Alguma-coisa-e-25, ou 26, na estação de Canal, na boca da correspondência com a Linha 7. Levava os fones de ouvido bem acomodados e escutava um dos muitos programas de rádio Splendid Table, perfeitos para viagens em transporte público, já que em Madri muitos passageiros generosos deixam seus celulares no último volume, compartilhando com o vagão inteiro os toques e as músicas indecifráveis de seus vistosos aparelhos. O episódio tinha uma entrevista com um Senegalês de voz doce. Ele estava lançando um livro sobre a comida de seu país e comentava como a população 90% muçulmana convivia respeitosamente com a minoria cristã, e a prova era que, fosse no Natal ou no Ramadan, as famílias levavam comidas de suas festas aos vizinhos de outro credo.
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Da Falibilidade que levo dentro
Ando às voltas com essa que tem os braços dados com a Impermanência e me faz lembrar que tudo o que é perfeito e arranjado demais, simétrico e combinando demais, planejado e previsível demais, limpo e plástico demais pode até ter seu valor, mas em dois segundos me enfada tremendamente.
Ela ronda minha cozinha e dá as caras na lasca de bolo que se agarrou à forma e não quer sair, no pão que amorenou dum lado só, no arroz que não temperei, na receita que não vingou mas me divertiu, naquele naco amassado da pera suculenta.
Faz aparição constante também nesse blog, na foto em que eu, emocionada, errei a mão e saiu desfocada, naquela outra que consegui focar e enquadrei mal e ainda assim gosto por causa do que nela está, nas histórias contadas de sopetão, longas ou curtas demais, nos dias e semanas sem escrever, no visual que nunca chego a consertar, nas receitas mais ou menos, nos ditos meio ditos.
Ao perceber o encanto da falibilidade dos outros, das músicas em que a voz ou as notas se perdem por um segundo, nas pessoas que deslizam e voltam atrás, nas que pedem desculpas, nas que se notam matizes diferentes e muitas vezes anacrônicos, na louça nicada do restaurante, me dou conta da minha própria.
E me olho no espelho, percebo minhas assimetrias e pintas e cicatrizes e dentes. E olho pra cá e vejo a irregularidade de frequencia, qualidade e sentimento dos posts e fotos. E olho pra dentro e ali está ela, nos meus pensamentos, atitudes, sentimentos, tropeços reais e mentais, pequenos acidentes que às vezes descosturam vestidos no meio da tarde ou abrem um rasguinho na alma.
Nesse instante percebo que se ando às voltas com ela, que se consciente ou inconscientemente a busco no que vejo, ouço, cozinho, como e sinto, que se ela vive tão intensamente dentro de mim, então é porque assim é. E se é assim chega a hora de eu olhar bem nos olhos dela e pedir que, uma vez que já mora aqui dentro, que se sinta à vontade e alegre meus dias com suas pequenas estripulias de comidas que não saem bem na foto mas são gostosas demais, com a surpresa do desafino e descompasso da música linda, com os textos que não são nenhuma obra-prima mas que transmitem sentimento para uma meia-dúzia de pessoas queridas, com os tropeços reais e mentais que de mim fazem parte.
Só não se empolgue, por favor, Dona Falibilidade, pois não vejo nenhum encanto em quebrar um copo antes de sair de casa, perder o salto do sapato, em seguida levar aquele estabaco e cair de quatro com bolsa, mochila, casaco, cachecol e celular a 5 metros de entrar na reunião.
O Monge, o Lusco e o Fusco
Não bastasse a temporada de folhas amarelo-alaranjadas pelas ruas, mixiricas, peras e cogumelos infinitos nos mercados, chegou à minha caixa postal num dia de muito trabalho um pacotinho que me emocionou deveras neste outono madrilenho.
A história remonta à primavera, quando a Debora, mãe de Sathya, me alegrou o coração ao contar que o moço havia libertado sua Dadivosa interior e estava cozinhando para seus colegas monges algumas das receitas que lia por aqui.
O primeiro que vi foi uma foto, linda, desses rapazes vestidos de laranja-mixirica, de sorriso largo e olhos queridos. Depois veio a carta, escrita de próprio punho, verdadeira raridade não só por ser manuscrita e cair numa caixa postal onde habitam folhetos de entrega de comida, publicidade de persianas elétricas, propostas de planos odontológicos, contas telefônicas e extratos bancários. O mais raro e precioso era o imenso amor que emanava dali. Dizia o Monge Sathya que todos estavam muito agradecidos, “de barriga quentinha“.
Duas páginas caprichadas que me fizeram enrubescer as bochechas e espremer lágrimas contentes. Quis dar um abraço forte e um beijo esmagado em cada um deles, por terem derretido em amor qualquer vestígio de dureza que ainda restasse daquele dia. E fiquei um bom tempo com aquela carta e aquela foto na mão. Melhor dizendo, fiquei um bom tempo ganhando colo daquela carta e daquela foto. Tanto que me distraí e só bem depois vi que havia um folheto e um livro de receitas vegetarianas indianas, cuja autora contava no prefácio que tinha por objetivo compartilhar as comidas de sua família. Um mimo inestimável, um tesouro.
E ontem, enquanto comia uma pera porque não tinha ganas de cozinhar, pouco depois de contar à família um pouco dos meus dias, das folhas das árvores e do clima que faz por essas bandas, de falar pela trocentésima vez da saudade e da vontade de apertar todo mundo, recebo outra dose cavalar e necessária de lucidez e amor em forma de palavras. “Gosto de ver que estás conciliando o árduo trabalho com o lusco-fusco da paisagem de outono”, disse meu pai, o Babbo, por e-mail.
Foi então que liguei lé com cré e percebi que do livro presenteado pelos monges sairá a inspiração para uma comidinha reconfortante que me fará sacudir a poeira das panelas e me transportar para a simplicidade e beleza das coisas, para esse relaxante lusco-fusco da consciência, tal como acontece quando falo com meus amores, vejo as mixiricas, as peras, os cogumelos e as folhas que mudam de cor.
Saudade não cozinha feijão
O nome dela era Pilar, o que só descobri na despedida, e tem 74 anos, o que descobri mais ou menos na metade do caminho. Estava na minha frente, cabelos brancos, ralos e curtinhos, casaco bege como o meu, metro e meio, esperando para atravessar a rua, quando desatou a chover uma água fina e gelada. O homem de terno preto fumava entre nós duas, impaciente. Me enchi de coragem e, num ato tremendamente egoísta nesse dia tão estranho, perguntei baixinho se ela não queria uma carona debaixo da minha sombrinha vermelha. Ela riu um riso tranquilo de vó e atravessamos com cuidado.
Falamos das obras que estão por quase todas as partes de Madri e da necessidade de andar atentas (eu sobretudo, diga-se de passagem, já que dois sábados atrás me estabaquei na rua de novo), da Gripe Aquela Inominável e da reação da vacina e do fato dela não ter problemas respiratórios, e de ela não precisar porque era para grávidas e velhos, e de eu observar que ela não me parecia nada grávida e de rirmos muito e ela por fim dizer que “vacina é coisa pros fracos”. Para onde a senhora vai, não quero molestar, vou até El Corte Inglés e não tenho pressa, pego o ônibus 21 minha querida, então a senhora vai comigo até lá. Ofereci o braço, “claro, já somos amigas!”, sorriu.
E contei que peguei a sombrinha na última hora, porque tinha ouvido na TV que ia chover, ela contou que sabia mas não pegou a dela, pois sabia também que tudo se acerta e que ora-veja, o anjo da guarda dela era bem esperto e tinha me deixado ali de presente-carona. E eu perguntei como ela ia fazer entre o ônibus e a casa, e ela me disse que não me preocupasse que alguém ajudaria, como sempre, que as coisas se ajeitam como sempre e desejou que meus dias em seu país fossem agradáveis, encantadores.
Tive vontade de entrar naquele ônibus, ir pra casa dela, ganhar colo e comida de vó, já que eu não tinha nada que fazer no El Corte Inglés coisíssima nenhuma. Será que ela faria uma sopa quentinha, um chá, sacaria um cozido com grão-de-bico àquelas alturas do campeonato, uma lasanha congelada, um banquete, uns biscoitos adormecidos? Entrei no supermercado do El Corte Inglés só porque então lembrei que precisaria comer, mas mal pisei e dei meia-volta , espreitei pela esquina e vi que ela estava bem abrigada, embaixo da marquise. Atravessei a rua. Aproveitei que já chovia mesmo e mandei a brasa nos efeitos especiais estilo Emília do Sítio do Picapau Amarelo, com o rímel escorrendo cara abaixo.
Pulei o segundo, o terceiro e entrei no quarto mercado do caminho, o que fica embaixo do meu prédio. Foram uns 20 minutos perambulando pelas parcas gôndolas, em trajetória caótica, tropecenta e indecisa, até pescar uns camarões e uma seleta de legumes da porta de congelados. Vou me arranjar com um couscous.
Calei o soluço, falei com o Mano rapidinho já que ele precisava anestesiar um gato, conversei com meu amor, reativei os soluços, troquei emails com a Chiquita e me dei conta que, por mais que meu dia não tenha sido assim o mais bacanudo de todos os tempos, o que eu chorava pra fora era a saudade.
Uma saudade que, segundo a mãe do Xico Sá, não cozinha feijão.
Não cozinha feijão, mas refogou os camarões em azeite, juntou os legumes, pitada de sal, umas ervas de provença, um bocadinho de vinho branco e xícara de caldo de galinha, apagou o fogo, juntou o couscous, tampou 5 minutos e serviu regado com azeite.
Não cozinha feijão, mas passou uns bons minutos de braço dado com a Pilar, que não sei se é vó de alguém e tampouco me importa, já que senti como se minha fosse,
Não cozinha feijão mas olha, se o tanto de água que chorei hoje fosse parar ali na panela, renderia era um bom caldo.
93 dias e uma inFoxicação culinária
Pois, três meses e um bocadinho de minha estada em terras espanholas e achei por bem dar uma sacudida na preguiça e reunir aqui um apanhado cronologicamente aleatório (e sentimental-dadivosamente relevante) do que a memória ainda permitir (sem fotos, por enquanto, que a meta do dia é só escrever):
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Remédios Locais
Resolvi averiguar a portinha do tio que vende queijos e frios, me parecia simpático. A pequena fila de moradores locais àquela hora era indício de que o lugar era quente. Fiquei de butuca: a primeira senhora levou jamón ibérico, salame e queijo meia-cura. Tudo muito apetitoso, mas um pouco forte para meu paladar estropeado por uma almoço ruim (coisa rara desde que cheguei, conjuminou uma salada com bicho e gosto de inseticida, lasanha com alguma coisa que não descia, sobremesa pesada por demais).
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Las Palabras y las Cosas – Parte I
Aqui se diz picatostes para croûtons. Cojines são almofadas. Almohadas são os travesseiros, mas travesero é travesso. Sábanas são lençóis, bajera pro de baixo, encimera pro de cima. Encimera é também a bancada da cozinha.
Torrijas sao como as rabanadas que comemos no Natal, só que aparecem é na Páscoa, rebanada é tão simplesmente uma fatia de pão. Uma fatia igualzinha àquela que minutinhos atrás cortei e fritei em azeite quente pra fazer picatostes.
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As palavras e as coisas é o título de um livro de Foucault. Tive contato intenso com ele, o livro, não o Messiê Fucô, quando parei de fazer a ponte Rio-São Paulo toda semana, despedi-me da primeira e fui desbravar a segunda. Gosto por demais desse título, As Palavras e as Coisas, a despeito de pouco lembrar do miolo além da parte que fala sobre ‘As Meninas’, aquele quadro do Velásquez que tem metalinguagem, uma luz incrível, espelhos intrigantes, portas entreabertas, olhares expressivos e mil reflexões possíveis a fazer. Taí, vai ver é por isso que ando com esse nome na cabeça desde que pisei nessa terra
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Chamei de Parte I, Leitor e Leitora queridos, porque sei que tenho muito ainda a descobrir. E se você tem aí na ponta da língua uma dica, um causo, uma palavra, uma coisa, deixe aqui um comentário, que certamente vai aparecer na Parte II, na III e quantas mais houver.