O Leitor e a Leitora já devem ter passado por alguma situação semelhante… trata-se daquele momento único em que tomamos ciência de que não há mais como retroceder, tampouco mudar o rumo das coisas, apenas enfrentar o que está por vir.
É quando nos damos conta de que faltou colocar fermento no bolo que já está meio-assado, quando surge um convite inesperado para sair de casa bem no meio da sova do pão, quando a torta de maçã está no forno e o aroma que ela desprende não sabe a canela, e sim a cominho…
A cozinha está repleta desses sinais de que nem sempre somos as donas ou os donos da situação (quase nunca, preferiria dizer), de que o ato (ou a falta dele) de uma fração de segundos pode determinar o sucesso ou insucesso do quitute, de que o Señor Inexorável nos anda à espreita.
É dessas situações que me lembro hoje, com a boca magoada pelos aços-cerâmicas-borrachas-titânios de um complexo tratamento ortodôntico. Tratamento esse mui necessário funcionalmente, pouco modificante esteticamente, o qual decidi levar a cabo malgrado a consciência das inúmeras adaptações fonéticas e gastronômicas que me esperam.
Do inexorável também lembrei naquela fração de segundo que antecedeu a montagem da parafernália incômoda. Foi como olhar para o bolo meio-assado que não cresce, com um misto de arrependimento, de esperança de que não fique tão solado e da certeza de que não há mais como retroceder, apenas enfrentar o que está por vir…