11.27.08
Alles Gut? Alles Blau!
Tio Herbert, o Réba, costumava nos saudar em alemão. Perguntava se estava tudo bem - Alles gut?? - e os sobrinhos-netos respondiam, assim que aprendiam a falar, que estava tudo azul - Alles blau, Réba!!!
Para chegar na casa do Réba e da Dada, bastava atravessar a rua, ao lado da ponte sobre o rio que passa ao lado da casa da mãe. Rio esse que transbordava com vontade a cada chuva mais intensa, como aquela de 83, que desabrigou e flagelou muita gente, destruiu Blumenau e deu origem à Oktoberfest. Tal e qual todos que conheço da minha geração, acompanhava pela TV com olhos tristes e assustados , ajudava a separar roupas e latas de leite e o que se podia doar.
Em 83 (ou no seguinte, não lembro bem), tive novos coleguinhas na escola. Eles vinham do Vale do Itajaí, região mais castigada pela cheia. Tinham o olhar ao mesmo tempo triste e assustado e ficaram pouquíssimo tempo, apenas o suficiente para que seus pais reconstruíssem a casa e restabelecessem a rotina. Não tenho lembrança de como ficou a casa do Réba e da Dada nesse ano, nem como foi a enchente na vizinhança. Mas lembro do menino de cabelos quase brancos que não falava com ninguém, não se adaptou, não comia o lanche, só chorava.
Dessa vez o rio que passa ao lado da casa da mãe se comportou, em parte pelas obras de desaçoreamento e de reconstrução da ponte que caiu perto do Natal de 95. Em 95 a Dinahzinha tinha três meses. O Réba não vivia mais, a Dada já tinha ido morar com a vó, acho. Quando a chuva apertou, seguimos o ritual familiar de ligar uns para os outros para saber a altura do rio, perguntar se estavam bem, se já tinha entrado água na casa do tio Paulinho, do Ti Mito, quem já tinha ido ajudar a vó e a Dada. Em seguida, barricada no portão, massa para vedar as portas, erguer móveis, fazer três buracos num saco de lixo para vestir como camiseta, calçar botas de borracha e ir pra rua ajudar os vizinhos e vigiar o rio na madrugada.
O terreno do vizinho da direita é mais baixo, ali sempre enchia. E tínhamos uma rotina, um acordo tácito. Quando a água chegava no terreno do lado, iam todos lá pra casa. Eu punha água pra ferver, fazia o café para varar a madrugada, ajeitávamos comida num cantinho da mesa, as gavetas iam para cima da cama, as roupas para o maleiro, os sofás, freezer e geladeira para cima de latas de tinta reservadas exclusivamente para esse fim, normalmente só por precaução.
Mas em 95 a água começou a subir pelos ralos. Primeiro uma agüinha limpa, depois uma lama vermelha. Quando nos cobriu os pés, choramos todos. Não pelo estrago, e sim pela impotência diante daquilo tudo. Mas não havia tempo para chorar, teríamos muito trabalho pela frente, como o de desparafusar as grades do meu quarto para pular a janela e atravessar a correnteza com cuidado e a ceia de Natal pela metade nas mãos para o abrigo no sobrado do vizinho da esquerda. Acho que o pai fez uma oração, comemos em silêncio e cansaço, sem luz e sem água, na cidade ilhada pela queda de uma barreira na BR-101. Ninguém dormiu.
No dia seguinte, mais café e pão para começar a limpeza. Rodos, vassouras, cada um tirava forças não sei de onde, depois de uma noite em claro de muito erguer coisas, para ajudar a empurrar a lama para fora das casas. Quando o grosso da sujeira já estava lá fora, mais chuva. A água subiu de novo com mais lama, dessa vez só de pirraça, bem mais baixa, ainda assim assustadora. Os rapazes, primos, amigos, namorados, corriam de casa em casa para fazer o serviço mais pesado. Todos se revezavam para ajudar a vó e a Dada, que haviam sido devidamente instaladas no sótão sequinho e terminantemente proibidas de descer. E elas obedeceram, pois o perigo de escorregar na lama ou pegar uma doença era grande.
Depois do susto e do primeiro choro, o clima não era de festa, mas tampouco de tristeza. À medida que a água baixava, a gente se permitia fazer umas macaquices, ‘inticar’ uns com os outros para relaxar, levar mais um café para os tios e primos, rir com o Eduardo que acordou com a água batendo no traseiro, confraternizar como se podia, com pão dormido e margarina, que fosse.
Todos recuperaram o que foi perdido, as casa da mãe foi pintada por dentro e por fora, já não havia mais a marca de lama a dois ou três palmos do chão, carpetes foram trocados, móveis aos poucos substituídos, jardins replantados. A solidariedade a gente agradecia no olhar e nas gentilezas de sempre, quem sabe levando um bolinho recém-assado, ninguém se sentia muito à vontade para relembrar aquelas noites e dias.
Muito menos eu, que hoje acompanho assustada, de longe, as notícias. Dessa vez, menos pela TV e mais pela internet, pelo Diarinho e sites amigos, como o do Dauro e da AnaCris. Segurei as lágrimas o quanto deu, mas fraquejei quando vi que a expressão preferida do Réba e de tantos outros descendentes de alemães do Sul do Brasil tinha virado sinônimo de solidariedade e de uma fantástica mobilização informativa no http://allesblau.net/. O Leitor e a Leitora que quiserem ajudar podem encontrar informações ali.
Sei que em algumas casas o trabalho de limpeza e reconstrução já começou, que o pessoal está fervendo água para ao café e repartindo o pão com os vizinhos e que logo logo vai repintar as casinhas, replantar os jardins, agradecer com o olhar ou uma cuca de banana quentinha. Enquanto isso, toda ajuda é bem-vinda para que fique tudo bem, tudo azul. E para que, aos pouquinhos, eles recomecem a falar e ouvir Alles Gut? Alles Blau!




