Quase notícias

Nem posso dizer que tenho cozinhado pouco (na minha casa e fora dela), mas ando bastante ocupada com assuntos não pertencentes ao perímetro do fogão, o que às vezes me faz esquecer que ainda tenho uma Dadivosa dentro de mim.

Sinto falta de vocês, leitora e leitor queridos, por isso passo agora pra contar que:

  • Comprei um moedor de carne, daqueles de encaixar na batedeira. Continua na caixa, deve dar o ar da graça em 2012.
  • Meio sem querer, tenho acertado a mão nos pães.
  • Mais sem querer ainda –  e com pesar – fiz uma cuca de goiabada bem mais ou menos, que pegou no fundo, ressecou, a farofa ficou doce demais. Acontece.
  • Consegui acomodar quatro litros de sorvete no mini-congelador, em formas, forminhas e formões. Usei duas bandejas como prateleiras. Uma delas não sai mais, vai morar ali dentro.
  • Parti um radicchio ao meio e cozinhei em um dedo de água, sal e manteiga. Foi meu jantar agorinha mesmo.
  • Confirmei que as coisas (e eu) entram (entramos) nos eixos quando volto a cozinhar.
  • Cortei dedos e queimei a mão algumas vezes, nada grave. E faz tempo que não quebro nada em casa (não espalhem!).
  • As lichias começaram a aparecer outra vez, tenho uma caixa delas na geladeira. Vez ou outra tiro a sorte grande, que é quando a semente é mais estreita e a polpa mais carnuda.
  • Na geladeira também tem salada lavada, mamão, ameixa preta, ricota, manteiga, queijos (parmesão, grana padano, de cabra fresco, de cabra curado), iogurte e não muito mais.
  • The Table Comes First é meu novo livro de cabeceira. Estou apaixonada, leio de pouquinho em pouquinho e com aperto no coração, como naqueles intermináveis abraços e repetidos beijos de despedida.
  • Deixei grão de bico de molho em água e sal (uma colher de sopa pra cada litro) por 8 horas, cozinhei, escorri bem, tirei as cascas todas, passei numa mistura de azeite, sal, pimentón dulce, pimentón picante e tostei no forno até ficar crocante.
  • Minha máquina de esticar massa foi encontrada e voltou pra minha cozinha, depois de um ano de separação.
  • Daqui a oito dias, café do Babbo e comida da Mãe!
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Meus Dez Utensílios Indispensáveis: 1 – Microplane

Meu ralador preferido, em três poses

Inauguro minha lista de dez mais queridos utensílios com o Ralador Microplane que vive pendurado acima da pia, companheiro de muitos anos, viagens e mudanças.  Chegamos a morar por três meses num hotel que só tinha microondas, onde aqueci água pro café, assei batatas e aprendi a cozinhar macarrão como se fosse na panela. E um macarrãozinho com manteiga boa e queijo ralado na hora sabe reconfortar, aquece a barriga e acalma os nervos.

O queijo sai em fitas delicadas, botem reparo

Com ele ralo queijos, temperos (canela, gengibre, noz-moscada…) e faço raspas de frutas cítricas para receitas doces e salgadas. É uma mão na roda… e às vezes um naco de mão, dedo e unha a menos. O bicho é afiado e competente, mas é preciso cuidado: nada de se debruçar sobre o cabo, pressionar demais o alimento ou apoiar a lâmina com muita força. Com o costume, percebi que me machuco muito menos com ele do que com aqueles raladores grandalhões de quatro lados…

Nos Estados Unidos, um grater/zester Microplane vale pouco mais de 10 dólares, lembrancinha batuta e fácil de trazer/pedir para os amigos. Ao avistar um exemplar desses no Brasil, o Leitor e a Leitora devem segurar a periquita do consumo e avaliar se vale mesmo a pena: por essas bandas, chegam a custar sete vezes mais.

 

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De Castigo

Vai daí que aquela rama de salsa crespa, semi-desmaiada, aquela mesma, que foi esquecida fora d’água em dias de tempo seco por demais, não foi desperdiçada.

Amarrei-lhe um barbante nos pés juntos, pendurei todo mundo de cabeça para baixo na prateleira e depois de uma semana a “peça decorativa” perde uns galhinhos a cada vez que invento uma cozinhança. Esfrego umas quantas folhas entre os dedos e alegro o que estiver na mira. É a redenção da salsa crespa, que sai do castigo para ornar e perfumar omeletes, risotos, sopas rápidas, guisadinhos e gororobas mil. Um castigo temporário, portanto, bem melhor do que o fundo do lixo.

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De cabo a rabo, sem vergonha

Peninhas no uniforme. A galinha é generosa. Galinha no terreiro é comida no pé. Onde foi parar a galinha inteira? Bicho que a gente não dá nome a gente pode comer. A gente não gosta de desperdício. A morte não pode ser em vão. Uma natureza horta.

Decifro as poucas garatujas largadas na caderneta aos primeiros minutos da aula Cozinha sem vergonha: galinha de cabo a rabo”, com Neide Rigo, Mara Salles e Ana Soares,  que aconteceu sábado no evento Paladar Cozinha do Brasil. E enquanto aperto os olhos pra decidir se aqueles morrinhos significam um ‘n’ ou ‘rr’, me arrependo de não ter levado a câmera, já que foi tudo tão lindo, e desarrependo em seguida, já que o Leitor e a Leitora não devem ter muita dificuldade para encontrar registros por aí e as fotos não iam mesmo prestar, dado meu grau de completo embasbacamento diante daquelas três.

Vi a semelhança antes da diferença e o que registrei primeiro não foi a bandana amarela da Mara, o turbante preto e branco da Neide e o cabelo curtinho branco e preto da Ana,  mas o arranjo de penas de galinha (carijó?) no uniforme das três, que mais tarde percebi terem uma gargantilha de prata como suporte. Notei também a mesma pontinha de timidez nas vozes do jogral/abertura com palavras e expressões galináceas que teve tripa, coração, sangue, lágrima, pena, que pena!

Enquanto passava o vídeo introdutório,  minha cabeça brincava de encontrar pares. Nas cenas do sítio em Fartura, encontrou a Vó Nair e a tia Noêmia correndo atrás das galinhas, sapecando e puxando as penas, desprendendo ovinhos ainda não postos que seriam disputados na canja e todo o respeito que tinham com os bichos e as plantas. Nas  imagens do abatedouro, encontrou o relato chocado da primeira visita que meu irmão fez a um desses frigoríficos grandões, ainda estudante de Veterinária.

A gente não gosta de desperdício“, não lembro mais quem foi que disse e pouco importa. Essas três mulheres geniais pesquisaram, foram a campo, destrincharam, despelaram, dissecaram e compreenderam a galinha em toda sua generosidade (a delas e da penosa). Contaram uns causos e lançaram a isca pras minhas lombrigas ao anunciar que rolaria um “Caldo Perfumoso” transformado em “Canja Voadora” (de asas)  para a platéia.

Espera, que baguncei a cronologia. Antes de começar o cozinhê, agradeceram pela inspiração e homenagearam Nina Horta com muitas dúzias de ovos carimbados com os dizeres “Natureza Horta“. Achei lindos os ovos, que estavam cozidos e foram distribuídos ao final. Mas me arrepiei mesmo com a presença da Nina, que nunca havia visto assim de perto. Numa fileira mais ao fundo, com os cabelos quase todos brancos reunidos num coque no topo da cabeça, sorriu querida atrás dos óculos negros ao receber as efusivas palmas do povaréu.

O ovinho, em casa, aninhado num crochê que ganhei da madrinha

Elas iam se revezando na explicação de cada prato, cúmplices e gentis, fazendo questão de dizer o quê tinha sido ideia de quem. Mas na minha cachola, aquilo não fazia a menor diferença. As três se completaram lindamente nesse trabalho (dizem que no ano passado, quando falaram sobre o Amargo, foi igual de bom).

Do curanchim (sobre, rabicó), anotei que “precisa temperar bem, colocar todos bem juntos numa assadeira para a gordura derreter e fazer uma espécie de confit. O tempero foi sal, alho, gengibre e shoyu. Forno a 180 graus, por 20 minutos.” Foi servido com uma pimentinha, espetado num palito, ficou quase sem gordura. E eu, que nunca tinha comido essa parte, gostei bastante.

Daí pra frente, Leitor e Leitora queridos, foi balançar de cabeça concordando com elas, boca aberta com as peripécias, murmúrios de “gênia!” pra quem tava do lado, risos, sorrisos e lembranças de vó, de vez em quando uma pergunta mental (cadê essa canja que não chega??) e quase nada de anotações na caderneta.

Comi salada de sangue frio (solidificado, em tirinhas, com ervas da horta, flor de sal e raspas de limão), moqueca de pé, canapé de juízo (isso mesmo, o cerebrinho, que achei meio com gosto de quase nada), matulinha de miúdos, chorizo com arroz e a perfumosa canja voadora, feita com quirera, canjica, arroz basmati e leite de coco, um dia me animo a fazer.

A pasta de papelão que nos esperava em cada cadeira tinha dentro muitas das receitas, que essas três não são de esconder o jogo. Compartilharam, contentes, suas astúcias e experiências, entremeadas de um vocabulário tão perfumoso quanto aquela canja, vindo da fala dos antigos, inventado na hora, típico duma região, referente a uma erva ou ingrediente pra mim desconhesquecido. Ana, Mara e Neide estavam se divertindo ali com a gente e a gente com elas.

Foi como se estivessem revivendo aquelas descobertas todas, ao amarrar uma palha de milho pra fazer uma colherinha de servir angu coroado com crista, ao contar que os antigos faziam manjar com o colágeno da ave (que também pude provar e ficou empatado no primeiro lugar com a canja e a moqueca), ao quase fechar os olhos pra dizer como é bom chupar um pé de galinha… como se fosse um pirulito… um PÉrulito, caramelado e perfumoso, laqueado, oferecio num cone de celofane pelo moço animado que carregava um tabuleiro pendurado no pescoço. Deve ter rendido lindas fotos, esse encontro.

De presente, além dos ovos da natureza horta, um farnelzinho/matulinha/marmitinha de lata amarrado com um pedaço de pano branco com os dizeres “boa viagem” e uma porção de farofa com coxa de galinha (que abri e devorei assim que cheguei em casa, tão rápido que me agarrou um ataque de soluço) , e um saquinho com… bem, não tem outro nome mesmo… titica de galinha pra plantar sem saber exatamente o que vai brotar, pois “vai depender de que sementes elas comeram”, explicou a Neide.

A matula de farofa com galinha

Ao final, deixei a timidez e a vergonha dentro da cadernetinha e fui lá dar um beijo nelas, como todos estavam fazendo. Aproveitei pra me identificar pra Neide, que só conhecia pelo Come-se e já era muito fã. E já que minha bicho-do-matose estava menos pronunciada, respirei fundo e fui tietar a Nina Horta.

Pouparei o Leitor e a Leitora do relato de meu diálogo aparvalhado. O bom de estar emocionada daquele jeito é que não faço ideia do que disse, do tamanho do mico que paguei. Só lembro de ter contado com uma forcinha da Faby - que me encheu de coragem – e de ter beijado e abraçado a Nina, que reconheceu meu codinome cozinheiro e me fez agarrar uma tremedeira nas pernas que ainda volta cada vez que espio o papel.

Para quem quiser saber mais sobre as receitas e descobertas do trio, recomendo muitíssimo a visita ao blog da Neide, que publicou um vasto e profundo material. E agora, mesmo certa de que não logrei fazer jus à lindeza do dia, despeço-me do Leitor e Leitora queridos com um vasto sorrisão abestado antes de embarcar em sono profundo com essa caderneta na mesa de cabeceira, que amanhã acordo com as galinhas.

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Sal, pimenta e curativos

Uma das primeiras fotos que fiz no curso de cozinha toscana, enquanto rezava para não sair dali de ambulância, ralar ou picar os dedos, quebrar alguma louça, virar azeite fervendo em mim mesma (ou em alguém!), me sapecar no forno ou escorregar e dar com a cara na quina da mesa. Correu tudo bem, em três dias só virei uma taça de vinho e fiz voar a tampa do processador.

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