Não tá morto quem peleia, tchê

Pois peleando estou com as gôndolas do supermercado (cadê granulado pra brigadeiro? qual será a melhor azeitona? levo ou não levo os pimientos de piquillo?), com o fogão de duas bocas vitrocerâmico (para fazer um almoço para seis), com o forno preguiçoso (não terminou de cozinhar as cebolas nem as batatas do bacalhau, que se escondeu todo no fundo, de vergonha, por supuesto!), com um coentro maldito que se disfarçou de salsinha, todo pimpão no vaso de plástico marrom, com a geladeira de brinquedo, do tamanho dum frigobar que, feito leão de chácara, barra na porta uma pá de coisa porque a festa já está lotada lá dentro…

Peleia boa, essa de descobrir novas possibilidades, de desafiar os neurônios dadivosos – que vinham em estado de hibernação, diga-se – de transformar uma ida ao mercadinho de conveniência em exploração antropo-científico-culinário-social, de precisar planejar muitíssimo cada compra para não desperdiçar, de me apaixonar pelos iogurtes, natillas, arroces con leche e cremas catalanas em potinhos de vidro e de cerâmica, de ter menos que o mínimo de utensílios na cozinha e,  ainda assim, preferir estar nela ao sair para comer, nem que seja para preparar um singelo sanduíche de pão integral com queijo de cabra e ‘pechuga de pavo’ tostadinho na frigideira, que não tem erro, acompanhado de uma saladinha e uma cerveja sem álcool (não riam, chama Laiker e acho uma delícia).

Isso tudo significa que está funcionando meu intento de garantir pelo menos uma nova coisa boa por dia para confortar o coração. E que da maior peleia de todas, contra a saudade que é tanta, saio chamuscadinha e escoriada, mas continuo viva e forte!

A falibilidade é benigna

Aceitunas

Aceitunas

Chef  Norberto Jorge nos recebeu à porta, vestindo calças coloridas, com sua mamá Carmen,  de cabelos de algodão e blush aplicado a rigor. Tão logo chegamos, esquecemos do caminho escuro, da pequena horda de mendigos alcoolizados, da região nada glamourosa onde ficava o restaurante.

Provamos um azeite siciliano, que cheirava a tomates verdes e goiaba,  um espanhol que sabia a ervas e um balsâmico cremoso, envelhecido naqueles barris empilhados ali, de fronte à mesa, logo na entrada.

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Do que não tem receita, nem nunca terá

Meu café de todo dia, o talharim com camarão assustado, a salada verde com queijo feta, os figos grelhados com redução de vinho do porto, os cogumelos refogados que viraram recheio de massa folhada, a trocentésima edição da carninha com shoyu e legumes, o arroz temperadinho com alho e cebola, o frango cremoso, o pão com mel da manhã, a carambola da meia-noite, o ovo frito com flor de sal e pimenta que foi parar sobre a torrada do almoço tardio em tarde de geladeira deserta, o suco de maracujá de sempre, um pudim de maria-mole, as pastinhas e belisquetes da preguiça,o talharim com cogumelos, bacon e creme fresco improvisado na cozinha da amiga, o leite com chocolate que ele toma toda manhã.

Seja porque já contei como se faz, ou porque não há nada para contar, seja porque passou o tempo, ou porque não há mais tempo, fica o dito pelo não dito, dou-me por vencida e deixo aqui apenas o título dos posts não escritos, da comida que andou nas cabeças, andou nas bocas, mas que não tem receita e, provavelmente, nunca terá.

Só ele se salvou

O macarrão ficou duro demais e o hamburguinho caseiro ficou desabrido, sem sal nem gosto. Gostoso mesmo só o brócolis, assustado em alho e óleo.

Há dias assim mesmo, em que até o mais dadivoso dos cozinheiros se distrai, erra na mão, nos tempos e nos temperos, desaprende o que parecia estar tatuado no DNA, escorrega até em fervura de água. E o brócolis, tão querido e verdolengo, apareceu todo cheio de sabor e autoridade vegetal para avisar que essas coisas são assim mesmo, ora bolas, que vamos que vamos, que cozinhar é uma caixinha de surpresas, que o empaPe é um bom resultado, que umas boas risadas e bonbons podem deixar tudo mais leve e colocar o desastre culinário na devida perspectiva: um convite ao desprendimento.

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Desprendida, ou melhor, desconectada tenho estado por questões de ordem tecnológico-condominiais, de modos que esta cozinha carece de atualização. Oxalá conseguiremos resolver os dilemas com nem tantas horas de espera ao telefone. Ao Leitor e à Leitora queridos que por aqui passam deixo um beijo e a promessa de que tudo voltará ao normal em um ou dois dias. ;***

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