Lulas Assustadas

Pá-pum, sem muita cozinhagem, que lula é feito camarão, carece de um fogo forte e decidido, até embaçar a carne e só. Basta um susto, BUUUUU. SHHHHH. Um tempero e um chamego. A receita a seguir é para 2 porções.

Ingredientes:

  • 2 colheres de sopa de azeite de oliva
  • 400 g de lulas pequenas, já limpas, passadas por água corrente, escorridas e cortadas em rodelas (usei os tentáculos também)
  • 1 dente de alho em lâminas muito finas (use a faca mais afiada que tiver)
  • 5 azeitonas picadas (descarte os caroços)
  • 1 xícara de tomates-cereja cortados ao meio
  • raspas de 1 limão siciliano
  • sal e pimenta-do-reino a gosto
  • rodelas de batatas cozidas para guarnecer

Como fazer:

  1. Leve uma frigideira grande com azeite à boca de fogo mais atrevida que tiver. Quando o azeite estiver bem quente (vai começar a sair fumacinha), jogue ali, de uma vez, as lulas. Sshhshhhhhhhhshhhh.
  2. Salpique o sal, a pimenta, as raspas de limão, junte o alho e remexa um pouco. Adicione os tomates e as azeitonas.
  3. Estará pronto quando as lulas ficarem foscas.
  4. Sirva sobre rodelas de batatas cozidas em água e sal, ou um arroz branco. Das poucas preparações que podem levar menos tempo para fazer do que para comer. Pá-pum. Jantinha urgente em menos tempo do que pedir uma pizza. BUUUU! Assustou, comeu.

Couve-flor Gratinada

Pouco importa o último grito da modinha féxion das coisas de comer. Ou o banzo que dá quando esse tal último grito passa, nos deixando a todos atordoados e a torcer o nariz para aquilo que um dia foi a estrela da festa, o assunto das rodinhas, a capa do suplemento do jornal, a diva onipresente nas fotos das revistas bacanas, a receita ‘chique’ que por fim chega à mesa de (quase) todos e cai na sempre crescente lista do (para mim) indecifrável ‘trivial-refinado’ dos anúncios de domingo que pedem uma cozinheira para a família da cidade grande.

O gratinado, velho de guerra, já aceitou tudo o que foi desaforo e, aparentemente, deu o que tinha que dar. Ficou em revistas de outra década, em cadernos e suplementos de papel jornal amarelado e ressequido. Cansou dos paparazzi e vem seguindo uma carreira mais comedida, independente, voltando às origens do gratinado-de-raiz, do gratinado-arte, do gratinado-moleque, do gratinado-de-várzea…

Ou pelo menos gosto de pensar que foi assim que ele manteve toda a dignidade e formosura na casa da mãe, essa que segura a travessa verde pelando, protegendo as mãos com um paninho de prato que ela mesma pintou e arrematou com uma barra de crochê (preciso escrever sobre minha mania com panos de prato feitos pelas mulheres da família, que caradepaumente peço e ganho cada vez que as visito).

Há algumas semanas abro essa foto e passo bons minutos olhando pra ela como quem olha uma paisagem bonita e relaxante, daquelas que ficam passando nos computadores de vitrine de loja de shopping ou nas telas do último grito da modinha féxion dos televisores modernex. Coisa bem simples, esse prato. Nem receita direito tem. Mas achei por bem mostrar a foto que me diz tanto aqui pra dentro e contar pra vocês que:

A mãe parte a couve-flor em floretes, que são brevemente aferventados em água e sal (às vezes caldo de legumes ou frango) sem que fiquem moles demais, depois escorridos e arrumados em travessa untada. Sobre eles, vai um molho branco (tenho uma receita boa aqui), que pode ou não ganhar o reforço de uma lata de creme de leite no final. Por cima, uma camada de queijo ralado, forno quente até dourar, às vezes um salpico da erva fresca que estiver disponível.

Com a sabedoria de quem já esteve no topo das paradas e hoje não precisa de mais nada daquele circo, essa couve-flor gratinada aceita numa boa ser o acompanhamento daquilo que você resolver. Vai bem com peixe, carne, ave, um arroz branco, uma saladinha e o que mais couber no seu “trivial-refinado”. Aceita até relembrar os velhos tempos e virar a estrela da mesa, se você pedir com jeitinho.

Manteiga de Castanha do Pará

Gosto muito quando um restaurante me inspira a cozinhar, gosto mais quando a ideia é de simples execução e gosto mais ainda quando consigo acertar a mão.

Essa manteiga é jogo rápido, fica uma delícia sobre pão recém-feito ou tostado e tem sido minha companheira no café da manhã. “Aprendi” no Lá da Venda, mistura de restaurante e mercearia de antigamente, coisa bem querida.

Ingredientes: (rende 1 xícara, aproximadamente)

  • 1/2 xícara de castanha do pará picada
  • 1/2 xícara de manteiga com sal em temperatura ambiente (consistência de pomada)

Como fazer:

  1. Num miniprocessador (ou, se não tiver, no liquidificador mesmo), bata a castanha. Primeiro ela formará uma farofinha fina e, de repente, começará a formar uma pasta. É nessa hora que você pode desligar o equipamento, se preferir que sua manteiga tenha mais textura. Se quiser bater um pouco mai, não tem problema.
  2. Misture a manteiga com sal, da boa, nessa pasta de castanha. Sirva como preferir.

As proporções eu fui fazendo a olho mesmo, dá para brincar com a textura e o tipo de castanha, adicionando mais ou menos manteiga de acordo com o gosto do freguês.

O segredo do iogurte caseiro

A receita de iogurte caseiro está entre as mais visitadas desse blog. Publicada há  quase quatro anos, foi seguida dum breve relato familiar sobre a coalhada seca – o Lábane – e um muito mequetrefemente fotografado tutorial para fazer coalhada seca em casa.

De lá para cá, minha vogra fez 85 anos, trocou o golzinho pelo táxi e deu um tempo na pintura de quadros, mas continua fazendo tricô para “os velhinhos” (muitos deles cronologicamente bem mais jovens que ela) e segue produzindo quase que semanalmente a melhor coalhada seca do mundo para a família toda ( – Fiiilha, fiz seis litros de halib, vai dar um lábane lindo, amanhã vou dividir os potinhos, não esquece de vir buscar!).

Encafifada que ultimamente meus iogurtes caseiros andaram resultando numa coisa meio  clara de ovo, fui ter com a velhinha. Comentei da minha suspeita, esses potes cheios de ingredientes espessantes, estabilizantes e quetais. De cenho franzido reclamava que estava difícil encontrar unzinho só que contivesse apenas o essencial (leite e fermento lácteo) quando ela contou o pulo do gato: - Usa coalhada, fiiiilha. E uma colher de sopa de leite em pó para cada litro de leite. E tem de ser daqueles de saquinho.

Pronto. Esqueçam a receita de quatro anos atrás. Busque um pote de coalhada (fica junto com os iogurtes e a embalagem é quase igual), leia os rótulos para garantir que não há gomas, amidos ou creme de leite na composição, agarre uns leites de saquinho, incremente com o leite em pó e siga o procedimento “de sempre”. Ah, e nada de desnatados ou semi, vá de leite integral que o iogurte fica muito mais gostoso.

Só tome cuidado e não faça como eu, que quase deixei escapar a vasilha da mão, salvei o iogurte a tempo mas não pude evitar um tsunami que espalhou um dos três litros pela porta da geladeira, por debaixo do fogão, nos cabelos, na janela, na parede recém-pintada, por detrás dos armários e por cima do tapete.

Gelatina de Tangerina

Costumo ter pacotinhos de gelatina incolor em casa, que gosto de misturar com iogurte em algumas invencionices (como o flan de iogurte com mel, o mágico de maracujá e aquele que está entre o flan e a mousse). Eles vêm em duplas e cada um endurece meio litro de líquido, segundo diz a embalagem. Dá pra fazer miséria com gelatina incolor, se você lembrar dessa regra e seguir as orientações do envelope. Uma mistureba de leite de coco + leite condensado + creme de leite + leite, uma nata aromatizada, um suco de fruta natural adoçado a gosto…

Ao leitor e à leitora iniciantes na lida com a gelatina incolor em pó, recomendo muitíssimo essa última opção. Até hoje me empolgo com as possibilidades, como nessa receita de Gelatina de Tangerina com Iogurte e Chocolate da Elisa.

Calcei umas luvas de borracha, espremi as tangerinas no muque, consegui só 400 ml de suco, completei com uns 100 ml de água e fiz meia receita, adoçada com mel, que rendeu quatro potes como os da foto. Ficou bem firme, daria até pra fazer uma graça e usar forminhas de silicone ou cortar a gelatina em quadradinhos. Não estava na vontade de baunilha, nem de chocolate. Tasquei uma colherada de iogurte natural caseiro, ralei um pouco de canela e achei bem bom. O gengibre faz toda a diferença, “levanta” o gosto da tangerina e deixa tudo mais interessante. Farei outras vezes, talvez com mais suco,  pra ficar mais “treme-treme”, ou com uma colherada generosa de licor, só pra fazer uma graça :)

Sopa de Espinafre

Eu leio livros de comida antes de dormir. E por livro de comida entenda-se desde o manual da batedeira nova que ensina a fazer pães e massas e bolos básicos, até as relíquias hedadas das vós, passando por toda sorte de relatos e estudos gastronômicos, impressos em papéis de variadas gramaturas, com capas duras, moles ou perdidas no tempo, nacionais e gringos, biográficos que fazem chorar, burocráticos que ensinam técnicas, com fotos lindas, medonhas ou inexistentes, receitas, receitas, receitas de tudo o que é credo e cor.

Vai daí que ontem tinha em mãos o “Vegie Food  - from vegies on the side to the main event”, repleto de receitas simples e honestas com vegetais e fotos lindas igualmente simples e honestas e acordei precisada duma sopa verdolenga. À noite, logo após fazer festinha com a Frida, largar mochila, bolsa, casaco e cachecol, abri a página 126 só para me certificar se a batata era mesmo ralada como lembrava, reduzi e adaptei minimamente os ingredientes e satisfiz o pedido da lombriga leitora com uma sopa/creme de espinafre.

Ingredientes: (para 1)

  • 1 colher de sopa de manteiga
  • 1/4 de xícara de cebola picadinha
  • 1 batata descascada e ralada
  • 1 xícara de folhas de espinafre (apertadas na xícara)
  • 1/2 xícara de talo de espinafre picado
  • 2 xícaras de água ou caldo caseiro de legumes (industrializado é forte demais pra essa sopa delicada)
  • sal e noz-moscada a gosto
  • colherada de coalhada seca (ou creme de leite fresco) para servir

Como fazer:

  1. Derreta a manteiga numa panela (se possível, de fundo grosso) e refogue ali a cebola com uma pitada de sal até murchar.
  2. Adicione os talos de espinafre e a batata ralada, dê um remelexo para aquecer todo mundo (inclusive você mesmo(a), se estiver fazendo muito frio), junte a água ou caldo e deixe ferver por 10 minutos.
  3. Corte em tiras ou rasgue as folhas de espinafre e junte à sopa. Rale um pouquinho de noz-moscada na hora (coisa pouca, pitada mesmo) ali pra dentro da panela. Deixe ferver em fogo baixo, vigiando e remexendo tudo de vez em quando para não grudar no fundo.
  4. Estará pronta quando a batata desmanchar quase toda e o espinafre estiver macio. Sossegue o facho, vá tomar um banho quentinho e deixe a sopa ali, descansando, na panela com o fogo desligado, por uns 15 minutos. S
  5. Voltou? Bata a sopa no liquidificador, devolva-a para a panela para aquecer, salpimente se necessário e sirva com a coalhada ou creme.

Gosta de sopa mais grossinha? Pode brincar com a quantidade de líquido e de batata. Não tem coalhada nem creme fresco? Mande uma colherada de requeijão. O liquidificador passou dessa para melhor? Decida que está a fim de algo mais rústico e devore a sopa aos pedaços.  :)