Uma daquelas saladas

Quando se é parte calor, parte privação de sono, parte rebuliço e parte inapetência, vai-se à cozinha de avental azul, faixa no cabelo e assam-se beterrabas, confitam-se tomates amarelos e lava-se aquela folharada toda. Porque a cozinha, mesmo em tempos revoltos (e sobretudo neles), é mais um daqueles Cs que curam.

E faz-se uma daquelas comidas que revigoram os olhos, o corpo e a cabeça. No prato: um punhado de folhas de rúcula lavadas e secas, tomates ‘sweet’ amarelos confitados*, beterraba orgânica bem lavada e assada em papel alumínio com a casca**, queijo de cabra curado e cubos de pão fritos*** no azeite onde foram confitados os tomates, um pouco de flor de sal, algumas gotas de vinagre de cava e pimenta moída na hora.

* Tomates Confitados

** Beterrabas Assadas

*** Croûtons

 

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Tomates Confitados

Tomates cereja no mercado de Vevey

Encontrei tomates cereja tão bonitos quanto os da foto. Foram ao forno baixo, por meia hora imersos em azeite com sal Maldon, sem mais. Poderia ter juntado pimenta, ervas quaisquer, alho, vinagre balsâmico, açúcar… não achei que precisasse, e não precisou.

Ingredientes:

  • 400 g de tomate cereja (com cabinho, se encontrar)
  • 200 ml de azeite (aproximadamente)
  • sal em escamas (usei Maldon) ou sal grosso esmagado no pilão

Como fazer:

  1. Ligue o forno para preaquecer.
  2. Lave e seque os tomates. Disponha-os sobre um recipiente que possa ir ao forno, em uma única camada, sem que haja muito espaço entre eles, tampouco que fiquem uns sobre os outros.
  3. Polvilhe o sal, cubra com o azeite.
  4. Leve ao forno baixo por 30 minutos. Sirva quente, morno ou frio.
  5. Pode virar entrada (sobre fatias de pão tostado com alho), entrar numa quiche, virar salada com queijo de cabra…Ao sair do forno, fora de foco, à noite e com o celular, os meus ficaram assim, puro amor:

Tomates Confitados sem Foco (foto noturna de celular)

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Muito mais fomes escondidas

Corei e sorri apertando os olhos quando ele me comparou à crème pâtissière cheia de pintinhas de baunilha que recheava um sonho parecido com esse da foto. Detalhes como país, idioma, autor e época da vida são irrelevantes para Leitor e Leitora, pois o que me arrebatou agora não foi a lista de similitudes sensoriais que se pode identificar numa comparação dessas.

O que me tirou o chão enquanto comia um sonho com café preto de manhã, sorria e corava e apertava os olhos ao lembrar do galanteio foi uma terrível constatação: se tenho tantas pintas e sardas na pele branca quanto essa crème pâtissière, se pareço ser salpicada de pontinhos pretos, então minhas fomes tem muito mais esconderijos do que eu imaginava. Elas não vivem só naquele cortiço em formato de coração entre o umbigo e o manúbrio. Elas estão pelo corpo inteiro!

Percebi que Dadivosa, que já esteve de castigo no cortiço, tem usado todos os tipos de fomes para me mandar recados. Descobri ser ela a líder da vez no comando de uma rede descentralizada muito eficiente (embora às vezes devastadora) de pequenos agentes. Há dias vem usando como mensageiros mudos a inapetência, a insônia, a falta de noção espacial (consegui cair enquanto estava parada, estatelando os dois joelhos no concreto), apela recusando-se a cozinhar qualquer coisa que não aquele macarrão com manteiga e parmesão e agora essa: enviou a fome-reminiscência que me deu esse estalo.

Minha cara nesse instante (fiz questão de checar no espelho, na exatidão que a gravidade do assunto exige) tem olhos de terror, sobrancelhas de preocupação e uma mordida no lado esquerdo do lábio inferior. Assusta-me saber que essas pintas todas podem abrigar fomes que desconheço, sentimentos não identificados e portanto perigosos em potencial. Preocupa-me saber que muito provavelmente venho lidando mal com essas fomes e devo ter feito alguma besteira. Mordo o lábio concentrada na determinação não de repassar todos os microacontecimentos dos últimos dias, mas de buscar as condições de tempo-espaço-temperatura-pressão para que a mistura de leite, gemas, açúcar, farinha, manteiga e fava de baunilha não desande nem vire outra coisa, para que resulte doce, sedosa, perfumada, agradável, gostosa, descomplicada e feliz como tem de ser… para mim e para quem a provar.

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Meus Dez Utensílios Indispensáveis: 1 – Microplane

Meu ralador preferido, em três poses

Inauguro minha lista de dez mais queridos utensílios com o Ralador Microplane que vive pendurado acima da pia, companheiro de muitos anos, viagens e mudanças.  Chegamos a morar por três meses num hotel que só tinha microondas, onde aqueci água pro café, assei batatas e aprendi a cozinhar macarrão como se fosse na panela. E um macarrãozinho com manteiga boa e queijo ralado na hora sabe reconfortar, aquece a barriga e acalma os nervos.

O queijo sai em fitas delicadas, botem reparo

Com ele ralo queijos, temperos (canela, gengibre, noz-moscada…) e faço raspas de frutas cítricas para receitas doces e salgadas. É uma mão na roda… e às vezes um naco de mão, dedo e unha a menos. O bicho é afiado e competente, mas é preciso cuidado: nada de se debruçar sobre o cabo, pressionar demais o alimento ou apoiar a lâmina com muita força. Com o costume, percebi que me machuco muito menos com ele do que com aqueles raladores grandalhões de quatro lados…

Nos Estados Unidos, um grater/zester Microplane vale pouco mais de 10 dólares, lembrancinha batuta e fácil de trazer/pedir para os amigos. Ao avistar um exemplar desses no Brasil, o Leitor e a Leitora devem segurar a periquita do consumo e avaliar se vale mesmo a pena: por essas bandas, chegam a custar sete vezes mais.

 

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Arista alla Fiorentina

Um lombo de porco suculento que só, fácil de fazer, bom quente ou frio, vira um sanduíche delicioso no dia seguinte. (Não botem reparo na foto, de celular, feita às pressas, embalada pela fome da visita).

Aprendi na Florença, onde se usa bastante a mistura de sálvia e alecrim. Já usei só um e só o outro, mais de um e mais do outro, troquei por salsinha… a receita básica, que usei no dia da foto, é a que segue:

Ingredientes

  • uma peça de 1,5 kg de lombo de porco
  • 2 dentes de alho, sem os germes, bem picados
  • 3 colheres de sopa de alecrim fresco bem picado
  • 2 colheres de sopa de sálvia fresca bem picada
  • 1 colher de chá rasa de sal (ou a gosto)
  • pimenta-do-reino moída na hora a gosto
  • 100 ml de azeite de oliva
  • 125 ml de vinho branco seco

Como fazer:

  1. Ligue o forno para preaquecer.
  2. Misture bem as ervas, o alho, o sal e a pimenta e despeje sobre uma tábua de picar.
  3. Com as mãos, besunte o lombo com um pouco de azeite.
  4. Passe o lombo sobre a mistura de temperos, pressionando para aderir bem.
  5. Do azeite, despeje metade numa forma, deite ali o lombo e regue-o com o restante.
  6. Leve ao forno, sem cobrir, a 200° C e deixe ali por uma hora, regando a cada 15 minutos com o líquido que se formar. Despeje o vinho por cima do lombo e deixe assar por mais meia hora, vigiando e regando sempre.
  7. Tire a assadeira do forno e cubra com papel alumínio. Deixe descansar por 10 minutos antes de fatiar e servir.
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Cuando cocino me pasan cosas…

… que no me pasan cuando no cocino.

Sou toda coração, baixo a guarda, desarmo-me, sinto-me forte e maleável como massa de pão e, ao mesmo tempo, impermanente, vulnerável e minúscula como um ovo de codorna pochê.

Posso confessar amores, derreter-me inteira, desnudar a alma, chorar na frente do moço ou da geladeira como naquele dia: descalça, pouco vestida, olhos pintados e avental azul-marinho. É que não passo de um amador: aquele que renova seu prazer, que ama uma e outra vez, que se instala voluntariamente a troco de nada no significante, tal e qual Barthes escreveu:

“El amateur (alguien que se dedica a la pintura, la música, el deporte y la ciencia sin espíritu competitivo ni ánimo de convertirse en un maestro) renueva su placer (amator: aquel que ama una y otra vez), no es ningún héroe (de la creación, de la representación); se instala voluntariamente (a cambio de nada) en el significante: en la sustancia inmediatamente definitiva de la música y de la pintura; su práxis, por regla general; no implica ningún rubato (ese robo del objeto en beneficio del atributo); es – o acaso será – el artista antiburgués.”

Enquanto mexo a polenta, vigio a zuppa di farro, tempero o frango, abro a fava de baunilha, asso as batatas, apronto um macarrão com manteiga e parmesão, apuro o molho de limão siciliano pro cabelinho de anjo a razão passa longe. Bem longe. Chega a perder o caminho de volta e me dá rasteira (sabe quantos novos hematomas acumulei nas últimas semanas?). E sem a razão, perco eu o caminho do meio e viro 100% sentimento, à mercê das zombeteiras fomes escondidas, essas fanfarronas. Experimento o inferno e o céu de todo dia, oscilo, beijo na boca, tenho vertigem, faço beicinho, choro, recebo e dou carinho, fico na ponta dos pés, queimo o braço no forno.

Sou amadora, aquela que ama uma e outra vez, e assim devo continuar, pois quando cozinho me acontecem coisas que não acontecem quando não cozinho.

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