Berinjela com Ervas

Berinjela com Ervas – Dadivosa

Nem chegaria a ser uma receita, mas como sei que há Leitores e Leitoras que estão começando a gostar de cozinhar, tentarei ser o mais exata que puder.  Essas berinjelas grelhadas no forno ficam prontas em uma hora, com o mínimo de trabalho. Podem ser guardadas na geladeira por um ou dois dias, ou mesmo no freezer (testei e funcionou muito bem!)

Receita de Berinjela ao Forno com Ervas

Ingredientes: (4 porções como acompanhamento)

  • 10 a 12 mini berinjelas (usei das redondas, mas a outra também serve)
  • 1 cabeça de alho inteira
  • 4 colheres de sopa de azeite
  • 1 colher de sopa da mistura de ervas secas que preferir (usei manjerona, salsa, manjericão e alecrim)
  • sal e pimenta a gosto (usei ambos moídos na hora)

Como fazer:

  1. Ligue o forno para preaquecer.
  2. Unte uma forma ou tabuleiro com a metade do azeite. Precisa ser grande o suficiente para que caibam as metades das berinjelas em uma única camada.
  3. Lave e corte as berinjelas no sentido do comprimento. Disponha-as na forma preparada, lado cortado para cima. Tempere com o sal, depois a pimenta, as ervas e o restante do azeite.
  4. Corte a cabeça de alho* pela metade, separe os dentes e espalhe-os pela forma, com casca e tudo, entre as berinjelas.
  5. Leve ao forno a 180ºC por 30 minutos. Vire as berinjelas, deixando a parte cortada para baixo, e asse por mais 30 minutos.

*Não se assuste com a quantidade de alho, ele vai assar lentamente e vai ficar macio e mais suave, quase doce. Mesmo assim, como está quase inteiro, fica fácil de identificar na hora de se servir ;)

 

 

 

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Gelado de Banana Anti-TPM

Gelado de Banana Anti-TPM - Dadivosa

Gelado de Banana Anti-TPM – Dadivosa

Esta receita de gelado de banana anti-TPM já apareceu por aqui, ocasião em que queimei um liquidificador por querer bater tudo de uma vez só e ignorar a instrução de usar o processador de alimentos. Tivesse eu comido a sobremesa antes, talvez estivesse mais paciente ;)

Caso você só tenha o liquidificador (como eu, à época), deixe a fruta descongelar um pouco mais (leve de volta ao freezer depois de pronta, se for o caso) e pulse menos quantidade de cada vez.

Receita de Gelado de Banana Anti-TPM

Ingredientes: 

  • 4 bananas-prata
  • 1/2 limão

Como fazer:

  1. Descasque as bananas, retire quaisquer fiapos, corte-as em rodelas de mais ou menos 2 cm e respingue umas gotas de limão para evitar que oxidem.
  2. Leve as bananas ao freezer, em um recipiente onde elas possam ficar todas em uma só camada. Deixe congelar.
  3. Retire as bananas do freezer e deixe descongelar um pouco, coisa de 10 a 15 minutos.
  4. Aos poucos, passe as bananas pelo processador até virarem um creme. Empregue em seguida. Caso elas derretam muito, faça as bolinhas e leve-as ao freezer até a hora de servir.
  5. Você pode polvilhar esse gelado com canela, um pouco de açúcar mascavo ou nozes/amêndoas/castanhas picadas. Fica uma delícia servido com este Petit Gâteau de Canela.

 

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Carne de Panela com Cerveja

Carne de Panela com Cerveja - Dadivosa

Carne de Panela com Cerveja – Dadivosa

A desculpa pode ser uma tristeza,  medo, preguiça, muito/pouco trabalho, preguiça, problemas técnicos, ausência de um caderno bacana ou da câmera de última geração, falta de uma panela daquelas de programa de TV, ou uma combinação de tudo isso.

O fato é que gente que desenha, escreve, fotografa, faz trabalhos manuais ou cozinha só por amor, às vezes quase escondidinhos (e ouve dos amigos que deveria se dedicar mais a isso, que os olhos brilham quando faz A e B, que por que não faz disso um ganha-pão etc.) sempre passam por uns períodos de banzo, de entressafra, de negação, vai saber.

Mas um dia, com algum empenho ou sorte, esse artista/amador/criança interior grita mais alto e pede pra sair. Aí o vivente aponta os lápis, afia a faca, carrega a bateria da câmera, reencontra o bloco de ideias e desembesta a desenhar em tudo quanto é superfície, sai fotografando família-flor-papagaio-janela, escreve até madrugada depois de um dia de trabalho intenso, corre pro fogão pra fazer uma comida bem complicada com cara de restaurante da moda que saiu na revista… ou bem caseira, fácil porém um pouco demorada, daquelas que você pode deixar lá rolando enquanto faz outra coisa (outras receitas?) mas precisa comparecer para dar um cheirinho, fazer um agrado e cuidar dela de tempos em tempos.

Essa carne de panela com cerveja é bem dessas. Você pode achar que é coisa de fim de semana chuvoso, mas é uma receita tão fácil que dá pra fazer quando se chega em casa do trabalho. E o resultado dura bastante, pode ir para o freezer e ser reanimado com outros ingredientes e inspirações.

 Receita de Carne de Panela com Cerveja

Ingredientes: (o rendimento vai depender do uso que você der)

  • 1 peça de 1,5 kg de músculo (usei orgânico, faz diferença)
  • 2 cebolas picadas
  • 350 ml de cerveja
  • 3 folhas de louro
  • sal
  • pimenta
  • azeitonas pretas e salsa picada para servir

Como fazer 

  1. Antes de começar, deixe a carne fora da geladeira por pelo menos meia hora.
  2. Retire os nervos e membranas da peça de músculo e corte-o em cubos grandes (ou peça para o açougueiro fazer).
  3. Leve uma panela grande de fundo grosso ao fogo alto. Vá colocando ali quantos cubos couberem para que eles dourem levemente. Usei uma panela esmaltada de ferro fundido, sem usar nenhum tipo de óleo.
  4. Adicione as cebolas, baixe o fogo para médio e cubra a panela. O vapor vai ajudar a cozinhá-las. Vão ficar uns pedacinhos grudados no fundo, não faz mal. Se começarem a queimar, no entanto, coloque um pouco (bem pouco mesmo) de água.
  5. Aumente o fogo e junte a cerveja, que vai espumar e, depois de um tempo, evaporar. Junte as folhas de louro, um pouco de sal e de pimenta (pegue leve, pois o sabor vai apurar e você pode corrigir o tempero depois).
  6. Deixe uma chaleira com água quente ao lado da carne. Na medida em que o líquido for secando, adicione mais um pouco de água (não precisa cobrir a carne, pense em deixar no nível de um dedo da parede da panela). Cubra a panela com a tampa, deixe em fogo baixo por pelo menos duas horas e vigie de vez em quando para adicionar mais água.
  7. Estará pronta quando, com uma colher, você conseguir atravessar a carne. Corrija o tempero, desfie e sirva com as azeitonas e salsinha para comer com pão, use como molho de uma massa, recheio de escondidinho, carne louca com pimentão e outros temperos ou o que sua vontade mandar.
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Clafoutis de Bacon, Alho Poró e Tomates

Diz que Gauguin, ao fim da vida, doente e isolado em um barraco de madeira, sem telas para pintar, criou maravilhas nas paredes da casa. A restrição é, muitas vezes, motor poderoso para a criatividade. Um prazo apertado para filmar, um orçamento pequeno, uma paleta de cores com um laranja meio estapafúrdio, os parcos recursos de um país pobre, o pouco alcance da voz, os alunas-bailarinas iniciantes, somente duas ou três verduras boas no mercado… ou ter uma geladeira de 55 cm X 76 cm X 55 cm podem resultar em algo belo, emocionante, surpreendente, gostoso.

Por doze meses, minha geladeira era do tamanho de um frigobar. Aprendi a escolher e comprar melhor a comida, evitar desperdícios, usar tudo o que ali morava, respeitar cada ovo solitário, cada naco de manteiga, cada verdura prestes a murchar.

E agora, por um mês, vivo novamente com esse divertido desafio espacial. Divertido por estimulante, pois cada refeição acende uma vela nas catacumbas da memória culinária, mostrando um pedaço desfocado porém certeiro de tudo o que li, vi, provei, anotei, passei os olhos, cobicei já nem sei onde nessas décadas de amor pela cozinha. A chama da vela, em vez de apresentar uma receita completa em alta definição, delineia uma possibilidade, provê a faísca necessária para disparar sinapses na cabeça da cozinheira.

Vou até a geladeira pigmeia, faço uma busca e apreensão, encontro umas quantas coisas, aproveito respeitosamente tudo o que lá habita, faço um clafoutis, voilà, fica delicioso, a fome e a pressa são grandes, bato uma foto mequetrefe com o celular. O foco, assim como a abundância de espaço, é superestimado :)

Clafoutis de Bacon, Alho Poró e Tomates

 

Ingredientes (4 porções)

  • 3 colheres de sopa de bacon picado em tiras finas
  • 4 alhos poró (somente a parte clara)
  • 10 a 15 tomates cereja
  • 3 colheres de sopa rasas de farinha de trigo
  • 3 ovos
  • 300 ml de leite integral
  • 200 ml de creme de leite fresco
  • 1 colher de chá de ervas secas (tomilho, manjericão, orégano, o que tiver)
  • 2 colheres de sopa de queijo ralado (parmesão, grana padano, meia-cura…)
  • sal
  • noz-moscada
  • pimenta-do-reino moída na hora
  • manteiga para untar

Como fazer

  1.  Ligue o forno para preaquecer a 200ºC. Unte com manteiga um recipiente que possa ir ao forno (capacidade para 1,5 litro, aproximadamente).
  2. Limpe e corte o alho poró em fatias grossas.
  3. Doure o bacon em uma frigideira antiaderente e, quando estiver crocante, adicione o alho poró. Salpique uma pitada de sal e pimenta, junte meia xícara de água e abafe com uma tampa. Deixe cozinhar em fogo baixo até a água toda secar e o alho poró ficar macio. Reserve.
  4. Prepare a massa: peneire a farinha em uma tigela, acrescente os ovos, o leite, o creme de leite e bata até a massa ficar homogênea, sem grumos. Ela é bem líquida. Tempere com sal e noz moscada.
  5. Disponha os tomates inteiros na forma untada e, entre eles, o refogado de bacon com alho poró. Vá colocando a massa aos poucos, com cuidado. Polvilhe com as ervas secas e o queijo ralado e leve ao forno a 200ºC por 40 a 45 minutos. Sirva quente, frio, morno, gelado, pelando… fica bom de qualquer jeito e você pode reaquecer a sobra no forno coberta com papel alumínio mais tarde… se sobrar!
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Comida para os tímpanos – Mambo Italiano

Música é comida para os tímpanos. E na gororoba de estilos de meu pequeno acervo tem aquelas que me fazem sorrir também por falarem de cozinha, pratos, preparações e ingredientes.

Com vocês… o Mambo Italiano de Dean Martin :)

 

Mambo Italiano – Dean Martin

(A girl went back to Napoli because she missed the scenery)

(The native dances and the charming songs)

(But wait a minute something’s wrong)

(’cause now it’s)

Hey mambo, mambo Italiano hey hey mambo mambo Italiano

Go go go you mixed up Siciliano

All you Calabrese do the mambo like-a crazy with the

Hey mabo don’t wanna tarantella

Hey mambo no more mozzarella

Hey mambo mambo Italiano try an enchilada with a fish baccala

Hey goomba I love how you dance the rumba

But take some advice paisano learn-a how to mambo

If you’re gonna be a square you ain’t-a gonna go anywhere

Hey mambo mambo Italiano hey hey mambo mambo Italiano

Go go Joe shake like a tiavanna

E lo che se dice you get happy in the pizza when you

Mambo Italiano

 

Hey chadrool you don’t-a have to go to school

Just make it with a big bambino

It’s like vino

Kid you good-a looking but you don’t-a know what’s cooking ’til you

Hey mambo mambo Italiano

Hey hey mambo mambo Italiano

Ho ho ho you mixed up Siciliano

E lo che se dice you get happy in the pizza when you

Mambo Italiano

 

Ficarei muito contente se o Leitor e a Leitora puderem indicar mais algumas aqui, nos comentários. Publicarei com os devidos créditos, obviamente.

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Nem ferver uma água…

purê de batata instantâneo

Basta ferver a água com sal e manteiga, adicionar leite, misturar o conteúdo do pacote e deixar descansar por meio minuto. Nada de escolher, cozinhar e descascar as batatas (a ordem ao gosto do freguês), passar pelo espremedor, juntar a quantidade desejada de manteiga e/ou leite, temperar, garantir que chegue quente à mesa, sujar louça, respingar fogão, pelar os dedos. Tudo muito rápido, tudo muito simples, tudo muito garantido.

Só que não. Apesar de ter lido as instruções, consegui errar o preparo de um purê de batata instantâneo, uns flocos liofilizados de feitura promissoramente rápida e indolor. Abri o pacote e, ato contínuo, dissolvi o conteúdo em água fria, juntei manteiga e sal, levei ao fogo, mexi, tirei do fogo, acrescentei o leite. E, estranhando a consistência, fui perguntar a quem já tinha feito aquela comida de astronauta. Risos por todo lado. “O 5 de janeiro de 2013 será conhecido como o dia em que a Dadivosa errou um purê de batatas instantâneo!”. Não se pode ganhar sempre…

Mas tinha feito um molho de cogumelos porcini com vinho que foi servido no centro de uma sopa de batatas meio sem gosto e a coisa toda não ficou exatamente ruim. O erro, como mais de uma pessoa apontou ao saber do mau passo instantâneo, foi justamente o fato de ser “instantâneo”. Faço sem problemas um purê do zero, desde a compra das batatas até a limpeza do último pingo de leite no chão. Mas deveria lembrar que em alguns casos sou mesmo à moda antiga. Quando se trata dessas poeiras mágicas industrializadas não sei nem ferver uma água. :)

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Dadinete, o danete da Dadivosa*

Dadinete

Dadinete – Foto de Estevam Romera

Tenho um punhado de amigos e parentes gastronomicamente ortodoxos. Ou, como o representante-mor Daniel refere-se a si mesmo, gastronomically challenged. O termo, de um politicamente correto quase cafajeste, qualifica nada mais do que uma pessoa com paladar restrito, pouco aventureiro. Não gosto de dizer que é paladar infantil, pois conheço crianças bastante mais destemidas e gastronomicamente curiosas do que o senso comum nos faz crer.

E apesar de ser também eu curiosa e destemida para provar novos sabores, não acho que caiba a mim forçar a barra para ninguém, e me parte o coração saber que o convidado parou no caminho para engolir um pão-carne-e-queijo (que é tudo menos isso) por que no cardápio não terá nada que ele consiga comer. De modos que, de um jeito ou de outro, na medida do possível, tento acomodar as diferenças e sempre preparar algo para o portador de necessidades culinárias especiais.

A mesma coisa acontece quando sou incumbida de levar algum prato na casa alheia. E foi assim que surgiu a primeira versão do Dadinete, quando me ofereci para levar a sobremesa no churrasco de dia dos pais na residência do supracitado amigo Daniel. Tinha de ser de chocolate, não podia ter fruta seca nem molhada, ser fácil de carregar, armazenar e servir, não desmoronar no caminho e ainda agradar aos convivas todos. E foi um sucesso.

Receita sucesso a gente repete, passa adiante, porque não tem mesmo nada de muito diferente, é coisa fácil de fazer e de lembrar, tem poucos ingredientes, lembra infância e ataques à geladeira na madrugada.

Passei a receita para a Tatu, que batizou a sobremesa, divulgou o Dadinete em seu blog lindo e combinou comigo de publicar, cada uma em seu quadrado e do seu jeito, a minha receita com a foto produzida por ela e clicada pelo Estevam Romera, pai de Alice, que suportou até que bem quatro mulheres cantando musiquinhas bobas, fazendo passinhos pela sala, falando de comida e fazendo piadas ruins sobre a viagem ao Peru.

Receita de Danette Caseiro, o Dadinete

Ingredientes: 

  • 1 litro de leite
  • 4 colheres de sopa cheias de chocolate em pó (achocolatado não serve)
  • 1 lata de leite condensado
  • 2 colheres de sopa cheias de amido de milho (‘maisena’)
  • 2 xícaras de chocolate picado (pode usar amargo, ao leite ou uma mistura dos dois)
  • 1 lata de creme de leite gelado, sem soro

Como fazer:  

  1. Comece fazendo uma espécie de mingau. Em uma panela, dissolva a maisena em um pouco do leite. Acrescente o restante do leite, o chocolate em pó e o leite condensado.
  2. Leve ao fogo brando e cozinhe, mexendo sempre para não grudar no fundo, até ferver. A mistura vai engrossar. Desligue o fogo.
  3. Acrescente o chocolate picado e continue mexendo até derreter. Reserve fora do fogo e, quando a mistura estiver morna, incorpore o creme de leite gelado, sem o soro. Para tirar o soro do creme de leite, abra a lata, enfie uma faca na borda até o fundo e incline a lata com cuidado, para sair o líquido. Você pode misturar o creme de leite com a ajuda de uma batedeira, com um batedor de mão ou colher de pau. O importante é deixar a sobremesa bem homogênea.
  4. Deixe gelar por pelo menos 4 horas antes de servir.

Algumas dicas…

Usei um chocolate em pó culinário da Suíça, com nada de açúcar, bem bom. Faça com o melhor que encontrar, mas aquele chocolate em pó que vem em caixa vermelha da marca conhecida também fica ótimo. Achocolatado não presta pra essa receita, tá? O chocolate em barra, quanto melhor for, melhor o resultado da receita. E se não tiver creme de leite em lata, pode tentar o fresco, mas espere a mistura de chocolate esfriar completamente e bata o creme de leite em chantilly antes de adicionar com bastante cuidado que o resultado fica parecido. E se sobrar, pode congelar numa boa. O tal amigo gastronomically challenged fez isso e aprovou :)

* atesto para os devidos fins que a aliteração do título não foi intencional

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Cozinha pra mim?

A depender do interlocutor, “Cozinha pra mim?” tem o efeito de um “Me beija!“. Um pedido assim é promessa de preguiça, samba e amor até mais tarde, ou o interlúdio que sucede algumas horas no computador para terminar um trabalho, responder os correios, buscar aquela música do fim do século passado, pagar as contas… e precede o dobro dessa quantidade de horas numa soneca de pernas enroscadas em tarde de canícula que não suporta mais do que uma salada.

Um “Cozinha pra mim?” pode ser “Vem dançar comigo” entre o meio da sala e a frente do fogão, falar sobre o dia enquanto o outro pica tudo miudinho, rir do choro involuntário e certeiro da cebola ardida, varrer os cacos daquele copo quebrado, buscar mais gelo, arriscar um samba com a colher de pau na mão, apresentar um tempero novo, abrir todas as janelas, ligar coifa e apelar para o ventilador quando o vinho jogado na assadeira do pato te faz desaparecer em nuvem de fumaça de ninja.

“Cozinha pra mim?” às vezes nem se diz com a boca, mas com o olho. É pedido de colo, neutralizador do dia ruim para um, libertador do aconchego recolhido para o outro, curativo de tantos males, aporrinhações e enfermidades agudas do espírito. Quase sempre funciona, quase nunca precisa-se verbalizar o motivo do apelo ou o resultado do calorzinho no estômago.

Tem dias em que “Cozinha pra mim?” é um “Estou com saudade…“, carinho de pai-mãe-filha-irmãos, desculpa pra tomar alguma coisa e conversar sobre a impermanência da vida e a perenidade de amor, perguntar do fulano, saber da beltrana, que bom que estão bem, apresentar uma piada nova que apareceu na internet, chorar de rir e irem todos empoleirar-se na cama de um.

Há também o “Cozinha pra mim?” proferido pela cozinheira e tomado com certo espanto e terror pelo interlocutor mal acostumado e avesso ao fogão. Mal sabe ele que tudo o que ela quer depois de tantas receitas testadas e servidas e fotografadas, tudo o que ela espera depois de tantas horas em pé de avental e faixa no cabelo, tudo que a faria feliz é um arroz com ovo que seja, um café passado na hora, até uma mesa posta para o empadão trazido da padaria tá valendo.

“Cozinha pra mim?” não carece de porobséquios e sivuplés. O veludo da voz dá conta da boa educação. Nem precisa motivo, para dizer a verdade. É feito aquele presente perfeito que se encontra por acaso e entrega-se assim, sem data imposta, só porque eu vi e lembrei de você, surpresa provocadora de friozinho no estômago, sorriso de criança, abraço pendurado no pescoço e beijo barulhento na bochecha. É assim, um prazer para quem serve e para quem é servido (servir o outro é tão bom, como o mundo precisa de pequenas e grandes gentilezas…). É, por fim, das coisas mais dadivosas que se pode pedir e conceder, é quase uma declaração… Cozinha pra mim?

Receita da Salada “Cozinha pra Mim?”

Ingredientes: (para dois)

  • 1 endíva cortada em tiras finas
  • 1 bulbo de erva-doce cortado em tiras finas
  • 2 xícaras (aproximadamente) de alface lisa rasgada com as mãos
  • 1/2 xícara de brotos de feijão
  • 2 xícaras de tomate-cereja cortado em quartos
  • 1/4 de xícara de pancetta ou bacon em fatias finas
  • 2 dentes de alho
  •  2 xícaras de pão italiano (ou português, ou outro semelhante) rasgado em bocados
  • 1/2 xícara de azeite de oliva para o molho, mais algumas colheres de sopa para o pão
  • 1/4 de xícara de vinagre de vinho branco ou de cava
  • 1/2 xícara de pimentão vermelho assado e sem pele picado
  • pimenta-do-reino moída na hora
  • sal a gosto
  •  lascas de parmesão ou grana padano

Como fazer:

  1. Coloque as folhas, brotos e tomates em uma saladeira grande.
  2. Frite a pancetta até dourar e ficar crocante, retire-a e reserve-a deixando a gordura na frigideira. Acrescente um fio de azeite e, em fogo baixo, doure o alho, retire-o com cuidado e reserve.
  3. Ainda à mesma frigideira, junte mais um fio de azeite, a pimenta, e doure ali o pão. Deixe de lado.
  4. Prepare o molho: misture o pimentão, o vinagre e o azeite, corrija o sal e moa um pouco mais de pimenta se gostar. Na hora de servir, junte a pancetta quebrada em pedaços e o alho frito, agora já frios, à saladeira. Despeje o molho e envolva tudo com cuidado. Por cima de tudo, salpique o pão e as lascas de queijo.
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De volta à Suíça

- Ça va, ma jolie cusinière?
- Tô triste, Suíço.
- Vem pra cá!
- Ó que eu vou…
- Ouiiiii!!

Chego duas semanas depois dessa conversa pelo Skype meio em frangalhos, com alguns planos, casacos e biquíni (porque o tempo era incerto), cachaça e suco de maracujá na bagagem conforme o pedido. Os frangalhos, aquela troca de casca anual e necessária mas nem por isso confortável, começam a cair já pela janela do trem que passa ao redor do lago.

O mesmo amigo do Suíço, que o acolhia há um mês e tanto, atura a intrusa por 20 dias. Mentira. Não atura. Viramos amigos instantâneos, parece que nos conhecemos há dez anos. Bebemos caipirinha e dançamos na sala até a madrugada – vejam só – pop francês dos anos 80 e toda sorte de musiquinhas coreografáveis, parando em Livin’ La Vida Loca do Ricky Martin só porque o vizinho desce para reclamar, todo gentil, todo educado, todo suíço.

Somos três. Três mais ou menos recentemente solteiros que queimaram seus navios e largaram o que muitos chamam de ‘vida estável’ em busca do que de verdade importa, querendo pisar no mundo de um jeito mais leve e dispostos a bancar suas próprias escolhas, por mais desafiadoras que sejam. Conversamos noite adentro e tarde afora naquele apartamento com janelas de coração.

Rimos e choramos juntos, compartilhamos bobagens, confissões, confidências e profundezas. Das mais ricas, doloridas, surpreendentes, felizes e promissoras profundezas. Faço fotos dos pés em frente ao espelho da sala. Muitas delas.

Jogamos Uno com o Léonard, filho do anfitrião, que mora com ele e com a mãe em semanas alternadas. Passeamos com o pequeno, preparamos a festinha de aniversário dele. Faço brigadeiros com granulado marrom e colorido, as crianças não curtem, acham muito doce (também acho). Preparamos tapas para os adultos: nós três e os poucos vizinhos daquele prédio antigo com uma claraboia no meio. Léonard chega correndo, cata o primeiro copo que vê pela frente e, antes que consigamos impedir, emborca um golão de vinho. E faz a cara mais malina, ri até quase chorar, acha o máximo esse engano, sente-se muito adulto aos seis anos. Desenhamos e contamos histórias. Vamos almoçar onde Léo quer me levar, um restaurante chinês. Tiramos muitas, muitas fotos. Caminhamos montanha acima, vemos cogumelos, subimos na torre, comemos maçã roubada do pé, catamos espadas em forma de graveto. Tenho uma flor no cabelo e Léo diz que estou bonita. Acredito. Quando um menino-de-tudo diz uma coisa dessas, a gente acredita. Semana sim, semana não, portanto, somos quatro. Quatro crianças descobrindo o mundo.

E, feito criança, vou brincar de comprar frutas e legumes da estação na feirinha orgânica local, o mercado da praça que acontece aos sábados. Compro ingredientes e cozinho nesse e em praticamente todos os outros dias em que ficamos em casa. Ou melhor, cozinhamos. Os três juntos; um comanda e os outros dois ajudam; um sozinho pra fazer agrado aos outros dois (ou outros três, semana sim, semana não) e em duplas para o terceiro ficar com a louça. Sou muito paparicada por eles.

Etienne, amigo dos dois, oferece-nos um jantar. Como ele cozinha bem, como esses homens suíços cozinham bem! Ganho dele um livro do Girardet. Pierre-Alain é nomeado Chef Pâtissier, o Suíço é o Saucier e eu… bem, eu sou Dadivosa, La Jolie Cuisinière.

Dadivosa toma leite de vaca suíça, creme de leite de vaca suíça, queijo de leite de vaca suíça, iogurte de leite de vaca suíça. Que me lembre, só um pedacinho de chocolate de leite de vaca suíça, que não sou lá muito fã de doce. Vamos os dois dançar com as uvas na festa da colheita. Vamos os três tomar banho nas águas borbulhantes de Lavey no meio da semana, somos os mais jovens do lugar. Temos ataques de bobeira, lagarteamos ao sol fraquinho, deixamos a água correr com força pela espinha, boiamos com os ouvidos submersos ouvindo sons de baleias, que bom que trouxe o biquíni. Voltamos com sono. Estamos sempre em dupla ou em trio e, ao contrário dos meus planos, apesar de gostar, não viajo sozinha por um só momento e é melhor assim, tenho certeza.

Tinha planejado dar um pulo na Espanha, precisava resolver umas coisas, fechar conta em banco, matar saudades. Vamos os dois, jantamos no que pra mim é o melhor restaurante de Madri. Tanto fazemos que convencemos o terceiro a vir também. Encontramos mais gente pelo caminho, vamos de tapas e de copas, dançamos, compro muitos livros de comida, os dois me ajudam a levar todo aquele peso até o hotel antes de continuarmos a movida. Compro outra mala. Arrasto Pierre-Alain para o supermercado – como se precisasse – e voltamos carregados de sacolas cheias de latas e vidros mil, de azeite a bochecha de bacalhau, para o espanto e gozação eterna do Saucier. Trocamos presentes, recuerdos engraçadinhos de nossa crescente coleção de piadas internas. Encho a segunda mala, os meninos carregam o trambolho escada abaixo e Calle Fuencarral afora até chegarmos ao táxi.

Também tinha planos de passar uns dias em Paris, minha irmã estava por lá. Mas vamos os dois pra Fribourg. Sinto-me em casa, conheço a família do Suíço, tenho saudades da minha. O pai dele faz o melhor steak tartar que já comi na vida, e não foram poucos. A mãe dele, linda, esguia, doce, ao saber que cozinho me leva para ver os seus livros, relíquias comentadas com letra bonita em caneta azul. Tinha guardado uns recortes de revista pra me mostrar também e me passa sua receita secreta para Moutarde de Bénichon.

O irmão mais novo, se cozinha, não sei. O outro irmão é especialista em jardins, sabe tudo de plantas, tem programa na TV e no rádio, escreve lindo, o livro dele tá para sair. Casado com uma francesa que, adivinhem, cozinha muito bem. Repito-me. Colho morangos e tomates no quintal. Ao chegarmos em casa, a família dele liga. Querem saber ‘o que somos’ um do outro. Rimos muito.

Visitamos Gruyère e Bern. Vamos ao museu Giger, tiro fotos com réplicas do Alien, compro especiarias com embalagens escritas em alemão, tiro foto dos meus pés na chuva, tiro fotos de corações de chocolate, tiro fotos dos nossos pés no trem. Chega o frio, dormimos em Fribourg, visitamos um museu de marionetes, voltamos no dia seguinte.

Vejo nascer naqueles dias essa carinha que estampa o site, a marca da Dadivosa que eu tinha encomendado antes de chegar lá. Acompanho o processo meio de perto, meio de longe. O Saucier pensa numas coisas, eu em outras outras e, por fim, ele apresenta a ideia que vingou. Amplia um pontinho vermelho na tela: “Olha, reconhece? É a tua boca“. Vem o cabelo, a franja de lado, um olho fechado. Ele me vê assim, eu me reconheço ali. Pâtissier dá uns pitacos, dou outros et voilà.

Da tristeza não sobra nada. Despedimo-nos entre abraços infinitos, olhos marejados (dos três) e um beicinho de choro (meu). Um ano depois, dou-me conta de que havia contado muito pouco da viagem aqui (apesar dessa tripa de texto, sigo sem contar boa parte) e que talvez o Leitor e a Leitora achem que andei novamente em terras helvéticas. Não andei, mas quase. É que venho revivendo isso tudo nos últimos dias, pois dessa vez é um pedaço da Suíça que vem até mim. Seremos dois outra vez. Conversaremos de bobagens e profundezas, trocaremos confissões e confidências, riremos muito, pode ser que choremos em algum momento, sairemos um pouco, cozinharemos todo dia e Pierre-Alain e Léonard vão estar com a gente, pois estou pensando em colocar um brega de raiz e dançarmos todos em suas respectivas salas, fazendo balbúrdia pelo Skype. Mas vai ser no meio da tarde, pra evitar encrenca com meus vizinhos, que de suíços não têm nada.

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Desgarrados

Tínhamos 15 e 16. Casamento da irmã mais velha dele, família por todo o lado. Vó Meloca esqueceu uma calçola-barraca-dupla no quarto, o tio pendurou no lustre, a véia procurando a casa toda sem querer dizer o quê e a gente rindo a tarde inteira. Deitamos no tapete da sala, cabeça com cabeça, enquanto todos corriam pra lá e pra cá entre vestidos e ternos e cheiro de laquê e sapatos novos.

- A gente devia era ficar solteiro pra sempre.

- É, e viajar o mundo.

- Isso, viajar o mundo!

- Então combinado, nunca vamos nos casar.

- Não vamos contribuir com a perpetuação dessa espécie. E seremos os tios preferidos: engraçados, divertidos e impertinentes, daqueles que ensinam todas as porcarias pros sobrinhos.

Ganhei mundo antes dele. Voltei. Visitamo-nos e saímos algumas vezes, rindo muito, falando de nós mesmos quase sem palavras. Não precisava, nos conhecíamos bem demais. Perdi uns quilos. Ele, uns cabelos.

Apaixonei-me por aquele francês, passei um tempo morando com ele. ‘Traidora’, disse, não lembro se por e-mail, telefone ou parentes. Ganhei mais mundo ainda. Um tempo depois ele ganhou mundo e apaixonou-se também. Por uma chata, ainda bem que acabou.

Ele casou com outra, eu casei com outro, não lembro em qual ordem. E nosso pacto foi pro beleléu, as famílias faziam questão de lembrar disso a cada encontro bissexto.

Ele teve uma filha. Eu, uma cachorra. E sabíamos um do outro pelos parentes. Até que eu descasei, ele descasou, não lembro em qual ordem. E rimos, nós dois e as famílias, da nossa profecia autorrealizadora. Tínhamos virado titios e solteiros, os dois.

Amanhã ele vem aqui em casa e vamos rir com e um do outro, como sempre, como se tivéssemos nos visto ontem. Ainda não sei o que vou cozinhar, só sei que vai ficar bom. A irmã mais nova dele vem também, com o marido. Serão nossas duas testemunhas do Encontro Quase Anual dos Primos Desgarrados.

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