O gosto do outro

“Cada vez que me besaba me escribía un poema en la boca.” Fermín, o cozinheiro do livro Los Insaciables*, não apenas absorvia os amores e o mundo por seu aguçado paladar. Tinha também o dom de identificar os ingredientes que davam a eles, aos amores e às coisas do mundo, seu gosto particular e único.

Parece que tudo começou quando deu o primeiro beijo de verdade de sua vida. A boca de Clarita tinha sabor de “tostada con jamón y miel”. No mesmo dia, Fermín chegou em casa determinado a recriar o gosto de Clarita. Deu-se por satisfeito às três da manhã, quando à torrada com presunto cru e mel juntou uns grãos de pimenta, uma pitada de noz moscada, um pouco de pimenta vermelha esmagada, meia cebola caramelizada com vinho do porto e queijo fresco.

Ali mesmo, na página 16, uma pergunta-cisma de meses atrás volta a me importunar. Seria o primeiro beijo um caminho sem volta? Refiro-me a todos os possíveis primeiros beijos que se possa experimentar em dia de vida: o primeiro-primeiríssimo, obviamente, e também o primeiro de cada nova paixão, novo amor, atração antiga, namorico de verão, casinho despretensioso, amigo-com-quem-se-dorme etc. etc. etc..

Seriam eles transformadores do curso de uma vida, já que por coisa de segundos a criatura não passou debaixo daquele prédio, naquela rua, naquele instante em que cairia uma gigantesca bigorna A.C.M.E. em sua cabeça? Teriam os primeiros beijos um caráter irreproduzível, dado o conjunto de sentimentos e sensações provocadas, entre arrepios, derretimentos, toques, não-toques, contexto, temperatura, umidade, pressão e, sim, o gosto do outro? É possível rebeijar pela primeira vez a mesma pessoa e derreter-se igual?

Já achei que sim, já achei que não, decidi que não sei. O que sei é que Fermín continuou a beijar Clarita e a voltar pra casa para aprimorar a receita. Descobriu que para ralar a noz moscada devia usar uma faca de serrinha, melhorava o resultado. Juntou também um pouco de sálvia. E sei que Fermín preferia o sabor às palavras: “El sabor no engaña, te llega directo. No te deja un recado en el contestador ni te manda un mensaje en una botella, te toca el paladar y comprendes enseguida.” Saber-se pelo gosto, isso também sei, vale mais do que saber-se pelo que é dito…

Compreender o sabor, saber o gosto do outro é gostar na profundeza. É conseguir entender, num beijo no cangote ou lambida em qualquer parte, do que o outro é feito: fel, coragem, culpa, preguiça, virtude, noites em claro, filmes trash, humor ácido, baunilha, a cozinha (sempre ela), mel, chocolate, lichia… Está tudo ali, disponível pra quem quiser desvendar com o paladar os recônditos, saliências e reentrâncias da companhia da vez, tanto as do tipo imortal-posto-que-é-chama, quanto as do infinito-enquanto-dure.

Fica um pouco mais difícil saber o outro pelo gosto quando não se tem o paladar absoluto e a frieza de Fermín. Pode-se confundir as coisas e os sabores, como daquela vez em encontrei num moço que, nas mesmas coordenadas de longitude e latitude, tinha um sabor de sucrilhos com leite, tal e qual o de um amor antigo. Antes mesmo que ele me seduzisse com suas artimanhas, senso de humor, personalidade, gestos e carinhos, deixei-me conquistar. Pelo gosto que era do outro.

*Los Insaciables é o primeiro romance de Jakob Gramss. Comprei em Madri, em meio a tantos outros que me fizeram  ter de comprar uma mala extra. Estou lendo muito aos poucos, pois não quero que acabe. Mais ou menos aquele ‘não querer que acabe’ do primeiro beijo, ou de um abraço de despedida. 

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Tu me sabes…

- Tu me sabes.

- É, eu te sei.

(A gente se sabe e,  no momento, não careço de mais nada.)

Não é sempre que nos vemos, mas cada vez – como se fosse a derradeira, e um dia ela chega! –  é gostoso como sempre foi, como dar boa noite e bom dia num espaço de 3 horas, como aliviar a tensão de um dia esquisito ou dividir pequenas alegrias, partilhar segredos, receitas e planos, ganhar e dar colo, fazer macarrãozinho com manteiga RONI e parmesão, passar um café, olhar os livros trazidos da viagem, sussurrar palavras doces e chulas e bobagens e grandes questões da humanidade, o vazio do universo e o espaço infinito…

Pouco se me dá se não temos um do outro toda a atenção do mundo, se não somos vistos passeando de mãos dadas pela praça e que nossa história seja mais bem privada e não tenha um nome certo.  Ela é escrita a lápis, como as últimas receitas que registrei no caderno novo, em meio às incertezas que acolhi e respeito como parte da vida impermanente. Importa mesmo é se saber desse jeito e sentir juntos o aquecer e arrefecer das poucas e sempre últimas horas.

Não há poder, nem comando, nem chefia, nem submissão.  Também não há contrato. Ele não é só meu. Não sou só dele. Saio por aí, passo horas envolvida em outros temas, esticando-me, dobrando-me e permanecendo nas pontas dos pés sob a mira daqueles espelhos todos. Saio pra jantar longe dele, na maioria das vezes. Diz ele que tem ciúmes, eu rio e faço de conta que acredito.

Fosse um moço, não seria alto nem baixo demais, magro nem gordo demais. Misturado ao povaréu de São Paulo, andaria com as costas eretas, príncipe desencanado de camisa xadrez, calça jeans, tênis e uma barba de três dias.

Mas ele não é gente.  Não é gente, tampouco coisa, embora às vezes brinquemos que somos objeto um do outro.  Ele está mais para… por falta de palavra melhor… um signo, uma representação, um tema, uma ideia, vá lá…

Não se pode ter ciúmes de uma cozinheira eventual. Sobretudo esta, sobretudo por nos sabermos assim.  E se cuando cocino me pasan cosas, é sempre diante de ti e de tuas distintas materializações que elas acontecem, na minha casa e na de outrem. Sou feliz ao teu lado, fazendo sopa ou assando um bolo e nessas horas não careço de mais nada. Conheço tuas manhas e bocas, gosto do teu cheiro e sinto tua presença ao virar-me de costas, de avental e vestido. E tu me sabes como ninguém mais, Fogão.

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Muito mais fomes escondidas

Corei e sorri apertando os olhos quando ele me comparou à crème pâtissière cheia de pintinhas de baunilha que recheava um sonho parecido com esse da foto. Detalhes como país, idioma, autor e época da vida são irrelevantes para Leitor e Leitora, pois o que me arrebatou agora não foi a lista de similitudes sensoriais que se pode identificar numa comparação dessas.

O que me tirou o chão enquanto comia um sonho com café preto de manhã, sorria e corava e apertava os olhos ao lembrar do galanteio foi uma terrível constatação: se tenho tantas pintas e sardas na pele branca quanto essa crème pâtissière, se pareço ser salpicada de pontinhos pretos, então minhas fomes tem muito mais esconderijos do que eu imaginava. Elas não vivem só naquele cortiço em formato de coração entre o umbigo e o manúbrio. Elas estão pelo corpo inteiro!

Percebi que Dadivosa, que já esteve de castigo no cortiço, tem usado todos os tipos de fomes para me mandar recados. Descobri ser ela a líder da vez no comando de uma rede descentralizada muito eficiente (embora às vezes devastadora) de pequenos agentes. Há dias vem usando como mensageiros mudos a inapetência, a insônia, a falta de noção espacial (consegui cair enquanto estava parada, estatelando os dois joelhos no concreto), apela recusando-se a cozinhar qualquer coisa que não aquele macarrão com manteiga e parmesão e agora essa: enviou a fome-reminiscência que me deu esse estalo.

Minha cara nesse instante (fiz questão de checar no espelho, na exatidão que a gravidade do assunto exige) tem olhos de terror, sobrancelhas de preocupação e uma mordida no lado esquerdo do lábio inferior. Assusta-me saber que essas pintas todas podem abrigar fomes que desconheço, sentimentos não identificados e portanto perigosos em potencial. Preocupa-me saber que muito provavelmente venho lidando mal com essas fomes e devo ter feito alguma besteira. Mordo o lábio concentrada na determinação não de repassar todos os microacontecimentos dos últimos dias, mas de buscar as condições de tempo-espaço-temperatura-pressão para que a mistura de leite, gemas, açúcar, farinha, manteiga e fava de baunilha não desande nem vire outra coisa, para que resulte doce, sedosa, perfumada, agradável, gostosa, descomplicada e feliz como tem de ser… para mim e para quem a provar.

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Cuando cocino me pasan cosas…

… que no me pasan cuando no cocino.

Sou toda coração, baixo a guarda, desarmo-me, sinto-me forte e maleável como massa de pão e, ao mesmo tempo, impermanente, vulnerável e minúscula como um ovo de codorna pochê.

Posso confessar amores, derreter-me inteira, desnudar a alma, chorar na frente do moço ou da geladeira como naquele dia: descalça, pouco vestida, olhos pintados e avental azul-marinho. É que não passo de um amador: aquele que renova seu prazer, que ama uma e outra vez, que se instala voluntariamente a troco de nada no significante, tal e qual Barthes escreveu:

“El amateur (alguien que se dedica a la pintura, la música, el deporte y la ciencia sin espíritu competitivo ni ánimo de convertirse en un maestro) renueva su placer (amator: aquel que ama una y otra vez), no es ningún héroe (de la creación, de la representación); se instala voluntariamente (a cambio de nada) en el significante: en la sustancia inmediatamente definitiva de la música y de la pintura; su práxis, por regla general; no implica ningún rubato (ese robo del objeto en beneficio del atributo); es – o acaso será – el artista antiburgués.”

Enquanto mexo a polenta, vigio a zuppa di farro, tempero o frango, abro a fava de baunilha, asso as batatas, apronto um macarrão com manteiga e parmesão, apuro o molho de limão siciliano pro cabelinho de anjo a razão passa longe. Bem longe. Chega a perder o caminho de volta e me dá rasteira (sabe quantos novos hematomas acumulei nas últimas semanas?). E sem a razão, perco eu o caminho do meio e viro 100% sentimento, à mercê das zombeteiras fomes escondidas, essas fanfarronas. Experimento o inferno e o céu de todo dia, oscilo, beijo na boca, tenho vertigem, faço beicinho, choro, recebo e dou carinho, fico na ponta dos pés, queimo o braço no forno.

Sou amadora, aquela que ama uma e outra vez, e assim devo continuar, pois quando cozinho me acontecem coisas que não acontecem quando não cozinho.

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De ressaca a mal de amor…

… cura se escreve com C:

Choro

Chuveiro

Cama

Comida

Café

Colo

Cafuné

Cinema

Cabeleireiro

Cobertor

Carinho

Cócegas

Chá

Criança

Chocolate

Chimarrão

Chope

Churrasco (com amigos)

Canção

Capuccino

Campo

Correr/Caminhar

Cantar

Chamego

Conversa

Companhia (as boas, claro)

Cuca de banana

Chocolate

Cafuné

Cheiro

Capim-limão

Canja

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.

.

Comentários?

(atualizado com a ajuda dos leitores ;

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Fomes Escondidas

Manúbrio, mais uma daquelas palavras feias para coisas bonitas, é a parte superior do osso esterno, aquele “U” onde se encontram as clavículas.  A exatos 21 cm ao Sul do manúbrio e 16 cm ao Norte do umbigo – tive a pachorra de medir – descobri o esconderijo das minhas fomes.

M. F. K. Fisher, escritora de quem sou fã e que teve dois livros editados no Brasil traduzidos pela Nina Horta, de quem também sou fã, disse no prefácio de “The Gastronomical Me”: “It seems to me that our three basic needs, for food and security and love, are so mixed and mingled and entwined that we cannot straightly think of one without the others. So it happens that when I write of hunger, I am really writing about love and the hunger of it, and warmth and the love of it and the hunger of it…and then the warmth and richness and fine reality of hunger satisfied… and it is all one.” M.F.K. Fisher desossava fomes de comida, de segurança e de amor como ninguém. Estou bem longe disso, pois mal acabo de achar que descobri o paradeiro delas e ainda preciso comer muito arroz e feijão para tão somente entender quais e quantas são, que dirá discorrer sobre elas.

Costumo dizer que a comida é só uma desculpa, já que essas fomes, ainda que escondidas, são o fundo dos meus escritos. Porque, pra mim, são todos fomes, esses sentimentos tão difíceis de diferenciar. Angústia, a fome de encontrar solução praquela situação agoniante sobre a qual não se tem controle; desejo, a quase insaciável fome do outro;  ansiedade, a fome que faz parecer que o mundo vai acabar na velocidade daquela taquicardia; paixão, a fome que há tempos não vejo;  desamparo, a fome que provoca atitude de desespero fazendo o vivente refém de um vazio, destrutivo ou apenas pouco nutritivo encontro de uma noite só ou vários anos; solidão, a fome suportável;  medo, a fome que paralisa; saudade, vontade, excitação, raiva, muita raiva, não pertencimento, coragem, ternura, frustração.

Descobri o esconderijo das minhas fomes todas outro dia, enquanto tomava um sol e apoiava ali o livro da vez, sem me importar com a marca feita pela sombra. O X no mapa do pirata, o indicador de que ali foi enterrado o baú, é uma pinta marrom em forma de coração deitado bem na boca do estômago (onde mais????), como podem ver na foto. Mede 5 mm dos extremos Leste e Oeste e 5 mm do Oiapoque ao Chuí – outra vez parei tudo e medi, que fomes escondidas são importantes demais para deixar a preguiça vencer a precisão.

A preguiça, também ela mora ali, fome duas-caras que tanto pode ser uma delícia com ou sem companhia ou uma inércia nefasta daquelas que forma uma crosta sobre outra fome, a de ver o mundo lá fora. Ao lado dela, só uns olhos assustadores brilhando na escuridão, uma fome ainda sem nome, a que jogou Dadivosa num calabouço, de castigo, sem cozinhar ou escrever. Jogo aqui, sem pensar ou reler, fragmentos que me acompanham antes de pouco dormir e acordar às 4h30 sem motivo aparente. Meses de insônia e inapetência foram o preço pra encontrar o cortiço onde vivem essas desgraçadas fomes que,  com a ajuda de Dadivosa fugida do castigo, hão de me trazer de volta a fome que me é mais cara, a de escrever.

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Maktub em fogo brando

Passava das dez da noite de uma terça-feira quando quebrei a tampa da minha panela, uma Le Creuset. A famosa Creuza (como diz a Fer), de ferro fundido esmaltado, que deveria durar uma vida, de fundo abaulado, foi ao chão. Justo a favorita companheira do ano em que estive longe, com quem acertei a sopa de tomate mais gostosa, arrisquei com sucesso na lentilha branca, amaciei por horas a fio a carne ao molho de vinho, empapei o arroz de todo dia e o basmati com açafrão, desmaiei um frango ao curry, deixei derramar pelo minúsculo fogão algo que nem lembro mais. A mesma que ocupou preciosos quilogramas na franquia da bagagem por medo de perdê-la no furdunço da mudança.

Segurava as alças com um bom pano de prato seco e as duas mãos, na intenção de escorrer qualquer coisa na pia quando, na cena que revivo ainda hoje nas horas mais inconvenientes, a coisa toda balançou. Num reflexo baixei os braços esticados o mais possível, salvei a panela e o que havia dentro, mas derrubei a tampa, fazendo um estardalhaço no piso, uma rachadura medonha de fora a fora e uma lasca no esmalte que expôs a carne, digo, o ferro.

Eu quebrei a tampa da minha panela. Não, esperem. Na língua em que vivi naquele ano, diria que foi a tampa que me escapou das mãos, como explicado por este artigo aqui. O idioma espanhol é bastante mais preciso em incidentes assim… não há culpado, só fatos. E como sabem doer, esses fatos! Aconteceu de a tampa pular fora, ignorar a garantia vitalícia, quebrar o contrato e romper com a intenção de envelhecer junto da panela, não mais abafar o calor nem participar dos cozinhados. Em espanhol, a culpa não foi da panela abandonada, nem minha. Era pra ser assim.

Era pra ser, não era pra ser. Quando a perplexidade atrasou o grito, a amiga já estava a postos. Olhos arregalados apesar do sono e cansaço do dia longo, me abraçou em palavras enquanto ainda segurava nas mãos a panela quente. Você tá bem? Quebrou? Deve ter garantia, leva na loja, que chato, nem sei o que dizer, quer ajuda, você vai ficar bem? Salvou-se a panela? E agora, o que você vai fazer? Ai, quer dizer, que hora pra perguntar isso… não sei o que dizer. Certeza que não dá pra colar, não tem conserto, não tem volta?

Sem conserto, sem volta, nem uma chance ou pedido duns meses pra viver outras coisas. Com impressionante e devastadora frieza comunicou a decisão no sopetão da queda, covarde ou corajosamente, sem jogar na panela mágoa, raiva ou levá-la na marra ao chão. Ainda hoje posso ouvi-la dizendo aquele “não estou feliz“. É, fato. E como podem doer, esses desgraçados fatos!

Dizem que a maior dor/estresse que um ser humano pode passar depois da perda de um ente querido é a separação. Sinto a dor da panela separada da tampa, encostada na área de serviço, exposta ao pó, ao calor e ao temporal, recusando-se a voltar a sentir a chama do fogão. Estão as duas sob o mesmo teto, civilizada e estranhamente arranjadas em prateleiras diferentes há um mês e meio num lugar que passou de aconchego a silenciosa agonia, deixou de ser um lar. É, a panela passa por uma espécie de luto.

Ela tenta se revestir de coragem, esmalte intacto a olhos nus, embora vazia, errática e surrealista como se num pesadelo derretesse prateleira abaixo. Quer sair desse parafuso, já que mesmo sendo forte e se saber sobrevivente da queda, reconhece sua fraqueza e pede colo pros potes plásticos mais próximos, conversa com a frigideira vermelha e a chapa azul (desde sempre e por definição sem tampa), aconselha-se com outras panelas de ferro, maiores, essas sim firmes e fortes com suas respectivas tampas, algumas até deram cria a coloridas e fofas miniaturas que, na infinita sensibilidade infantil, chegam com abraços, beijos e brincadeiras. Percebe, então, que é tempo de pensar no que realmente importa e deseja a quem vê pela frente um Feliz Ano Novo, reconhecedora de que gentileza e carinho são como cozinhar, uma dádiva que faz bem a quem recebe e ainda mais a quem oferece. Simples assim, porque assim tem de ser.

Olho para a panela aflita e fantasio encontros com minhas avós. Sento a Vó Nair no sofá, passo hidratante em suas mãos tremelicantes e braços craqueladinhos de 80 anos, escancaro minha dor e ouço que tudo vai ficar bem, que pra todo pé cansado tem um chinelo velho e que em breve encontrarei outra tampa pra minha panela, pergunta se sou eu que vou dormir na casa dela neste fim de semana, nos acomodamos na cama de casal, ela ronca, passo a noite em claro a lutar contra os mosquitos. Ganho um abraço apertado da Vó Dinah e os óculos de gatinho, pretos como seus cabelos, marcam minhas bochechas, ela esbraveja contra essa tampa e todas as outras, reclama das fugidas do vô, me chama pra ajudar a fazer o almoço de domingo prum batalhão, tomamos as duas um remédio pra dor de cabeça e dormimos no sofá da sala com a televisão ligada. Ao acordar, estamos as três na mesma casa, tomamos café em silêncio, pois nada mais precisa ser dito.

Era pra ser, não era pra ser, vai passar, foi infinito enquanto durou, não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe, estava escrito, maktub. Repasso mentalmente edulcorantes clichês, na certeza de nada é tão simples ou de repente como parece. Feito lulas num imperceptível e dissimulado fogo brando, tampa e panela cozinharam por demais, passaram do ponto, infelizmente. Mas sempre aceitei o revés culinário como parte do aprendizado e passo aqui para contar à Leitora e ao Leitor queridos que essa panela dá sinais de vida e vai voltar a cozinhar, nem que seja só pra ela. Aproveito pra dizer que estamos bem, dentro de toda essa confusão, e que em 2011 estaremos mais presentes por aqui. Ah, e  Feliz Ano Novo!

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