Oito.

Um é o cara. O primeiro, o único, o melhor. O mais solitário, um café e a conta, a saideira.

Dois é casal, parzinho, duo, díptico, dupla, olhos, orelhas, mãos, pernas.

Três é realeza, triunvirato, tríade, trindade, pai-filho-espírito-santo, sangue-suor-e-lágrimas.

Quatro é marcação de tempo, estações, cantos do mundo, patas, apoio.

Cinco é redondo, só mais cinco minutinhos, top five, outro primo, uma mão cheia.

Seis é metade, meio ano, meia dúzia. Seis graus de separação entre mim e qualquer vivente da face da terra.

Sete é cabalístico. Dias da semana, pecados capitais, cores do arco-íris, notas musicais, conta de mentiroso, sete léguas, sete vidas, sétima arte.

Oito é o quê? Octópode? Dois terços de um ano? Bola oito?

Bobagem. Oito trabalha na profundeza e na imensidão.

Oito deitado é infinito, matemático e filosófico (matemática é filosofia e vice-versa, em meu humilde entendimento de filha e irmã de matemáticos que filosofam), laço que se encerra em si mesmo. Finge ser banal na gravação da aliança, na tatuagem de amor-eterno-amor-verdadeiro-fulano, na bola preta da sinuca, no quadradinho de oito do funk carioca. Oito deitado, com um lado aberto, vira rabisco de peixe.

Com um oito de pé começa-se a desenhar um gato. Ou um gordinho. Ou uma mulher grávida. Um oito de pé também é laço que se encerra em si mesmo. Cérebro e vísceras. Razão e instinto. Cabeça e barriga. O que governa e de onde sai a fome. O que traduz em pensamento aquilo que se passa nas entranhas.

A l i m e n t o

C o z i n h a r

E s c r e v e r

D a d i v o s a

Oito letras.

Omeunome tem oito letras.

Omeuamor tem oito letras.

Oito.

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Por quê?

Coração ao vinho

Porque sim. Para distrair, passar o tempo, brincar. Inventa, cozinha, conta, escreve, compartilha, mostra aí.

Para mostrar coisas que são o que são, mas que podem revelar segredos para quem souber olhar e sentir. Para dar sentido ao mil-folhas de alegrias, desassossegos, intimidades e acontecimentos indizíveis. Para esquecer.

De todos os portos, daqueles braços, dos arrozes insossos, dos bolos solados. A gente não se esquece de nada não, a gente se acostuma, como diz o Jacques Brel. Por costume. Como rotina necessária. Um hábito de higiene.

Para limpar o entulho de pensamento, faxinar a cabeça, desapegar de receitas e histórias e saudades que vivem no lado de dentro, mas chega uma hora em que precisam ganhar mundo. Porque receitas e histórias e saudades encarceradas assim, ignoradas assim, são bem capazes de cavar um túnel, passar por vasos e veias, grudar nas artérias e arruinar o coração.

Porque no fim das contas é ele quem manda nisso aqui. É o coração quem inventa, cozinha, conta, escreve, compartilha, mostra aí. E se calhar de aparecer um vinho para amolecer as saudades e uma mini salada de cebola com hortelã para refrescar as ideias, tanto melhor.

 Receita de Coração de Galinha com Vinho

Ingredientes:

  • 300 g de coração de galinha muito limpos (sem vestígios de artérias ou pelancas)
  • 150 ml de vinho tinto
  • 2 dentes de alho espremidos
  • 2 folhas de louro
  • 1 galho de alecrim fresco
  • 1 colher de sopa de azeite
  • 1 colher de sopa de manteiga
  • sal e pimenta a gosto

Para a mini salada:

  • 1 cebola (se tiver da roxa, melhor ainda)
  • gelo
  • folhas de hortelã
  • 1 limão tahiti

Como fazer:

  1. Faça uma marinada misturando o coração, o vinho, o alho, o louro, o alecrim, um pouco de sal e de pimenta. Deixe descansar por 30 minutos.
  2. Aqueça no fogo forte o azeite e a manteiga em panela de fundo grosso. Enquanto isso, retire os corações da marinada com uma escumadeira e reserve-os separados, corações de um lado, líquido do outro.
  3. Doure os corações na manteiga. Acrescente o líquido da marinada. Abaixe o fogo e, vigiando de vez em quando, acrescentando um pouco mais de água quando o líquido secar, deixe cozinhar por uma hora. Corrija sal e pimenta.
  4. Meia hora antes de servir, corte a cebola em fatias finas, deixe no gelo com um pouco de água. Elas ficarão mais crocantes e suaves. Passada meia hora, escorra-as e misture com a hortelã rasgada grosseiramente e o sumo do limão.
  5. Sirva os corações sobre uma polenta mole, como a da foto, ou o que achar por bem (com purê de batatas fica muito bom). Cubra com um pouco da mistura de hortelã e cebola, polvilhe flor de sal.
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Nem ferver uma água…

purê de batata instantâneo

Basta ferver a água com sal e manteiga, adicionar leite, misturar o conteúdo do pacote e deixar descansar por meio minuto. Nada de escolher, cozinhar e descascar as batatas (a ordem ao gosto do freguês), passar pelo espremedor, juntar a quantidade desejada de manteiga e/ou leite, temperar, garantir que chegue quente à mesa, sujar louça, respingar fogão, pelar os dedos. Tudo muito rápido, tudo muito simples, tudo muito garantido.

Só que não. Apesar de ter lido as instruções, consegui errar o preparo de um purê de batata instantâneo, uns flocos liofilizados de feitura promissoramente rápida e indolor. Abri o pacote e, ato contínuo, dissolvi o conteúdo em água fria, juntei manteiga e sal, levei ao fogo, mexi, tirei do fogo, acrescentei o leite. E, estranhando a consistência, fui perguntar a quem já tinha feito aquela comida de astronauta. Risos por todo lado. “O 5 de janeiro de 2013 será conhecido como o dia em que a Dadivosa errou um purê de batatas instantâneo!”. Não se pode ganhar sempre…

Mas tinha feito um molho de cogumelos porcini com vinho que foi servido no centro de uma sopa de batatas meio sem gosto e a coisa toda não ficou exatamente ruim. O erro, como mais de uma pessoa apontou ao saber do mau passo instantâneo, foi justamente o fato de ser “instantâneo”. Faço sem problemas um purê do zero, desde a compra das batatas até a limpeza do último pingo de leite no chão. Mas deveria lembrar que em alguns casos sou mesmo à moda antiga. Quando se trata dessas poeiras mágicas industrializadas não sei nem ferver uma água. :)

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Cozinha pra mim?

A depender do interlocutor, “Cozinha pra mim?” tem o efeito de um “Me beija!“. Um pedido assim é promessa de preguiça, samba e amor até mais tarde, ou o interlúdio que sucede algumas horas no computador para terminar um trabalho, responder os correios, buscar aquela música do fim do século passado, pagar as contas… e precede o dobro dessa quantidade de horas numa soneca de pernas enroscadas em tarde de canícula que não suporta mais do que uma salada.

Um “Cozinha pra mim?” pode ser “Vem dançar comigo” entre o meio da sala e a frente do fogão, falar sobre o dia enquanto o outro pica tudo miudinho, rir do choro involuntário e certeiro da cebola ardida, varrer os cacos daquele copo quebrado, buscar mais gelo, arriscar um samba com a colher de pau na mão, apresentar um tempero novo, abrir todas as janelas, ligar coifa e apelar para o ventilador quando o vinho jogado na assadeira do pato te faz desaparecer em nuvem de fumaça de ninja.

“Cozinha pra mim?” às vezes nem se diz com a boca, mas com o olho. É pedido de colo, neutralizador do dia ruim para um, libertador do aconchego recolhido para o outro, curativo de tantos males, aporrinhações e enfermidades agudas do espírito. Quase sempre funciona, quase nunca precisa-se verbalizar o motivo do apelo ou o resultado do calorzinho no estômago.

Tem dias em que “Cozinha pra mim?” é um “Estou com saudade…“, carinho de pai-mãe-filha-irmãos, desculpa pra tomar alguma coisa e conversar sobre a impermanência da vida e a perenidade de amor, perguntar do fulano, saber da beltrana, que bom que estão bem, apresentar uma piada nova que apareceu na internet, chorar de rir e irem todos empoleirar-se na cama de um.

Há também o “Cozinha pra mim?” proferido pela cozinheira e tomado com certo espanto e terror pelo interlocutor mal acostumado e avesso ao fogão. Mal sabe ele que tudo o que ela quer depois de tantas receitas testadas e servidas e fotografadas, tudo o que ela espera depois de tantas horas em pé de avental e faixa no cabelo, tudo que a faria feliz é um arroz com ovo que seja, um café passado na hora, até uma mesa posta para o empadão trazido da padaria tá valendo.

“Cozinha pra mim?” não carece de porobséquios e sivuplés. O veludo da voz dá conta da boa educação. Nem precisa motivo, para dizer a verdade. É feito aquele presente perfeito que se encontra por acaso e entrega-se assim, sem data imposta, só porque eu vi e lembrei de você, surpresa provocadora de friozinho no estômago, sorriso de criança, abraço pendurado no pescoço e beijo barulhento na bochecha. É assim, um prazer para quem serve e para quem é servido (servir o outro é tão bom, como o mundo precisa de pequenas e grandes gentilezas…). É, por fim, das coisas mais dadivosas que se pode pedir e conceder, é quase uma declaração… Cozinha pra mim?

Receita da Salada “Cozinha pra Mim?”

Ingredientes: (para dois)

  • 1 endíva cortada em tiras finas
  • 1 bulbo de erva-doce cortado em tiras finas
  • 2 xícaras (aproximadamente) de alface lisa rasgada com as mãos
  • 1/2 xícara de brotos de feijão
  • 2 xícaras de tomate-cereja cortado em quartos
  • 1/4 de xícara de pancetta ou bacon em fatias finas
  • 2 dentes de alho
  •  2 xícaras de pão italiano (ou português, ou outro semelhante) rasgado em bocados
  • 1/2 xícara de azeite de oliva para o molho, mais algumas colheres de sopa para o pão
  • 1/4 de xícara de vinagre de vinho branco ou de cava
  • 1/2 xícara de pimentão vermelho assado e sem pele picado
  • pimenta-do-reino moída na hora
  • sal a gosto
  •  lascas de parmesão ou grana padano

Como fazer:

  1. Coloque as folhas, brotos e tomates em uma saladeira grande.
  2. Frite a pancetta até dourar e ficar crocante, retire-a e reserve-a deixando a gordura na frigideira. Acrescente um fio de azeite e, em fogo baixo, doure o alho, retire-o com cuidado e reserve.
  3. Ainda à mesma frigideira, junte mais um fio de azeite, a pimenta, e doure ali o pão. Deixe de lado.
  4. Prepare o molho: misture o pimentão, o vinagre e o azeite, corrija o sal e moa um pouco mais de pimenta se gostar. Na hora de servir, junte a pancetta quebrada em pedaços e o alho frito, agora já frios, à saladeira. Despeje o molho e envolva tudo com cuidado. Por cima de tudo, salpique o pão e as lascas de queijo.
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De volta à Suíça

- Ça va, ma jolie cusinière?
- Tô triste, Suíço.
- Vem pra cá!
- Ó que eu vou…
- Ouiiiii!!

Chego duas semanas depois dessa conversa pelo Skype meio em frangalhos, com alguns planos, casacos e biquíni (porque o tempo era incerto), cachaça e suco de maracujá na bagagem conforme o pedido. Os frangalhos, aquela troca de casca anual e necessária mas nem por isso confortável, começam a cair já pela janela do trem que passa ao redor do lago.

O mesmo amigo do Suíço, que o acolhia há um mês e tanto, atura a intrusa por 20 dias. Mentira. Não atura. Viramos amigos instantâneos, parece que nos conhecemos há dez anos. Bebemos caipirinha e dançamos na sala até a madrugada – vejam só – pop francês dos anos 80 e toda sorte de musiquinhas coreografáveis, parando em Livin’ La Vida Loca do Ricky Martin só porque o vizinho desce para reclamar, todo gentil, todo educado, todo suíço.

Somos três. Três mais ou menos recentemente solteiros que queimaram seus navios e largaram o que muitos chamam de ‘vida estável’ em busca do que de verdade importa, querendo pisar no mundo de um jeito mais leve e dispostos a bancar suas próprias escolhas, por mais desafiadoras que sejam. Conversamos noite adentro e tarde afora naquele apartamento com janelas de coração.

Rimos e choramos juntos, compartilhamos bobagens, confissões, confidências e profundezas. Das mais ricas, doloridas, surpreendentes, felizes e promissoras profundezas. Faço fotos dos pés em frente ao espelho da sala. Muitas delas.

Jogamos Uno com o Léonard, filho do anfitrião, que mora com ele e com a mãe em semanas alternadas. Passeamos com o pequeno, preparamos a festinha de aniversário dele. Faço brigadeiros com granulado marrom e colorido, as crianças não curtem, acham muito doce (também acho). Preparamos tapas para os adultos: nós três e os poucos vizinhos daquele prédio antigo com uma claraboia no meio. Léonard chega correndo, cata o primeiro copo que vê pela frente e, antes que consigamos impedir, emborca um golão de vinho. E faz a cara mais malina, ri até quase chorar, acha o máximo esse engano, sente-se muito adulto aos seis anos. Desenhamos e contamos histórias. Vamos almoçar onde Léo quer me levar, um restaurante chinês. Tiramos muitas, muitas fotos. Caminhamos montanha acima, vemos cogumelos, subimos na torre, comemos maçã roubada do pé, catamos espadas em forma de graveto. Tenho uma flor no cabelo e Léo diz que estou bonita. Acredito. Quando um menino-de-tudo diz uma coisa dessas, a gente acredita. Semana sim, semana não, portanto, somos quatro. Quatro crianças descobrindo o mundo.

E, feito criança, vou brincar de comprar frutas e legumes da estação na feirinha orgânica local, o mercado da praça que acontece aos sábados. Compro ingredientes e cozinho nesse e em praticamente todos os outros dias em que ficamos em casa. Ou melhor, cozinhamos. Os três juntos; um comanda e os outros dois ajudam; um sozinho pra fazer agrado aos outros dois (ou outros três, semana sim, semana não) e em duplas para o terceiro ficar com a louça. Sou muito paparicada por eles.

Etienne, amigo dos dois, oferece-nos um jantar. Como ele cozinha bem, como esses homens suíços cozinham bem! Ganho dele um livro do Girardet. Pierre-Alain é nomeado Chef Pâtissier, o Suíço é o Saucier e eu… bem, eu sou Dadivosa, La Jolie Cuisinière.

Dadivosa toma leite de vaca suíça, creme de leite de vaca suíça, queijo de leite de vaca suíça, iogurte de leite de vaca suíça. Que me lembre, só um pedacinho de chocolate de leite de vaca suíça, que não sou lá muito fã de doce. Vamos os dois dançar com as uvas na festa da colheita. Vamos os três tomar banho nas águas borbulhantes de Lavey no meio da semana, somos os mais jovens do lugar. Temos ataques de bobeira, lagarteamos ao sol fraquinho, deixamos a água correr com força pela espinha, boiamos com os ouvidos submersos ouvindo sons de baleias, que bom que trouxe o biquíni. Voltamos com sono. Estamos sempre em dupla ou em trio e, ao contrário dos meus planos, apesar de gostar, não viajo sozinha por um só momento e é melhor assim, tenho certeza.

Tinha planejado dar um pulo na Espanha, precisava resolver umas coisas, fechar conta em banco, matar saudades. Vamos os dois, jantamos no que pra mim é o melhor restaurante de Madri. Tanto fazemos que convencemos o terceiro a vir também. Encontramos mais gente pelo caminho, vamos de tapas e de copas, dançamos, compro muitos livros de comida, os dois me ajudam a levar todo aquele peso até o hotel antes de continuarmos a movida. Compro outra mala. Arrasto Pierre-Alain para o supermercado – como se precisasse – e voltamos carregados de sacolas cheias de latas e vidros mil, de azeite a bochecha de bacalhau, para o espanto e gozação eterna do Saucier. Trocamos presentes, recuerdos engraçadinhos de nossa crescente coleção de piadas internas. Encho a segunda mala, os meninos carregam o trambolho escada abaixo e Calle Fuencarral afora até chegarmos ao táxi.

Também tinha planos de passar uns dias em Paris, minha irmã estava por lá. Mas vamos os dois pra Fribourg. Sinto-me em casa, conheço a família do Suíço, tenho saudades da minha. O pai dele faz o melhor steak tartar que já comi na vida, e não foram poucos. A mãe dele, linda, esguia, doce, ao saber que cozinho me leva para ver os seus livros, relíquias comentadas com letra bonita em caneta azul. Tinha guardado uns recortes de revista pra me mostrar também e me passa sua receita secreta para Moutarde de Bénichon.

O irmão mais novo, se cozinha, não sei. O outro irmão é especialista em jardins, sabe tudo de plantas, tem programa na TV e no rádio, escreve lindo, o livro dele tá para sair. Casado com uma francesa que, adivinhem, cozinha muito bem. Repito-me. Colho morangos e tomates no quintal. Ao chegarmos em casa, a família dele liga. Querem saber ‘o que somos’ um do outro. Rimos muito.

Visitamos Gruyère e Bern. Vamos ao museu Giger, tiro fotos com réplicas do Alien, compro especiarias com embalagens escritas em alemão, tiro foto dos meus pés na chuva, tiro fotos de corações de chocolate, tiro fotos dos nossos pés no trem. Chega o frio, dormimos em Fribourg, visitamos um museu de marionetes, voltamos no dia seguinte.

Vejo nascer naqueles dias essa carinha que estampa o site, a marca da Dadivosa que eu tinha encomendado antes de chegar lá. Acompanho o processo meio de perto, meio de longe. O Saucier pensa numas coisas, eu em outras outras e, por fim, ele apresenta a ideia que vingou. Amplia um pontinho vermelho na tela: “Olha, reconhece? É a tua boca“. Vem o cabelo, a franja de lado, um olho fechado. Ele me vê assim, eu me reconheço ali. Pâtissier dá uns pitacos, dou outros et voilà.

Da tristeza não sobra nada. Despedimo-nos entre abraços infinitos, olhos marejados (dos três) e um beicinho de choro (meu). Um ano depois, dou-me conta de que havia contado muito pouco da viagem aqui (apesar dessa tripa de texto, sigo sem contar boa parte) e que talvez o Leitor e a Leitora achem que andei novamente em terras helvéticas. Não andei, mas quase. É que venho revivendo isso tudo nos últimos dias, pois dessa vez é um pedaço da Suíça que vem até mim. Seremos dois outra vez. Conversaremos de bobagens e profundezas, trocaremos confissões e confidências, riremos muito, pode ser que choremos em algum momento, sairemos um pouco, cozinharemos todo dia e Pierre-Alain e Léonard vão estar com a gente, pois estou pensando em colocar um brega de raiz e dançarmos todos em suas respectivas salas, fazendo balbúrdia pelo Skype. Mas vai ser no meio da tarde, pra evitar encrenca com meus vizinhos, que de suíços não têm nada.

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Desgarrados

Tínhamos 15 e 16. Casamento da irmã mais velha dele, família por todo o lado. Vó Meloca esqueceu uma calçola-barraca-dupla no quarto, o tio pendurou no lustre, a véia procurando a casa toda sem querer dizer o quê e a gente rindo a tarde inteira. Deitamos no tapete da sala, cabeça com cabeça, enquanto todos corriam pra lá e pra cá entre vestidos e ternos e cheiro de laquê e sapatos novos.

- A gente devia era ficar solteiro pra sempre.

- É, e viajar o mundo.

- Isso, viajar o mundo!

- Então combinado, nunca vamos nos casar.

- Não vamos contribuir com a perpetuação dessa espécie. E seremos os tios preferidos: engraçados, divertidos e impertinentes, daqueles que ensinam todas as porcarias pros sobrinhos.

Ganhei mundo antes dele. Voltei. Visitamo-nos e saímos algumas vezes, rindo muito, falando de nós mesmos quase sem palavras. Não precisava, nos conhecíamos bem demais. Perdi uns quilos. Ele, uns cabelos.

Apaixonei-me por aquele francês, passei um tempo morando com ele. ‘Traidora’, disse, não lembro se por e-mail, telefone ou parentes. Ganhei mais mundo ainda. Um tempo depois ele ganhou mundo e apaixonou-se também. Por uma chata, ainda bem que acabou.

Ele casou com outra, eu casei com outro, não lembro em qual ordem. E nosso pacto foi pro beleléu, as famílias faziam questão de lembrar disso a cada encontro bissexto.

Ele teve uma filha. Eu, uma cachorra. E sabíamos um do outro pelos parentes. Até que eu descasei, ele descasou, não lembro em qual ordem. E rimos, nós dois e as famílias, da nossa profecia autorrealizadora. Tínhamos virado titios e solteiros, os dois.

Amanhã ele vem aqui em casa e vamos rir com e um do outro, como sempre, como se tivéssemos nos visto ontem. Ainda não sei o que vou cozinhar, só sei que vai ficar bom. A irmã mais nova dele vem também, com o marido. Serão nossas duas testemunhas do Encontro Quase Anual dos Primos Desgarrados.

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Luxúria

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Ele gostava das minhas pernas. Talvez ainda goste e prefira como elas estão hoje, não importa. Me gostava inteira e dizia. Dou um meio sorriso ao abrir a despensa e a geladeira, tem algo dele ali. Sempre tem. Numa passada de olhos pelas embalagens de azeite, granola, mel, arroz, café e torradas, lembro dele e lembro de algum outro.

Vão-se os amores e aquela história toda… ficam os sabores e o consumo da geleia X porque gosto do vidro e do fato de ser menos doce, mas sobretudo porque é surpreendente a influência da luxúria em nossos hábitos de consumo. Ser apresentado a determinado ingrediente naquela janela de torpor entre o que está prestes a acontecer e algumas boas horas após o acontecido pode fazer com que você nem olhe pros lados e pegue tal sorvete no supermercado sem pestanejar, a despeito de não achar que seja o mais gostoso e de tantas outras opções disponíveis. E que a marca frequente o seu freezer para todo o sempre, até você achar que foi sua a descoberta, ou que ele é mesmo o sorvete mais gostoso do mundo. É bem provável que passe adiante a dica, ou a memória afetiva, criando um fio invisível entre amantes de corpo, de alma e de comida.

Ele gostava da minha comida e dizia. Talvez ainda goste e não sei se preferiria o menu daquela época ou o de hoje. Mas daria um meio sorriso ao abrir a despensa e a geladeira e se ver ainda ali, naquela latinha de chá ou no copo de requeijão. Talvez se sentisse importante por ter influenciado de alguma forma a cozinheira. E era, sempre vai ser.

Não importava se o bife estivesse duro, o arroz sem sal, as lichias mal escolhidas, o curry apimentado demais. Metade gentileza e metade torpor, enquanto eu amaldiçoava minha falta de jeito, ele elogiava e repetia as poucas receitas que me aventurava a fazer. Dizia que eu era sua Dadivooooosa* com uma voz inimitável e ríamos muito. A luxúria, além de influenciar o consumo, é generosa com pequenos reveses culinários.

Sei que ele adoraria provar a farofa de sriracha e a sobremesa de gengibre. Não lembro se alguma vez mencionou gostar ou desgostar de miúdos – por alguma razão, não falamos a respeito. Gastronomicamente curioso e destemido, certamente provaria a tentativa de moela confitada na gordura de pato que fiz ontem às sete da manhã, aquela que quase carbonizou porque a chama do fogão estava muito forte e porque me distraí com outras coisas. Nem toda a luxúria, gentileza e torpor do mundo o impediriam de fazer uma careta e dar uma gargalhada.

A moela não tinha salvação e lá se foi um pote precioso de gordura de pato. E enquanto eu punha uma panela com água, anis, cravo e canela para ferver e amenizar o cheiro de gordura queimada que grudou na casa toda, praguejando, amaldiçoando minha falta de jeito e franzindo o cenho, ele me puxaria pra dançar, diria baixinho que eu era sua bailarina, esqueceria da comida, voltaria a atenção para as pernas.

*Foi quem me chamou de Dadivosa pela primeira vez, muito, muito antes de o blog existir <3

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Post adiado é post perdido

Poivre Long

Quando cozinho ainda me acontecem coisas que não me acontecem quando não cozinho. Por mais sumida que andasse, dava sempre um jeito de fazer um chamego no Fogão.

Comprei um acessório de moer que se encaixa na batedeira e desembestei a fazer aquele ragú di carni que aprendi na Toscana, hambúrguer caseiro, inúmeras versões de quibe cru e cozido, rolos e bolinhos de peixe… Uma belezinha, peguei amor, nem ligo de ter de lavar o traste depois, não vivo mais sem.

Reencontrei a balança digital nos cafundós do armário, entre forminhas e formonas de bolo, anotei umas quantidades de ingredientes das receitas testadas pra poder compartilhar com vocês. A bateria acabou ontem, depois de três anos de serviços prestados (lembrar de levar as pilhas comigo para comprar novas).

Farofa de sêmola, já comeram? Derrete na boca , preciosa, tive essa fase e testei várias possibilidades: curry, garam masala, ervas, piment d’espelette, poivre long (na foto), pimenta caiena… em duas semanas acho que fiz uma com cada especiaria da despensa e todas funcionaram deliciosamente. Pelei a ponta da língua experimentando – faz tempo que o contador “Estamos há X dias sem acidentes” não sai do zero. Faz assim: derrete a manteiga em fogo baixo, junta a sêmola, tempera como der na gana, mexe-mexe-mexe-mexe, prova com cuidado e espera esfriar um pouco pra não pelar a língua.

Descobri que preciso de trilha sonora para fazer panquecas. E que uma reboladinha faz toda a diferença na hora de virá-las no ar sem a ajuda de espátulas, sucesso total!

Quiabo Grelhado

Andei numas de espinafre refogado com pinholes ou amêndoas por cima. E arroz de jasmim. E namorado. E filhote (o peixe, que o bebê novo da família está na barriga da Babi, vou ser tia de mais um menino, acabei de saber, estou feliz da vida). Toda a sorte de tortillas, omeletes e ovos escalfados, en cocotte, fritos, mexidos, revirados, pochés. Sopas e caldos, ragú de mil cogumelos (reencontrei também um saquinho de morilles e um de porcini secos), farofa com a farinha de mandioca Marlete que trouxe do Sul (bem fininha), quiabos grelhados (na foto), leite de coco, doce de banana com baunilha de verdade.

Desprovida de um álibi decente para a ausência desde que chamei um rapaz para consertar as encrencas tecnológicas desse blog, só posso dizer que bobeei, deu preguiça, fui cuidar da vida, ver um filme, trabalhar vários fins de semana e fazer nada em plena quarta-feira, livrar-me do maldito futon, escolher sofá, cortar o cabelo, conversar com a mãe, fazer minhas aulas de ballet, sair por aí, ouvir música e cozinhar com o Babbo, passar mais tempo desconectada, olhar dentro do olho e coisas do tipo. E a lista de posts por escrever só aumentava, incluindo a novidade que deixei no ar com a foto do avental, mas essa não posso prometer por enquanto, pois pelas razões acima acabei deixando o assunto meio de lado.

Post adiado é post perdido, a coisa toda fica meio fragmentada e sem emoção, esfria apesar dos instantâneos que jogo entre fotos de pés e coisas aleatórias e cantos da minha casa no Instagram (como @dadivosa, apesar de tudo), nas atualizações do Facebook do Blog ou permeando as ultimamente raras conversas pelo Twitter (como @dadivosa também, que minha tentativa de separar perfis foi infrutífera). Mas o Fogão e eu engatamos nova paixão, o que sempre me anima a sacudir a preguiça, lembrar da senha, renovar meus votos e resgatar, ainda que com um salpicado de coisas não ditas, o hábito de escrever aqui.

* Tem um creme/flan de gengibre prestes a aparecer por aqui, receita de dia dos namorados que deixei passar. Esqueci de fotografar. Mas como agradou e há pedidos de bis, Fogão e eu lembraremos de registrar o momento.

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Como fazer Guefilte Fish – receita de vó

No meu entendimento, cozinhar com a vó – própria ou alheia – é sempre uma dádiva, um privilégio. São algumas horas (porque comida de vó não se faz em 15 minutos) ali, trocando receitas, ouvindo e contando causos, tentando absorver de alguma forma toda aquela sapiência que só os anos da delicadeza oferece. Delicadeza e impertinência, que se vocês se tornarem íntimas o suficiente logo aparecem a audição seletiva, a teimosia, uma que outra bronca dirigida a você ou a um passante na rua.

Já perdi as esperanças de anotar a receita durante esses encontros. Em parte, para poder aproveitar melhor a companhia, em parte porque elas, as vós, não costumam ter medidas. É um tal de jato de vinagre pra cá, um punhado de farinha pra lá e sal até ficar bom que mesmo que você filme o processo e anote tudo ela vai fazer tudo diferente da próxima vez. E vai ficar bom igual.

É preciso muita generosidade para se compartilhar esse momento neta-vó. E na semana passada uma amiga me fez esse gesto assim, do nada. “Sábado vou na minha vó fazer guefilte fish, vamos?”. “Claro!!!”. Assim como as cucas de banana da Oma, o molho de tomate da Nonna e as esfihas da Vogra (que continua sendo, já que sogra é para sempre e não existe ex-vó), o guefilte fish de uma vó judia é só dela. Cada uma vai ter uma receita e sempre vai ser a melhor, a certa, a mais gostosa.

O dia começou cedo, com uma ida à feira com a amiga. Quis levar flores para a Dona Clara. Será que ela vai gostar destas? Como será que ela vai reagir à presença de uma estranha em sua cozinha? Será que ela vai gostar de mim? Quebrarei alguma louça? Quantas gafes serei capaz de cometer? Seremos amigas?

Apaixonei-me pela Dona Clara assim que a vi. Ganhei abraço e beijo. E ela me emprestou um avental, que na correria tinha esquecido de levar. Ela me mostrou a casa, as fotos da família decorando móveis e paredes e partimos para a ação.

O guefilte fish é um bolinho de peixe que se costuma comer na páscoa judaica, o Pessach. Dona Clara tinha na geladeira, já limpos, 4 kg de carpa e 4 kg de traíra. Também já tinha descascado umas 10 cebolas enormes. Está aí outra verdade quando se cozinha com vó: por mais que você avise que vai querer acompanhar tudo desde o comecinho e que não quer que ela tenha trabalho, ela sempre, sempre vai começar antes de você chegar.

Apesar de ter caído no dia anterior e de sentirmos o cheiro de cânfora da pomada que passou nos joelhos muito roxos, Dona Clara estacionou a bengala na bancada da pia e não nos deu descanso. Ignorou com cara de paisagem todos os apelos que fizemos para que ela se sentasse.

Peguei umas cebolas pra picar. Na mão mesmo, que o espaço era escasso. Enquanto retirava os machucadinhos e fazia os pedaços com a faca, ouvi Dona Clara dizer à neta: “Gostei dela, ela faz como eu quero”. Comecei a lacrimejar, um vexame, e passei a faca à amiga. Agora era preciso passar tudo pela máquina maravilhosa, pedaços de peixe e pedaços de cebola. Dona Clara ensinou como faz, com uma agilidade que transformou quase todas as fotos em um borrão. Sobrou esta:

“São dois ovos por quilo de peixe”, ela disse. Mas contamos e, em vez de 16, ela colocou 14. “Está bom.” Então tá. Um a um, ela quebrava os ovos em uma vasilha antes de adicionar ao peixe.

E a astúcia que sigo em casa provou-se mais uma vez bem útil, pois um dos ovos estava podre. “Tá vendo?” E desapareceu e reapareceu em um segundo, com um spray desses que se colam nas paredes do banheiro. Espirrou aquele perfume forte pela cozinha toda, para o espanto e tosse das duas testemunhas. Se o guefilte fish sairá com aroma do campo, não sabemos ainda.

Não consegui precisar a quantidade de sal e açúcar com que o peixe foi temperado. Mas sabia que chegava a hora menos agradável do dia: provar um tequinho daquela mistura de peixe cru, com ovo cru e cebola crua moída pra ver se estava no ponto. Não estava. Foram necessárias mais umas duas provas daquele negócio. Tempero nos trinques, era preciso adicionar a farinha de matzá.

 Pelas minhas contas, foi mais ou menos uma xícara, mas não se fiem. A consistência da massa é de almôndega molinha (por falta de referência melhor). Há quem faça o guefilte fish em bolinhas, tal como as almôndegas. Dona Clara faz tijolinhos, que embala em papel manteiga e congela até o dia de cozinhar no caldo de peixe. Conseguimos fazer com que ela sentasse para demonstrar como fazia os bolinhos.

 ”Ela é bem jeitosinha”. A essas alturas, eu já estava me achando.

Alternamos, amiga e eu, a feitura dos pacotes, que foram guardados no freezer “do quartinho”. Missão cumprida, fomos conversar um pouco. Dona Clara se trocou, pôs um batom vermelho e dei-lhe um beijo na bochecha, registrado em foto (se ela autorizar, coloco aqui). Fomos almoçar numa cantina e a deixamos na manicure. Não sem antes ganhar mais beijos e ouvir que eu podia ligar para ela, que já éramos amigas. E eu nem quebrei nada.

 

Daqui a pouco saberei o resultado desse guefilte fish. É que a amiga, em mais uma demonstração de generosidade e tolerância com a crença alheia, convidou-me a passar a primeira noite do Pessah em sua casa. Escrevo isso correndo para me aprontar, pois vou ajudar na cozinha também. E espero não cometer nenhuma gafe… quando avistar a mesa, pretendo não soltar um “Jesus Cristinho, quanta comida!”

 

Boa Páscoa e Chag Sameach a todos!

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Um ano bom

Há mais ou menos um ano, surpresos com a notícia e tristes por não estarem pessoalmente ao meu lado, pai e mãe ouviram o que cabia contar do episódio e, no lugar de opiniões e conjecturas, emitiram um conselho que  virou um lema,  quase um mantra: “Filha, cuida de ti.”

Fui pro Rio-de-Janeiro-gosto-de-você algumas vezes depois disso. Dancei, tomei banho de mar, andei pela areia e vi aquele por do sol, brega de tão lindo, sentada na pedra. Redescobri São Paulo da garoa e dos temporais de verão e fizemos as pazes depois do choque que foi voltar de Madri. Morei três meses num flat sem fogão, descobri que dava pra cozinhar macarrão no micro ondas (ficou bom!), vez por outra ia ler na piscina, comia e dormia pouco. Estava jururu e ganhei todos os melhores colos do mundo.

Encontrei apartamento, saí do emprego sem ter outro em vista, mudei-me trazendo caixas aos poucos com a ajuda de amigas. Não lembro que comida inaugurou o fogão, mas fiz uns pães logo no começo.  Só sei que na primeira leva da mudança, vieram uma mala de roupas, as panelas, cacalhadas de cozinha e livros de comida. Prioridades…

Pulei o Carnaval entre os blocos de rua do Rio, passei a Páscoa com a família, voltei a dançar: ballet clássico e jazz. Voltei também a dormir. Cozinhei pros amigos, que vinham aos poucos, para que coubessem com algum conforto. Botei tabasco demais num gazpacho de melancia e quase matei a convidada. Apesar disso, ela ainda é minha amiga. Tocamos violão, ouvimos música e rimos um pouquinho mais alto e até mais tarde do que o tolerado pelo vizinho de baixo, que ameaçou me denunciar pro condomínio.  Às vezes a gente quebra umas regras,  erra a mão na pimenta, passa um pouco dos limites e tudo bem.

Fui convidada a dar umas aulas de cozinha para gente que eu nunca tinha visto, aceitei, foi lindo, peguei  gosto pela coisa. Sou feliz de avental diante de um fogão, da máquina abrir massa, da batedeira. Se tinha alguma dúvida, ali ela foi embora. E compartilhar o que sei de cozinha além do que está neste site virou um projeto pra 2012.

Encantei-me com uma receita de bolo de laranja sem ovos, enchi-me de coragem, fui fazer, comi, estava ruim, esperei um tempo, pior, não era o que eu pensava ser.  Encantei-me por um moço, aceitei o convite, foi bom, deixou de ser bom, não era quem eu pensava.  Às vezes a gente se apaixona é pela ideia da coisa ou da pessoa e tudo bem.

Resolvi, de uma hora pra outra, fazer uma viagem mais longa. Passei três semanas na Suíça, dei um pulo em Madri. Saí com umas ideias e, chegando lá, tudo aconteceu diferente. E que bom. Comi, cozinhei, cozinharam pra mim, fui mimada, fiz amigos novos que parecia conhecer há 10 anos, conversamos por longas horas sobre aquelas profundezas que estávamos todos vivendo, todos mais ou menos na mesma situação, todos buscando viver de um jeito muito parecido: leve.

Mesmo tendo perdido mais da metade dos ensaios, resolvi participar da apresentação de fim de ano da escola de dança. E não uma, mas duas coreografias totalmente novas pra mim. Primeiro você tenta não cair, depois tenta não esbarrar nas colegas, depois certifica-se de que fez o movimento certo, depois sente a música, depois cuida pra não se emocionar demais e esquecer os passos, no fim dá tudo certo.  No pico dos ensaios, dançava 13 horas por semana, entre sapatilha e sapato de salto. Das pequenininhas aos adultos, turmas de iniciantes (como a minha) a bailarinos e bailarinas mais experientes, dançamos uns 130 alunos, mais ou menos. Na plateia, só gente querida de todos, gente que estava ali com olhos de amor e nem deu muita bola pros micos que pagamos. Foi um dia especial.

Peguei um projeto para fazer, contrato de três meses. Voltei oficialmente a trabalhar, desta vez de casa, no lar-doce-lar, meu home-sweet-office. Com alguma disciplina, arrumo tempo para ver os amigos, dançar, passear, ir ao cinema acompanhada ou comigo mesma, cozinhar alguma coisa de vez em quando, ler na piscina, ouvir música, ganhar os melhores e mais sinceros abraços dos filhos e filhas das amigas, ser paquerada (esses paulistanos andam mais atrevidos ultimamente) e rir muito do que vem acontecendo nos últimos dias.

Foi mesmo um ano de rir, de chorar, de chorar de rir. Fiz grandes mudanças, viajei, lembrei de como tenho sorte de ter esses amigos todos e de como a vida é uma delícia, me apaixonei por coisas e pessoas uma e outra vez, desapaixonei do que já não fazia sentido, coloquei a vida toda em perspectiva, deixei um trabalho sem ter outro, descobri que existe amor em SP, trabalhei arduamente nos últimos doze meses para estar aqui, viva e contente no dia do meu aniversário.

É, pai e mãe: eu cuidei de mim!

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