casa
Saturday, March 6th, 2010Aos poucos, vou restabelecendo as coisas nesse blog, que tanto sofreu com meu descaso, com a troca de roupa provocada por ataques de hackers e com a desconfiguração de uma montoeira de coisas no caminho. Pouco a pouco vou pendurando etiquetas, as “tags”, em cada uma das cerca de 500 postagens escrevinhadas e fotografadas nesses 4 anos e pouco.
Junto com as categorias (Escritos, Pitadas ou Receitas, por enquanto), são elas que vão ajudar o Leitor ou a Leitora a entender como (des)organizei tudo isso. É até gostoso ver as fotos escuras e granuladas do começo (não que tenham melhorado muito) e a timidez das primeiras publicações, que tinham só a receita, pura e dura. Bom reler alguns escritos de que continuo gostando, mais que nada porque continuam a refletir uma parte bem gorda do que sou. Alguns desses etiquetei como “família” e preciso dar outra volta para ver se não levariam pendurado esse pedacinho de papel invisível quase todos os escritos e receitas em que escancaro a alma.
São lembranças e sentimentos de pai, mãe, irmãos, amigos, vós, tios e tias que de mim fazem parte e com os quais, daqui dessa lonjura, sinto o laço apertar ainda mais, espremendo água do zóio. Como esse texto que rerererererevisitei agora há pouco, desta vez com Mr. Dadivoso lendo cada parágrafo em voz alta (gosto tanto quando lê em voz alta, acho que nunca disse isso pra ele nesses 7 anos de matrimônio) do outro lado do mundo. E pela trocentésima vez, nas mesmas linhas, senti os cantos da boca se repuxarem num beiço horroroso (como agora, só de lembrar) e soltar um buáá desafinado.
Em duas, especificamente, Mr. Dadivoso parou, olhou pra câmera e me consolou com um ôôôô, neguinha…: quando ela fala que o marido a faz uma pessoa melhor (isso sim, já disse pra ele) e quando se dá conta de que quer estar perto para ver os cabelos de seus pais se mexendo no vento da praia. Vários são os temas e meandros desse texto que me dão cosquinha na alma, reafirmo.
Mas isso do amor de pai, mãe, marido, amigos, tios, tias, primos e primas, agregados e desconhecidos, de parar para olhar a vida, de às vezes sentir desconforto no conforto, de ser e escrever e as duas coisas ao mesmo tempo me derruba mesmo os cantos da boca e me faz pensar agora se de repente não deveria mudar completamente o sistema de etiquetas que venho consertando há umas duas semanas, pouquinho a pouquinho, enquanto releio parte dos arquivos desse blog e me deixo levar.
Porque nos breves intervalos dessas semanas tão corridas, me estou deixando levar em pedacinhos. Porque meus 12 meses em Madri estão muito perto de serem completados, o que significa que está chegando a hora de estar fisicamente mais próxima dos meus amores, amigos, tios, tias etc.
Também aí em casa, nos intervalos das semanas corridas que vem pela frente, me deixarei levar: pela delícia dos colos, almoços, pizzas de bairro, cafés da manhã e da tarde e de depois do almoço e de depois do jantar (não me faz mais efeito, a cafeína, durmo como se tivesse tomado um chazinho de melissa). Prevejo, além de tudo isso, um reencontro paulatino e igual de bom com minha cozinha, meus desastres e descobertas, desconcertos e pequenos triunfos.
Levo o hábito de comer pão com azeite de manhã (às vezes com tomate também), a reorganização de hábitos de consumo provocada pela microgeladeira, as panelas coloridas que me fizeram companhia, uns quantos livros e revistas de comida que acumulei, alguns cabelos brancos a mais (daqueles que viram antenas e não se mexem nem com vento sul), a certeza de que não combino com esses fogões de vitrocerâmica, uma que outra receita espanhola bem aprendida, a vontade de bater um bolinho e assá-lo num forno “de fogo” e os sentidos à flor da pele para absorver (ou repelir) todo o bom (ou o menos bom, porque assim é às vezes, sobretudo quando a gente se mexe) que me espera pela frente.





