Pois peleando estou com as gôndolas do supermercado (cadê granulado pra brigadeiro? qual será a melhor azeitona? levo ou não levo os pimientos de piquillo?), com o fogão de duas bocas vitrocerâmico (para fazer um almoço para seis), com o forno preguiçoso (não terminou de cozinhar as cebolas nem as batatas do bacalhau, que se escondeu todo no fundo, de vergonha, por supuesto!), com um coentro maldito que se disfarçou de salsinha, todo pimpão no vaso de plástico marrom, com a geladeira de brinquedo, do tamanho dum frigobar que, feito leão de chácara, barra na porta uma pá de coisa porque a festa já está lotada lá dentro…
Peleia boa, essa de descobrir novas possibilidades, de desafiar os neurônios dadivosos – que vinham em estado de hibernação, diga-se – de transformar uma ida ao mercadinho de conveniência em exploração antropo-científico-culinário-social, de precisar planejar muitíssimo cada compra para não desperdiçar, de me apaixonar pelos iogurtes, natillas, arroces con leche e cremas catalanas em potinhos de vidro e de cerâmica, de ter menos que o mínimo de utensílios na cozinha e, ainda assim, preferir estar nela ao sair para comer, nem que seja para preparar um singelo sanduíche de pão integral com queijo de cabra e ‘pechuga de pavo’ tostadinho na frigideira, que não tem erro, acompanhado de uma saladinha e uma cerveja sem álcool (não riam, chama Laiker e acho uma delícia).
Isso tudo significa que está funcionando meu intento de garantir pelo menos uma nova coisa boa por dia para confortar o coração. E que da maior peleia de todas, contra a saudade que é tanta, saio chamuscadinha e escoriada, mas continuo viva e forte!




