04.13.08
Publicado em Receitas, Doces, Livros, Recordar é Viver às 7:25 pm pela Dadivosa

De origem alemã, esse bolo-pão com cobertura doce é muito apreciado no Sul do Brasil, onde recebe a alcunha de cuca (ao que tudo indica, uma corruptela de ‘kuchen’).
De origem alemã também era a Vó Nair, exímia fazedora de variadas e aromáticas cucas atraidoras de visitas para o café no meio da tarde. Às vezes ela me deixava descascar, picar e passar em açúcar e canela as bananas da cobertura enquanto preparava a massa úmida. Por maior que fosse a quantidade de tabuleiros a preencher, por mais frenética que fosse a lida de preparar a massa, a farofa, o creme de coco com gemas e o café, a vó não se abalava.
A mansidão de seu andar já cansadinho persistia também na voz e no linguajar. Se o leite transbordasse, sujando todo o fogão enquanto ela tinha as duas mãos na massa (e eu era ainda muito pequena para que ela deixasse chegar perto do fogo), o máximo do mau-humor que deixava escapar era um estalar de língua e um ‘ai, o leite!’. Palavrões e xingamentos não faziam parte de seu falar.
Mas quando a cuca ficava pronta… ah, quando a cuca ficava pronta e o cheirinho de banana com canela, massa de pão fresquinha e coco queimado invadiam e alegravam o mundo ao redor, a vó ficava malina. Nessa hora, costumava proferir uma frase célebre, mezzo-trocadilho-mezzo-piada-interna. Empostava um sotaque alemão que não tinha, punha um olhar maroto e, usando o nome de algum filho, falava:
“Marquinho, não deixa o cuca aí!”
Quando a vó não estava ou não fazia cuca, a gente saía para comprar. Mas tinha de ser cuca verdadeira, não valia ser de padaria. De modo que, logo após o almoço, fazíamos pequenas viagens em busca de alguma ’Cuca da Alemoa’, num raio de 100 a 200 quilômetros de curvilínias estradas de terra batida. E ao chegar lá, após escolher uns quatro ou cinco pedaços de sabores diferentes, quando a moça loira de bochechas rosadas já havia desaparecido para dentro da casa estilo enxaimel, invariavelmente alguém a chamava de volta: “Moça, ô moça… não deixa o cuca aí!” E a moça ficava vermelha e ria um riso gostoso com a cumplicidade de quem também devia ouvir a mesma brincadeira desde sempre.
Ontem me agarrou uma saudade e fiz duas cucas: a primeira foi de ricota e mel (ensinada pela Carla Pernambuco em seu livro Carlota: Balaio de Sabores), depois repeti a massa para essa aí da foto, de uva preta. A receita, comentada, testada e aprovada, vem para a semana.
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12.03.07
Publicado em Salgados, Recordar é Viver às 11:08 pm pela Dadivosa

Morava numa cidade onde havia, em quase todo bairro, um indiano em cada esquina, indiano servindo para designar desde lojinhas de conveniência que vendiam leite com prazo de validade vencido, até portinhas quase suspeitas que entregavam fumegantes e aromáticas refeições em embalagens de alumínio, passando pelos movimentados restaurantes de paredes vermelhas com garçons de reluzentes cabelos negros e profundos olhos amendoados.
Variados foram os momentos felizes que tiveram o aroma das especiarias indianas como pano de fundo. No indiano da esquina dava um pulo naquelas horas em que me agarrava a vontade de bater um bolinho de cenoura e, no meio da função, descobria estar sem chocolate para a cobertura, pois o mercado mais próximo era longe demais para o adiantado da hora ou para o frio que fazia.
Era para o indiano da esquina que ligávamos quando não havia energia ou tempo para preparar o jantar, já que batatas fritas, sanduíches e pizzas de massa grossa não nos apeteciam, já havíamos recorrido ao chinês da esquina há poucas semanas e se era para comer algo em frente à TV, então que fosse gostoso, colorido, repleto de vegetais, com diversão para a boca e acalanto para o coração.
Foi num restaurante de paredes vermelhas e garçons de cabelo lustroso e olhos amendoados que, diante de um copo de lassi e em meio às palavras desconexas de uma frase desastrada, ensaiada e disfarçadamente corriqueira, ouvi um tímido e apaixonado eu te amo num idioma que não era o meu.
A paixão foi um pouco mais intensa e durou um tanto mais do que o ardido daquele frango ao curry que me arrebatou as pupilas gustativas e cujo fogaréu nem o lassi deu conta de abrandar. Vão-se os amores, ficam os sabores, já disse d’outra feita. E meu caso de amor com as especiarias indianas tem hoje mais anos de vida do que qualquer namoro ou casamento, daqui e d’alhures.
Pode ser pela conveniência de estar sempre logo ali, pode até bem ser pela alegria de receber à porta a pequena pilha de quentinhas variadas quando o estômago ronca e não há forças para ir ao fogão. Suspeito, no entanto, que foi a lembrança daquela noite no restaurante, da tão singela e ao mesmo tempo forte declaração de amor, da simpatia e cumplicidade dos garçons do cabelos pretos, do coração que pulava pela boca dormente de pimenta, do lassi geladinho a descer pela garganta, do sorriso bobo e das lágrimas que escapavam dos olhos de nós dois, que o curry ficou pra sempre marcado em minha memória gustativo-afetiva como ingrediente aconchegante, perfeito para comidas de alma.
Nostalgia é falta de memória, e enquanto revivo o momento para encontrar lá no fundo do baú as palavras que possam descrever a primeira vez que experimentei um curry típico, são mais nítidas as paredes, os barulhos, o tilintar dos talheres, os aromas e a ardência da língua do que a expressão facial, as palavras, a data, o bairro, a voz e o sotaque exato que me proporcionaram aquele momento tão caro. Se é verdade que o sapateiro olha pro sapato, a cozinheira em mim fez questão de lembrar com fidelidade a sensação do tempero, a despeito do que lhe disse o rapaz por quem estava enamorada.
O curry é feito homem inebriante e exótico, tinhoso e doce, gentil e cheiroso, forte e adorável, um ciumento incorrigível. Não dá bola pra chimango, acachapa a concorrência e faz soressair seus encantos diante de todo e qualquer outro ser vivente. Reina em minha despensa desde então, até pouco tempo somente na versão em pó. Foi uma rainha que me fez lembrar que tinha dele outra versão a testar.
Em formato de pasta, empreguei-o nesta receita simples e rápida para reconfortar-me, ao mesmo tempo com exuberância e leveza, às dez e tanto da noite de uma segunda-feira.
Ingredientes:
- 1 colher de sopa de azeite ou óleo
- 1 peito de frango em cubos
- 1/2 cebola picada
- 1 cenoura grande em rodelas finas
- 1 colher de sopa bem cheia de curry em pasta
- 200 ml de leite de coco
- sal a gosto
Como fazer:
- Leve a manteiga com azeite ao fogo até aquecer bem. Frite nela o frango até dourar.
- Acrescente a cebola e a cenoura, refogue até aquecer, misture a pasta de curry e acrescente meia xícara de água quente para dissolver. Ele vai tomar corpo e engrossar o molho lindamente.
- Quando a cenoura estiver macia, porém ainda al dente, adicione o leite de coco.
- Deixe ferver até engrossar como mais goste, prove, corrija o sal e sirva com algum arroz branco aromático (usei arroz de jasmim, polvilhei com gergelim preto). Ao comer, aproveite para relembrar o momentos simples e felizes do passado, depois agradeça pelo privilégio do presente e finalize imaginando as alegrias da semana vindoura.
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05.24.07
Publicado em Generalidades, Recordar é Viver às 3:25 pm pela Dadivosa
Babbo toca violão muito bem. Autodidata e eclético até não mais poder, vai de pérolas do cancioneiro popular ao rock inglês, passando pelas melodias francesas dos anos dourados, pela bossa nova e pela Arca de Noé de Vinícius.
Embora eu tivesse o disco, preferia as interpretações do Babbo para o pato pateta, o leão-leão-leão-és-o-rei-da-criação…
Datam dessa mesma época minhas primeiras experiências na cozinha da vó Dinah e nas performances musicais.
Com quatro anos, a vó me deixava brincar com a massa de macarrão e ser sua sous-chef. E com quatro ou cinco anos foi registrado em fita cassete meu primeiro dueto com o Babbo. A música também era de Vinícius, em parceria com Tom Jobim, mas não falava de porquinhos que iam pro céu, nem de casas muito engraçadas.
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02.23.07
Publicado em Generalidades, Recordar é Viver às 10:24 am pela Dadivosa

“Coitada, coitadinha
Da galinha d’Angola
Não anda ultimamente
Regulando da bola
Come tanto até ter dor de barriga.
Ela é uma bagunceira de uma figa!“
Às vezes me identifico bastante com ela…
(veja a letra completa aqui)
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02.06.07
Publicado em Salgados, Recordar é Viver às 8:43 am pela Dadivosa

Tenho a impressão de que quase tudo o que provei pode ser considerado comida de memória. Junto com os cheiros, os sons e os sentimentos, o gosto das coisas também imprime marcas na lembrança das pessoas. Podem ser líricas ou tétricas, felizes ou taciturnas, saborosas ou repugnantes, mas lá estão se você souber procurar com o interesse afiado e o coração descerrado.
Por conta do estado de superlotação culinário-afetiva em que se encontra meu sótão, tive imensa dificuldade em escolher uma receita que estivesse à altura do evento de Comida de Memória, tão gentilmente organizado pela Valentina.
Decidi falar daquilo que, para mim, é o melhor tipo de reaproveitamento culinário, vencendo até o atualmente tão incensado (e delicioso) bolinho de arroz: a sopinha de feijão.
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01.10.07
Publicado em Salgados, Recordar é Viver às 5:35 am pela Dadivosa

O Vô Juju, pai do pai, criava uns passarinhos em casa. Manons, bicos-de-lacre, canários-do-reino, curiós, acho. Lembro-me muito bem da lata marrom de pomada que ele passava nas patinhas deles, do anel de marcação que punha com cuidado nos “tornozelos” e da papinha que fazia para dar na boca dos filhotes (ou dos doentes, não sei ao certo).
A mesma paciência que tinha com os passarinhos, tinha com a madeira. Eu devia ter uns sete, oito anos quando ele fez aqueles mágicos carrinhos de boneca para presentear a todas as netas. A Vó nair costurou o pano da cadeirinha, em estampas miúdas diferentes, retiráveis e laváveis. E o carrinho, pintado de branco e todinho feito em madeira torneada, fazia com que eu me sentisse toda adulta nos incontáveis passeios com a boneca-bebê pela rua.
Outro afago do vô que me vem com freqüência ao coração é a carne de siri. Sentado conosco no degrau da porta da cozinha na casa da praia ele passava horas a destrinchar cascos e patinhas em busca dos nacos mais deliciosos de pura carne para nos dar na boca. Nesses momentos, éramos como os passarinhos dele, de certa forma. Pequeninos e famintos!
Por conta desse mimo, nunca aprendi direito a tirar o siri do casco. Fiquei com preguiça e, nas vezes que tentei não tinha o mesmo gosto, acabava metendo os dentes num pedaço de cartilagem ou da casca.
Pretendo aprender, sim, para poder mimar meu espetáculo de sobrinho e as outras crianças que, se tudo der certo, hão de vir por aí. Talvez no próximo verão com o Tio Renato, que faz uma sopa de siri inesquecível de gostosa.
Numa compra por impulso, resolvi testar um pacote de carne de siri “pré-destrinchada”. Fiz a casquinha da foto e não gostei.
O Leitor e a Leitora devem desconsiderar minha opinião, totalmente enviesada por conta da altíssima expectativa e da quantidade de memória afetiva embarcada. Descontado isso, acho que estava gostoso sim. Comi duas, até.
Ingredientes:
(para umas 12 casquinhas, mais ou menos)
- 2 colheres de sopa de azeite
- 1/2 cebola picadinha
- 1 colher de sopa de pimentão vermelho picadinho
- 1 colher de sopa de pimentão amarelo picadinho
- 1 colher de sopa de molho de pimenta pronto (ou a quantidade que preferir)
- 4 tomates sem pele picadinhos
- 200 g de carne de siri
- 4 colheres de sopa de leite de coco
- sal o quanto baste
- cheiro verde picado a gosto
- queijo ralado para polvilhar
- conchas de vieiras (como recipientes)
- sal grosso para equilibrar as conchinhas
Como fazer:
- Ligue o forno para preaquecer.
- Refogue a cebola e os pimentões no azeite. Quando estiverem murchinhos, adicione a pimenta, um pouco de sal e os tomates.
- Apure o molho por uns cinco, seis minutos e acrescente a carne de siri. Quando ferver, adicione um pouco de água (se precisar) e o leite de coco.
- Mexa bem, adicione cheiro verde e desligue o fogo.
- Num tabuleiro, faça um caminho com o sal grosso, em altura suficiente para apoiar as conchas. Recheie-as com o refogado (não precisa untar), acomode-as sobre a cama de sal grosso e leve-as ao forno para gratinar.
- Sirva sobre montinhos de sal grosso ou uma colherada de purê de batata.
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01.07.07
Publicado em Doces, Recordar é Viver às 7:08 pm pela Dadivosa

Bati este bolinho com a mãe durante minhas semiférias, numa tarde de muito calor. Trata-se de um clássico que não pode faltar na praia desde que me entendo por gente, pois a Vó sempre o fazia à tarde, para comermos quando chegávamos com aquela fome acumulada de horas debaixo do sol e dentro do mar.
Tentarei detalhar ao máximo o processo, os ingredientes, temperaturas, seqüência e truques de forma que o Leitor e a Leitora possam reproduzir em seus próprios lares esta receita de deleitamento familiar.
Faço saber, todavia, que as diretivas que torno públicas a partir de agora de nada adiantarão se o bolinho for batido numa batedeira elétrica ou se o(a) cozinheira encontrar-se em estado de ranhetice ou alquebramento.
- Caso seja acometido(a) por uma preguiça extrema, deixe para fazer o bolo outro dia. No meu entendimento, a falta de vontade para bater o clássico Bolo de Laranja da Vó Nair é um indício de que a pessoa não merece comê-lo. Pelo menos não nesse dia, não nesse estado de espírito. Aguarde um dia feliz para melhor saboreá-lo. (Não pretendo aqui fazer sermão contra aparelhos eletrônicos que muito facilitam nossa vida, até porque costumo utilizá-los com freqüência. Nem posso dizer que o bolo não vingará se for utilizado um suco industrializado, por exemplo. Mas posso garantir que o resultado não será o mesmo.)E se você realmente estiver com ímpetos de bater um bolinho, porque não seguir as instruções de fio a pavio? O prazer da confecção – e da degustação, certamente – será muito maior. E se você realmente estiver com ímpetos de bater um bolinho, porque não seguir as instruções ? O prazer da confecção – e da degustação, certamente – será muito maior.
- Tampouco faça pouco caso da qualidade dos ingredientes. Prefira ovos muito frescos, manteiga e farinha de boa qualidade e laranjas-pêra de casca fina e brilhante, pois são as mais suculentas.
- As condições lhe serão mais favoráveis se puder dispor de uma pessoa querida ao seu lado durante a execução, à guisa de companhia para bater as claras e/ou um bom papo.
Ingredientes:
- 100 g de manteiga sem sal (pode ser margarina, a Vó usava uma ou outra sem problemas)
- 2 xícaras de açúcar
- 4 ovos
- 3 xícaras de farinha de trigo
- 1 xícara de suco de laranja (usam-se umas três ou quatro)
- 3 colheres de chá bem cheias de fermento em pó
Para a calda:
- 1 xícara mal cheia de suco de laranja
- 3 colheres de sopa de açúcar
Como fazer:
- Conforme dito anteriormente, a execução, embora muito simples, precisa ser seguida à risca. Caso tenha um momento de rebeldia, peço-lhe que se exima de chamar de Bolo de Laranja da Vó Nair sua criação que poderá ter ficado deliciosa, mas, insisto, não será a mesma coisa.
- Isso posto, vamos às orientações. A primeira providência é tirar a manteiga (e quaisquer outros ingredientes) da geladeira. Isso porque, para a massa vingar e seus braços não fraquejarem, tudo precisa estar em temperatura ambiente.
- Ligue o forno para preaquecer.
- Unte uma forma grande de buraco no meio (ou várias pequenas, ou um tabuleiro) com margarina e polvilhe com farinha de trigo.
- Caso seus ingredientes já estejam em temperatura ambiente, pode separá-los. Sim, a Vó Nair, cujas receitas sempre davam certo, não se furtava de uma pequena dose de organização.
- Comece peneirando a farinha de trigo. Para facilitar o trabalho, despeje a quantidade certa num recipiente e, com a colher, vá despejando aos poucos numa peneira sobre uma outra vasilha.
- Faça o mesmo com o açúcar. Além de deixar a massa mais fofa esse procedimento simples e rápido facilita a tarefa de bater à mão.
- Separe as claras das gemas. As claras devem ser deitadas em recipiente muito limpo, diria imaculado. Deixe-as ali.
- Agora você vai espremer o sumo das laranjas. É importante deixar para a última hora sim, pois essa fruta oxida rapidamente e o gosto do bolo pode ser prejudicado caso o líquido tenha sido feito, digamos, há mais de 15 minutos.
A Vó fazia assim: cortava três ou quatro laranjas ao meio e usava um espremedor daqueles de plástico para retirar o suco. Na falta de um, apenas apertava as metades com as mãos. Seja qual for o método manual escolhido, é importante coar para dentro de uma xícara para garantir que a quantidade correta foi atingida.
- Sua manteiga, em temperatura ambiente, deve estar com a consistência de pomada. Adicione o açúcar e, com a colher de pau, bata vigorosamente. Os dois ingredientes formarão primeiramente uma espécie de farofa, depois começarão a se amalgamar. O próximo estágio é um creme fofo e claro. Só então você poderá parar de bater. NO meu caso, foi coisa de menos de cinco minutos.
- Adicione as gemas e bata mais um pouco até incorporá-las bem.
- Junte a farinha, dando uma leve mexida com a colher. A massa ficará dura e não vai ligar ainda. Não insista em querer homogeneizar, nem se irrite com isso. Passe para o próximo item.
- Despeje aquele suco vistoso (faça um pouco mais e beberique você também, se quiser) na farinha. Agora sim! Você verá que, ao bater com a colher de pau, algo mais parecido com massa de bolo começará a se formar. Certifique-se de que sua mistura esteja livre de grumos e pelotinhas. Reserve.
- Se tiver companhia, a esta altura o(a) ajudante já deverá ter batido as claras em neve, usando um bom batedor de arame. Caso esteja só, pode abandonar a massa por uns instantes e entregar-se à mágica de afofar as claras, batendo-as em castelo.
- Agrada-me a expressão inglesa que indica a adição de claras em neve: fold in. Pois o movimento de incorporação dessa nuvem de claras é uma espécie de dobrar. Com o batedor de arame ou colher de pau e muito cuidado, puxe um pouco de massa do fundo e traga para cima. Repita por toda a volta da tigela, quantas vezes forem necessárias para que a massa e as claras virem uma coisa só: um creme fofo com leve aroma de laranja.
- Adicione o fermento e mexa com cuidado.
- Deite a massa na forma untada e enfarinhada e leve ao forno. O tempo de cocção dependerá muito de casa para casa. Recomendo, portanto, uma leve vigília. Pode aproveitar para lavar os utensílios, passar um café, conversar mais um pouco. Estará pronto quando, ao enfiar um palito bem no meio da massa, ele sair limpo.
- Espere o bolinho arrefecer um pouco, o suficiente para conseguir desenformar sem a ajuda de luvas ou panos. Com o garfo, faça alguns furos na superfície.
- Hora de preparar a calda: esprema mais algumas laranjas, misture com o açúcar e reserve.
- Não foram poucas as vezes em que a Vó me deixou aspergir a calda no bolo ainda quente. Digo aspergir mesmo, pois não é para verter, derramar ou despejar. A manobra ideal consiste em molhar delicadamente a superfície com o auxílio de uma colher de sopa. Assim mesmo, às colheradas, com vagar e atenção, para que a massa fofa leve o tempo que desejar para absorver a calda. Você verá que, quanto mais paciência tiver nessa hora, mais rápido o bolo conseguirá sorver todo o líquido.
- Esse bolo também deve ficar bom no dia seguinte, mas eu, particularmente, nunca o vi durar mais do que alguns poucos minutos.
P.S.: Sr. Dadivoso está em viagem de trabalho. E hoje, num chuvoso fim de tarde, cheias de saudade, perrita e eu fizemos a receita usando essa mini-forma de coração só para lembrá-lo de nosso gigantesco amor.
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12.22.06
Publicado em Generalidades, Liberte sua Dadivosa, Recordar é Viver às 5:02 am pela Dadivosa
Cresci comendo muita banana, de tudo quanto era jeito: pura, amassadinha, com açúcar e canela, na massa de pastel, frita, no bolinho, na cuca, na torta, em sobremesa, com arroz e feijão, no sanduíche, assada, na farofa, na vitamina, cozida, na mamadeira…
Hoje me dou conta de que ela participou de minha vida, companheira e sempre disponível desde a mais tenra idade. Faz parte da cultura culinária da família e, para mim, guarda uma associação muito forte com a Vó Nair.
Alta e magra, ela tinha costumes frugais que punham em cólicas sua irmã. Tia Noêmia, que até hoje mora no interior e vai pra roça se precisar, não se conformava com aquele apetite de passarinho e não desistia nunca.
- Vai, Nááána! Mais uma xicrinha de café-com-leite…uma fatia de pão de cará com nata… mais um prato de canja… só um pedacinho de carne assada…
Quando não lograva seu intento, apelava.Certa de que a convidada não desperdiçaria comida, punha logo no prato da vó um pedação de frango, uma bisteca… logo pra ela, que não era muito de carnes.
A vó trocava qualquer bife suculento por uma banana picadinha na comida. Se tivesse arroz e feijão, então, era o manjar dos deuses!
Houve uma época em que a carne era artigo escasso no mercado. Foi lá pro final nos anos 80? Não sei bem ao certo, era pequena e não acompanhava a economia. Só sei das filas em supermercados, dos limites para se comprar determinados produtos, das pessoas falando do ágio e de uma saída gostosa e original que a mãe teve para driblar essa amofinação.
Na falta de carne e de outros tantos produtos dos quais não me lembro, ela não se fez de rogada. Num refratário, deitou arroz branquinho, pôs uma generosa camada bananas fritas, cobriu com molho feito de creme de leite, polvilhou queijo ralado, levou ao forno e pronto!
Quem não esqueceria do problema diante de uma refeição tão alegre e saborosa? Fato é que não me lembro de ter sentido falta nenhuma de carne naquelas épocas de inflação galopante e racionamento de comida. Suspeito que a mãe, que sempre teve pela sogra um amor de filha, inspirou-se na Vó Nair para fazer esse arrozinho de forno.
Não me lembro se tinha bananeira naquele quintal estreito e longo, que chegava até onde a gente não tinha coragem de ir. Mas não faltavam dúzias e dúzias da fruta na casa da vó. Não é à toa que a minha sobremesa preferida é a que ela fazia com creminho de gemas, banana frita, um toque de canela e suspiro de claras.
O sabor marcou tanto que me falta coragem para tentar a receita em casa. Mas pretendo por meus dotes à prova um dia, se as lágrimas prometerem não desonerar o creme.
Na casa da Vó Nair tinha também o doce de banana, moreninho e pedaçudo, que a gente comia com pão de milho e nata.
E tinha a cuca, cuja massa, daquelas de pão, era feita em alguidar de barro. Adorava quando a vó pedia para eu ajudar. Minha missão era descascar as bananas, cortá-las ao meio no sentido do comprimento, com uma faca cega (porque a vó sabia de meu atabalhoamento) e deixá-las pegar gosto numa bacia com açúcar e canela.
Poucos anos mais tarde, fui promovida. Aproveitando o restinho da massa que grudava na vasilha, eu já podia adicionar açúcar, manteiga, canela e mais um pouquinho de trigo para, maravilhada e com muito senso de responsabilidade culinária, transformar tudo aquilo na farofa doce que cobria a cuca.
Na linha de comidas rápidas uma criação familiar que muito me agrada é o McMacaco. A receita original leva um pão francês e uma banana. Faz-se um buraquinho no pão (pode-se ou não tirar o miolo, a gosto do freguês) e ali se coloca a banana. É pra comer assim, frio mesmo, com um cafezinho preto.
Minha variação predileta tem duas fatias de pão de sanduíche recheadas com banana, canela e uma fatia de queijo branco ou de coalho, prensadas naquelas engenhocas de se fazer misto quente na boca do fogão. Inúmeras foram as noites em que cheguei em casa tarde, exausta da faculdade e atendi às reivindicações do estômago roncante com um belo McMacaco.
E no quesito calorias-colesterol-açúcar-por-demais, a estrela é o Ba-mu, pastel recheado com banana e Mumu, depois passado em açúcar e canela. Mumu é o doce de leite que ganhou o apelido por causa do produto, num daqueles casos em que a marca consegue se tornar o nome da coisa. Se a vista não me pisca, o Ba-mu foi batizado pela tia Rosane.
É por tudo isso que, ao chegar em casa cansada e cheia de saudade, aqueci o coração com uma vitamina de banana para reviver tardes de brincadeira com os irmãos, almoços de domingo, dias de festa e dias comuns, descobertas, amizades, carinho de pai-mãe-tio-tia-vô-e-vó.
A Nina Horta cunhou uma expressão belíssima para descrever esses alimentos que nos remetem à sensação de aconchego: comida da alma. Para mim, a banana é mais até do que uma comida da alma… é um amor que dá em penca!
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12.21.06
Publicado em Liberte sua Dadivosa, Recordar é Viver às 11:26 am pela Dadivosa

O tio Ricardo morou lá em casa por um tempo e de tão próximo virou uma espécie de irmão mais velho, depois amigo íntimo. Não são todas as pessoas que têm o privilégio de ter um tio como amigo de verdade, arrisco dizer.
Surpreende-me que seja uma coisa recíproca, pois ele precisou de uma paciência de Jó para nos aturar, quatro crionças de zero a cinco anos, até que virássemos “gente”. Só mesmo ele para agüentar as pestinhas e ainda fazer graça.
Ao chegar em casa, cumprimentava-nos sempre com sua saudação preferida:
- Oooooi, estropícios!
Ao que nós três respondíamos (porque a Yuli ainda era muito bebê):
- Ooooooi, tio Ricaaaarrrrdooo!
Sabíamos o que significava estropício, mas entre nós era um apelido carinhoso.
O tio tem o dom de usar o elemento-surpresa, de partir do inesperado para provocar nas pessoas suas reações mais profundas e sinceras.
Como no dia em que ele chegou para a Zula, que cuidava de nós quatro:
- Cadê a jararaca?
E ela, prontamente:
- Tá na sala!
Quando a Zula percebeu que tinha chamado de jararaca a minha mãe, já era tarde demais para consertar a gafe. O episódio virou uma daquelas anedotas familiares que não nos cansamos de repetir, provocando gargalhadas contagiantes.
O tio Ricardo contribuiu muito para a formação de meus interesses em geral.
Do lado dos gostos, posso citar essa paixão pelas coisas de antigamente, alguns tipos de música, a literatura, a redação e o humor. Para esse último foi fundamental a sua coleção de revistas MAD, que li inteira dos cinco aos seis anos, antes mesmo de ingressar na primeira série primária.
Adorava uma seção intitulada “O lado irônico de…”, cujas tiradas de humor negro até hoje custo a crer que podia compreender em tão tenra idade. Mas me lembro muito bem que eu lia. E ria muito. E gostava. E lia de novo.
Do lado dos desafetos, não consigo lembrar de nada além da rainha malvada das frutas, aquela verdadeira propaganda enganosa que é bela e perfumada por fora, mas langanhenta e fibrosa por dentro: a manga.
Cresci vendo a mãe e o tio Ricardo fazerem caretas medonhas ao ouvir esse nome. Cheguei a prová-la algumas vezes, tentando discordar deles e ser do contra, mas não houve jeito.
Éramos Os Três Mosqueteiros Contra a Fruta do Mal.
Dois anos atrás, ao passar o Reveillon na praia com meus pais, agarrou-me um ataque de pelanca quando vi pedações horrendos de manga no meio da salada.
E a mãe, com a maior naturalidade e cara-de-pau, falou toda meigosa:
- Filha, é uma delícia! Manga é uma fruta tão refrescante…
Foi a primeira a ser abduzida e ter a memória apagada, pois ela jura de pé junto que sempre gostou de manga desde pequenininha.
Ano passado, outro golpe. Ao queixar-me para o tio Ricardo do desgosto que tive com a mãe, ele solta a mesma frase, com olhos de vontade:
- Mas Fer, é uma delícia! Manga é uma fruta tão refrescante…
Ele também, abduzido e lobotomizado, havia passado por alguma espécie de lavagem cerebral frutífero-alienante. Tsc tsc tsc…que decepção!
Maaaassssss….. como a língua é o chicote do rabo, no dia 18 de dezembro de 2006 chegou a minha hora.
Ao descascar e cortar uma manga pela primeira vez na vida a fim de servir uma frutinha ao Sr. Dadivoso como sobremesa, fui atraída sobremaneira por seu perfume inebriante.
Não resisti e tasquei um pedacinho. E outro. E comi metade da manga, incrédula e embriagada com aquela mistura tão perfeita de aroma, textura, cor e sabor.
Sucumbi com vontade às propriedades organolépticas da manga e teria comido duas inteiras, caso houvesse.
Sr. Dadivoso, que por sua vez sempre teve de aturar as minhas caretas medonhas e xingamentos direcionados ao fruto da mangueira, fez-me ligar para minha mãe, a quem chama de Dona Sogra (ele pretende patentear a tratativa) para contar a feita.
- Mãe, hoje eu comi manga e gostei.
- É mesmo, filha?
- Mãe, é uma delícia! Manga é uma fruta tão refrescante…
E seguiu-se um diálogo, nunca dantes imaginado entre essa mãe e essa filha, que girava em torno das maravilhas da fruta irresistível.
Isso posto, fica registrado que aumenta meu escopo de testes culinários e abre-se “todo um mundo” de possibilidades de utilização: no risoto, na tapioca, com curry, com iogurte, em chutneys, geléias, bolinho…
Os cem anos que ainda quero viver perigam não dar para a quantidade de novas receitas que intento pôr à prova, mas certamente tentarei muitas delas até ficar bem velhinha.
Reduz-se, na mesma proporção, minha lista de alimentos-inimigos, na qual o coentro foi alçado ao posto de rei. A ver até quando, não é mesmo?
Pois confesso que desertei do esquadrão anti-manga e não sei por quanto tempo mais consigo garantir lealdade aos exércitos de combate ao coentro-fétido, à jaca-traventa e ao jiló-da-amargura.
Espero também um dia superar os traumas de carne de carneiro e de caqui. A ver, leitor e leitora queridos, a ver!
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12.11.06
Publicado em Salgados, Recordar é Viver às 1:19 pm pela Dadivosa

Outro dia contei à leitora e ao leitor o quanto os homens da família são dadivosos, cada um a sua maneira.
As mulheres também o são, salvo que em maior número e grau, motivo pelo qual necessitarei de muitos relatos para dar conta de falar de todas, ainda que superficialmente.
Fascina-me também a capacidade que corre na família para dar nomes às coisas, colocando apelidos que sempre combinam e “pegam”.
Existe uma receita muito apreciada na casa de mamãe que, se a vista não me pisca, foi batizada por um representante masculino do clã dos Dadivosos.
O nome, bastante conhecido da família, agora estará nos domínios da rede mundial de computadores para ser reproduzido em outros lares também: bataturgente.
Assim mesmo, tudo junto, falando rapidinho: bataturgente!
A autoria é nebulosa, não sei precisar se o termo foi cunhado pelo tio Ricardo ou pelo Babbo. Fato é que harmoniza com a rapidez do preparo e tem um quê de “ai que fome, preciso de alguma coisa rápida e gostosa para deixar a barriga quentinha”.
Tampouco a quantidade de ingredientes é muito precisa. A personalidade dessa batatinha reside num toque final do preparo, sendo importante usar uma panela com tampa para o feito.
Ingredientes:
- batatas descascadas e cortadas em cubos
- sal o quanto baste para cozinhar as batatas
- água o quanto baste para cozinhar as batatas
- manteiga a gosto
- salsa picadinha
Como fazer:
- Cozinhe as batatas em água e sal, depois escorra-as rapidamente.
- Devolva-as para a panela ainda quentes (que deve ter uma tampa, lembre-se), com o fogo desligado.
- Coloque a manteiga (mais um menos uma colherada para cada 4 batatas pequenas ou 2 médias) e a salsa sobre as batatas.
- E o pulo do gato vem agora: tampe a panela, cubra-a com um pano de prato e, segurando bem a tampa, sacuda-a para cima e para baixo. Isso mesmo, faça um remelexo com a panela por uns 10 segundos, ouvindo um barulhinho macio e gostoso.
- Abra a tampa, retire as batatas da panela, que se despedaçaram um pouco e foram envolvidas pela manteiga, e sirva imediatamente.
Na casa da mãe, a bataturgente é acompanhada de bife acebolado, arroz branco e salada de tomate-alface, consistindo na clássica “comidinha urgente” preparada na hora, com ingredientes frescos e com gostinho de família reunida.
P.S.: Peço desculpas pela foto desmaiada, que tão pouco valoriza as batatinhas. Hesitei muito em publicá-la, mas creio que sirva pelo menos como ilustração do formato.
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