Peninhas no uniforme. A galinha é generosa. Galinha no terreiro é comida no pé. Onde foi parar a galinha inteira? Bicho que a gente não dá nome a gente pode comer. A gente não gosta de desperdício. A morte não pode ser em vão. Uma natureza horta.
Decifro as poucas garatujas largadas na caderneta aos primeiros minutos da aula “Cozinha sem vergonha: galinha de cabo a rabo”, com Neide Rigo, Mara Salles e Ana Soares, que aconteceu sábado no evento Paladar Cozinha do Brasil. E enquanto aperto os olhos pra decidir se aqueles morrinhos significam um ‘n’ ou ‘rr’, me arrependo de não ter levado a câmera, já que foi tudo tão lindo, e desarrependo em seguida, já que o Leitor e a Leitora não devem ter muita dificuldade para encontrar registros por aí e as fotos não iam mesmo prestar, dado meu grau de completo embasbacamento diante daquelas três.
Vi a semelhança antes da diferença e o que registrei primeiro não foi a bandana amarela da Mara, o turbante preto e branco da Neide e o cabelo curtinho branco e preto da Ana, mas o arranjo de penas de galinha (carijó?) no uniforme das três, que mais tarde percebi terem uma gargantilha de prata como suporte. Notei também a mesma pontinha de timidez nas vozes do jogral/abertura com palavras e expressões galináceas que teve tripa, coração, sangue, lágrima, pena, que pena!
Enquanto passava o vídeo introdutório, minha cabeça brincava de encontrar pares. Nas cenas do sítio em Fartura, encontrou a Vó Nair e a tia Noêmia correndo atrás das galinhas, sapecando e puxando as penas, desprendendo ovinhos ainda não postos que seriam disputados na canja e todo o respeito que tinham com os bichos e as plantas. Nas imagens do abatedouro, encontrou o relato chocado da primeira visita que meu irmão fez a um desses frigoríficos grandões, ainda estudante de Veterinária.
“A gente não gosta de desperdício“, não lembro mais quem foi que disse e pouco importa. Essas três mulheres geniais pesquisaram, foram a campo, destrincharam, despelaram, dissecaram e compreenderam a galinha em toda sua generosidade (a delas e da penosa). Contaram uns causos e lançaram a isca pras minhas lombrigas ao anunciar que rolaria um “Caldo Perfumoso” transformado em “Canja Voadora” (de asas) para a platéia.
Espera, que baguncei a cronologia. Antes de começar o cozinhê, agradeceram pela inspiração e homenagearam Nina Horta com muitas dúzias de ovos carimbados com os dizeres “Natureza Horta“. Achei lindos os ovos, que estavam cozidos e foram distribuídos ao final. Mas me arrepiei mesmo com a presença da Nina, que nunca havia visto assim de perto. Numa fileira mais ao fundo, com os cabelos quase todos brancos reunidos num coque no topo da cabeça, sorriu querida atrás dos óculos negros ao receber as efusivas palmas do povaréu.

O ovinho, em casa, aninhado num crochê que ganhei da madrinha
Elas iam se revezando na explicação de cada prato, cúmplices e gentis, fazendo questão de dizer o quê tinha sido ideia de quem. Mas na minha cachola, aquilo não fazia a menor diferença. As três se completaram lindamente nesse trabalho (dizem que no ano passado, quando falaram sobre o Amargo, foi igual de bom).
Do curanchim (sobre, rabicó), anotei que “precisa temperar bem, colocar todos bem juntos numa assadeira para a gordura derreter e fazer uma espécie de confit. O tempero foi sal, alho, gengibre e shoyu. Forno a 180 graus, por 20 minutos.” Foi servido com uma pimentinha, espetado num palito, ficou quase sem gordura. E eu, que nunca tinha comido essa parte, gostei bastante.
Daí pra frente, Leitor e Leitora queridos, foi balançar de cabeça concordando com elas, boca aberta com as peripécias, murmúrios de “gênia!” pra quem tava do lado, risos, sorrisos e lembranças de vó, de vez em quando uma pergunta mental (cadê essa canja que não chega??) e quase nada de anotações na caderneta.
Comi salada de sangue frio (solidificado, em tirinhas, com ervas da horta, flor de sal e raspas de limão), moqueca de pé, canapé de juízo (isso mesmo, o cerebrinho, que achei meio com gosto de quase nada), matulinha de miúdos, chorizo com arroz e a perfumosa canja voadora, feita com quirera, canjica, arroz basmati e leite de coco, um dia me animo a fazer.
A pasta de papelão que nos esperava em cada cadeira tinha dentro muitas das receitas, que essas três não são de esconder o jogo. Compartilharam, contentes, suas astúcias e experiências, entremeadas de um vocabulário tão perfumoso quanto aquela canja, vindo da fala dos antigos, inventado na hora, típico duma região, referente a uma erva ou ingrediente pra mim desconhesquecido. Ana, Mara e Neide estavam se divertindo ali com a gente e a gente com elas.
Foi como se estivessem revivendo aquelas descobertas todas, ao amarrar uma palha de milho pra fazer uma colherinha de servir angu coroado com crista, ao contar que os antigos faziam manjar com o colágeno da ave (que também pude provar e ficou empatado no primeiro lugar com a canja e a moqueca), ao quase fechar os olhos pra dizer como é bom chupar um pé de galinha… como se fosse um pirulito… um PÉrulito, caramelado e perfumoso, laqueado, oferecio num cone de celofane pelo moço animado que carregava um tabuleiro pendurado no pescoço. Deve ter rendido lindas fotos, esse encontro.
De presente, além dos ovos da natureza horta, um farnelzinho/matulinha/marmitinha de lata amarrado com um pedaço de pano branco com os dizeres “boa viagem” e uma porção de farofa com coxa de galinha (que abri e devorei assim que cheguei em casa, tão rápido que me agarrou um ataque de soluço) , e um saquinho com… bem, não tem outro nome mesmo… titica de galinha pra plantar sem saber exatamente o que vai brotar, pois “vai depender de que sementes elas comeram”, explicou a Neide.

A matula de farofa com galinha
Ao final, deixei a timidez e a vergonha dentro da cadernetinha e fui lá dar um beijo nelas, como todos estavam fazendo. Aproveitei pra me identificar pra Neide, que só conhecia pelo Come-se e já era muito fã. E já que minha bicho-do-matose estava menos pronunciada, respirei fundo e fui tietar a Nina Horta.
Pouparei o Leitor e a Leitora do relato de meu diálogo aparvalhado. O bom de estar emocionada daquele jeito é que não faço ideia do que disse, do tamanho do mico que paguei. Só lembro de ter contado com uma forcinha da Faby - que me encheu de coragem – e de ter beijado e abraçado a Nina, que reconheceu meu codinome cozinheiro e me fez agarrar uma tremedeira nas pernas que ainda volta cada vez que espio o papel.

Para quem quiser saber mais sobre as receitas e descobertas do trio, recomendo muitíssimo a visita ao blog da Neide, que publicou um vasto e profundo material. E agora, mesmo certa de que não logrei fazer jus à lindeza do dia, despeço-me do Leitor e Leitora queridos com um vasto sorrisão abestado antes de embarcar em sono profundo com essa caderneta na mesa de cabeceira, que amanhã acordo com as galinhas.