De ressaca a mal de amor…

… cura se escreve com C:

Choro

Chuveiro

Cama

Comida

Café

Colo

Cafuné

Cinema

Cabeleireiro

Cobertor

Carinho

Cócegas

Chá

Criança

Chocolate

Chimarrão

Chope

Churrasco (com amigos)

Canção

Capuccino

Campo

Correr/Caminhar

Cantar

Chamego

Conversa

Companhia (as boas, claro)

Cuca de banana

Chocolate

Cafuné

Cheiro

Capim-limão

Canja

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(atualizado com a ajuda dos leitores ;

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Zuppa di Farro, Sopa de Espelta

Quase que se pode comer esta sopa a garfadas. Ela fica melhor no dia seguinte, vive bem na geladeira em pote fechado, vai ao congelador com muita dignidade e, tépida ou pelando, pode ser regada com azeite, salpicada de pimenta, coroada de queijo ralado. Se bobear, vai ao forno com pão ralado para tostar.

Daquelas que a gente faz um panelão e fica triste quando acaba, começa a ter saudade, sabe como é?

Ingredientes

  • 3 colheres de sopa de azeite de oliva
  • 100 g de pancetta picada (se não tiver, substitua por bacon ou lombo defumado)
  • 1 xícara de chá de cebola picada
  • 1 xícara de chá de cenoura picada
  • 1 xícara de chá de aipo picado
  • 3 dentes de alho picados
  • 200 g de espelta
  • 1 lata de tomates pelados (faça uns cortes neles com faca de serrinha, ainda dentro da lata)
  • água fervente
  • 1 lata de feijão cannellini ou borlotti (peso líquido 240g)
  • sal e pimenta-do-reino a gosto
  • 1 colher de sopa de sálvia fresca picada
  • 1 colher de sopa de alecrim fresco picado

Como fazer

  1. Em panela grande e funda, preferencialmente de fundo grosso, doure a pancetta no azeite.
  2. Adicione a cebola, a cenoura e o aipo (gosto de picá-los bem miúdos, com calma e paciência) e mexa. Quando estiverem macios e dourados, junte o alho e deixe dourar.
  3. Junte a espelta/trigo vermelho e os tomates e cubra tudo com água fervente, ultrapassando a mistura em dois dedos.
  4. Deixe ferver em fogo baixo, vigiando, mexendo e adicionando mais água se pegar no fundo, por pelo menos 1 hora, até o grão amaciar.
  5. Junte o feijão, enxaguado e escorrido, sal, pimenta, a sálvia e o alecrim. Misture bem e deixe apurar por uns 10 minutos.
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Um jantar completo para quatro, em meia hora

Você pode seguir o menu tal e qual, ou usá-lo de inspiração e acrescentar ingredientes, substituir temperos, incluir uma proteína cozinhada por você, comprada na rotisserie ou trazida por um conviva prendado. É tudo descomplicado e não carece de cozinha profissional, tampouco utensílios e panelas especiais.

Meu intuito, besta de tão simples, é pegar na mão do Leitor e da Leitora em distintos graus de Dadivosidade e destrinchar o processo de preparar um jantar para quatro pessoas em trinta minutos, da lista de compras à seqüência de preparo.  Se o formato apetecer e as dicas forem de serventia, ficarei bem feliz!

Coloque seu avental da sorte e vamos…

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Fomes Escondidas

Manúbrio, mais uma daquelas palavras feias para coisas bonitas, é a parte superior do osso esterno, aquele “U” onde se encontram as clavículas.  A exatos 21 cm ao Sul do manúbrio e 16 cm ao Norte do umbigo – tive a pachorra de medir – descobri o esconderijo das minhas fomes.

M. F. K. Fisher, escritora de quem sou fã e que teve dois livros editados no Brasil traduzidos pela Nina Horta, de quem também sou fã, disse no prefácio de “The Gastronomical Me”: “It seems to me that our three basic needs, for food and security and love, are so mixed and mingled and entwined that we cannot straightly think of one without the others. So it happens that when I write of hunger, I am really writing about love and the hunger of it, and warmth and the love of it and the hunger of it…and then the warmth and richness and fine reality of hunger satisfied… and it is all one.” M.F.K. Fisher desossava fomes de comida, de segurança e de amor como ninguém. Estou bem longe disso, pois mal acabo de achar que descobri o paradeiro delas e ainda preciso comer muito arroz e feijão para tão somente entender quais e quantas são, que dirá discorrer sobre elas.

Costumo dizer que a comida é só uma desculpa, já que essas fomes, ainda que escondidas, são o fundo dos meus escritos. Porque, pra mim, são todos fomes, esses sentimentos tão difíceis de diferenciar. Angústia, a fome de encontrar solução praquela situação agoniante sobre a qual não se tem controle; desejo, a quase insaciável fome do outro;  ansiedade, a fome que faz parecer que o mundo vai acabar na velocidade daquela taquicardia; paixão, a fome que há tempos não vejo;  desamparo, a fome que provoca atitude de desespero fazendo o vivente refém de um vazio, destrutivo ou apenas pouco nutritivo encontro de uma noite só ou vários anos; solidão, a fome suportável;  medo, a fome que paralisa; saudade, vontade, excitação, raiva, muita raiva, não pertencimento, coragem, ternura, frustração.

Descobri o esconderijo das minhas fomes todas outro dia, enquanto tomava um sol e apoiava ali o livro da vez, sem me importar com a marca feita pela sombra. O X no mapa do pirata, o indicador de que ali foi enterrado o baú, é uma pinta marrom em forma de coração deitado bem na boca do estômago (onde mais????), como podem ver na foto. Mede 5 mm dos extremos Leste e Oeste e 5 mm do Oiapoque ao Chuí – outra vez parei tudo e medi, que fomes escondidas são importantes demais para deixar a preguiça vencer a precisão.

A preguiça, também ela mora ali, fome duas-caras que tanto pode ser uma delícia com ou sem companhia ou uma inércia nefasta daquelas que forma uma crosta sobre outra fome, a de ver o mundo lá fora. Ao lado dela, só uns olhos assustadores brilhando na escuridão, uma fome ainda sem nome, a que jogou Dadivosa num calabouço, de castigo, sem cozinhar ou escrever. Jogo aqui, sem pensar ou reler, fragmentos que me acompanham antes de pouco dormir e acordar às 4h30 sem motivo aparente. Meses de insônia e inapetência foram o preço pra encontrar o cortiço onde vivem essas desgraçadas fomes que,  com a ajuda de Dadivosa fugida do castigo, hão de me trazer de volta a fome que me é mais cara, a de escrever.

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Maktub em fogo brando

Passava das dez da noite de uma terça-feira quando quebrei a tampa da minha panela, uma Le Creuset. A famosa Creuza (como diz a Fer), de ferro fundido esmaltado, que deveria durar uma vida, de fundo abaulado, foi ao chão. Justo a favorita companheira do ano em que estive longe, com quem acertei a sopa de tomate mais gostosa, arrisquei com sucesso na lentilha branca, amaciei por horas a fio a carne ao molho de vinho, empapei o arroz de todo dia e o basmati com açafrão, desmaiei um frango ao curry, deixei derramar pelo minúsculo fogão algo que nem lembro mais. A mesma que ocupou preciosos quilogramas na franquia da bagagem por medo de perdê-la no furdunço da mudança.

Segurava as alças com um bom pano de prato seco e as duas mãos, na intenção de escorrer qualquer coisa na pia quando, na cena que revivo ainda hoje nas horas mais inconvenientes, a coisa toda balançou. Num reflexo baixei os braços esticados o mais possível, salvei a panela e o que havia dentro, mas derrubei a tampa, fazendo um estardalhaço no piso, uma rachadura medonha de fora a fora e uma lasca no esmalte que expôs a carne, digo, o ferro.

Eu quebrei a tampa da minha panela. Não, esperem. Na língua em que vivi naquele ano, diria que foi a tampa que me escapou das mãos, como explicado por este artigo aqui. O idioma espanhol é bastante mais preciso em incidentes assim… não há culpado, só fatos. E como sabem doer, esses fatos! Aconteceu de a tampa pular fora, ignorar a garantia vitalícia, quebrar o contrato e romper com a intenção de envelhecer junto da panela, não mais abafar o calor nem participar dos cozinhados. Em espanhol, a culpa não foi da panela abandonada, nem minha. Era pra ser assim.

Era pra ser, não era pra ser. Quando a perplexidade atrasou o grito, a amiga já estava a postos. Olhos arregalados apesar do sono e cansaço do dia longo, me abraçou em palavras enquanto ainda segurava nas mãos a panela quente. Você tá bem? Quebrou? Deve ter garantia, leva na loja, que chato, nem sei o que dizer, quer ajuda, você vai ficar bem? Salvou-se a panela? E agora, o que você vai fazer? Ai, quer dizer, que hora pra perguntar isso… não sei o que dizer. Certeza que não dá pra colar, não tem conserto, não tem volta?

Sem conserto, sem volta, nem uma chance ou pedido duns meses pra viver outras coisas. Com impressionante e devastadora frieza comunicou a decisão no sopetão da queda, covarde ou corajosamente, sem jogar na panela mágoa, raiva ou levá-la na marra ao chão. Ainda hoje posso ouvi-la dizendo aquele “não estou feliz“. É, fato. E como podem doer, esses desgraçados fatos!

Dizem que a maior dor/estresse que um ser humano pode passar depois da perda de um ente querido é a separação. Sinto a dor da panela separada da tampa, encostada na área de serviço, exposta ao pó, ao calor e ao temporal, recusando-se a voltar a sentir a chama do fogão. Estão as duas sob o mesmo teto, civilizada e estranhamente arranjadas em prateleiras diferentes há um mês e meio num lugar que passou de aconchego a silenciosa agonia, deixou de ser um lar. É, a panela passa por uma espécie de luto.

Ela tenta se revestir de coragem, esmalte intacto a olhos nus, embora vazia, errática e surrealista como se num pesadelo derretesse prateleira abaixo. Quer sair desse parafuso, já que mesmo sendo forte e se saber sobrevivente da queda, reconhece sua fraqueza e pede colo pros potes plásticos mais próximos, conversa com a frigideira vermelha e a chapa azul (desde sempre e por definição sem tampa), aconselha-se com outras panelas de ferro, maiores, essas sim firmes e fortes com suas respectivas tampas, algumas até deram cria a coloridas e fofas miniaturas que, na infinita sensibilidade infantil, chegam com abraços, beijos e brincadeiras. Percebe, então, que é tempo de pensar no que realmente importa e deseja a quem vê pela frente um Feliz Ano Novo, reconhecedora de que gentileza e carinho são como cozinhar, uma dádiva que faz bem a quem recebe e ainda mais a quem oferece. Simples assim, porque assim tem de ser.

Olho para a panela aflita e fantasio encontros com minhas avós. Sento a Vó Nair no sofá, passo hidratante em suas mãos tremelicantes e braços craqueladinhos de 80 anos, escancaro minha dor e ouço que tudo vai ficar bem, que pra todo pé cansado tem um chinelo velho e que em breve encontrarei outra tampa pra minha panela, pergunta se sou eu que vou dormir na casa dela neste fim de semana, nos acomodamos na cama de casal, ela ronca, passo a noite em claro a lutar contra os mosquitos. Ganho um abraço apertado da Vó Dinah e os óculos de gatinho, pretos como seus cabelos, marcam minhas bochechas, ela esbraveja contra essa tampa e todas as outras, reclama das fugidas do vô, me chama pra ajudar a fazer o almoço de domingo prum batalhão, tomamos as duas um remédio pra dor de cabeça e dormimos no sofá da sala com a televisão ligada. Ao acordar, estamos as três na mesma casa, tomamos café em silêncio, pois nada mais precisa ser dito.

Era pra ser, não era pra ser, vai passar, foi infinito enquanto durou, não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe, estava escrito, maktub. Repasso mentalmente edulcorantes clichês, na certeza de nada é tão simples ou de repente como parece. Feito lulas num imperceptível e dissimulado fogo brando, tampa e panela cozinharam por demais, passaram do ponto, infelizmente. Mas sempre aceitei o revés culinário como parte do aprendizado e passo aqui para contar à Leitora e ao Leitor queridos que essa panela dá sinais de vida e vai voltar a cozinhar, nem que seja só pra ela. Aproveito pra dizer que estamos bem, dentro de toda essa confusão, e que em 2011 estaremos mais presentes por aqui. Ah, e  Feliz Ano Novo!

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Pão Rápido de Banana, Aveia e Nozes

Já contei pra vocês que andei comprando uma máquina de pão? Pois então. Comprei depois de muito espiar pela internet e pelas casas dos outros, topar com aqueles comerciais medonhos, refletir se de fato usaria ou se depois do primeiro mês não ter onde guardar o trambolho inútil.

Comprei não sem antes tentar sovar a massa no muque aquelas tantas vezes com a cabeça já no provável desastre panificante, será que vai embatumar, tá bom de trigo, porque não cresce logo, se já nem sempre dá certo com esse fermento seco instantâneo, imagina se eu resolver fazer pão de verdade, daqueles com fermento puro-sangue, passado adiante por gerações, ao qual as pessoas dão nome e sobrenome, fermento que precisa ser carinhosa e muito corretamente alimentado, pois qualquer deslize pode ser fatal, Messiê Levain bate as botas, come grama pela raiz, abotoa o terno de madeira, zé fini, caput!

Enquanto matutava sobre a real necessidade de uma maquineta que só mistura os ingredientes, fica morna pra massa crescer e depois se esquenta ao ponto de assar um bloco quadradão e sem personalidade e perguntava pra consciência se devia adquirir a geringonça, relatos do alheio me atiçavam a cobiça e todo um mundo de pães infalíveis, fáceis, quentinhos, lascivos e disponíveis se apresentava ali adiante.

Sucumbi num calorento sábado à tarde. Passei numa loja dessas de eletrodomésticos, me recusei a fazer mais um tenebroso cadastro “pra tá sempre ficando sabendo das nossas promoções”, peguei um táxi dali até em casa porque o céu desaguou quando eu saía meio que arrastando aquele caixote imenso.

A máquina vem com um livreto de receitas, que eu já tinha visto. Para quem não possui o equipamento, as instruções não ornam, chegam a dar raiva: coloque os ingredientes na ordem indicada, aperte o botão tal até chegar no tipo 9, selecione a quantidade de massa como II, escolha a cor da casca, aperte iniciar/parar.

É mais ou menos o que dizia o modo de fazer desse pão rápido de banana, mas como a massa usa fermento de bolo (daquele branquinho mesmo), não precisa crescer antes, não tem ponto de sova nem nada, já fiz um parecido antes de ter a máquina e deu muito certo, achei por bem deixar a receita. Fica mais compacto, feito um pão integral. É úmido, perfumado e bem moreninho por causa do açúcar mascavo. Uma belezura e nem precisa de máquina pra fazer!

Ingredientes:

  • 1 xícara de banana amassada com o garfo
  • 2 ovos
  • 3 colheres de sopa de manteiga derretida
  • 1 xícara de açúcar mascavo
  • 1/2 xícara de nozes picadas
  • 1 xícara de farelo de aveia
  • 1 1/2 xícara de farinha de trigo
  • 1/2 colher de chá rasa de sal
  • 1 colher de chá de canela em pó
  • 1 colher de chá de bicarbonato de sódio
  • 1 colher de sopa de fermento em pó (químico)

Como fazer:

  • Ligue o forno para preaquecer. Unte uma forma de pão.
  • Misture a banana, os ovos e a manteiga (pode usar um garfo, a batedeira ou uma colher de pau) e reserve. Em outra tigela, misture os demais ingredientes (açúcar, nozes, aveia, trigo, sal, canela, bicarbonato e fermento). Junte os secos com os molhados, mexendo até incorporar. Despeje na forma, leve ao forno médio até que, enfiando um palito na massa, ele volte limpo.

.*. Atualização .*.
Comprar ou não comprar uma máquina de pão?

Ao Leitor e Leitora queridos que suspiram ao ver a maquineta na TV, com aquele pão recém-assado que derrete a manteiga a metros de distância, que sonham em jogar todos os ingredientes ali e acordar com o perfume de pão caseiro, àqueles que cobiçam tal eletrodoméstico e precisam de ajuda para decidir se vale a pena comprar uma máquina de pão, sinto dizer que decidir por vocês não posso, mas de bom grado deixo aqui algumas observações:

  1. Se possível, visite alguma loja que vende o equipamento. Abra a caixa, repare nas dimensões, entenda o funcionamento com o vendedor.
  2. Verifique se tem onde apoiar e ligar a geringonça. Uma vez que você já sabe as dimensões e o peso dela, já pode imaginá-la em sua cozinha. Ela balança um pouco enquanto está misturando a massa, é bom que a superfície onde ela vai trabalhar seja firme.
  3. Veja também onde ela vai morar. É normal que role uma empolgação inicial, mas a menos que a família seja numerosa e a produção seja diária, pode ser que você precise “estacionar” o aparelho em algum lugar.
  4. A máquina mistura, sova, faz crescer 2 vezes e assa o pão num formato meio paralelepípedo, que é o tamanho do recipiente interno dela. É possível usá-la somente para sovar a massa, que pode ser retirada e assada em outras formas e formatos num forno convencional. Confesso que não usei esse artifício. Quando ligo a máquina é mesmo pra jogar ali os ingredientes sem interagir muito no processo.
  5. O livro de receitas que acompanha o produto diz que é possível sovar massa de macarrão, fazer geléia, bolos e algumas sobremesas. Até agora, só testei pães mesmo.
  6. Não é por falta de equipamento que você vai deixar de se aventurar! A máquina pode bem ser uma comodidade…mas essa receita que escolhi compartilhar, de pão rápido de banana,  pode muitíssimo bem ser feita com uma vasilha grande, uma colher de pau e poucos minutos. E tem outras receitas por aqui, espia:
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