10.14.08

O Café do Alfaiate

Publicado em at 11:43 pm pela Dadivosa

Utensílios afiados, apetrechos para medir, ingredientes que preenchem muitas e coloridas prateleiras, olhos bem treinados, mãos ágeis e ao mesmo tempo cuidadosas, um pouco marcadas por uma espetada aqui e uma queimadura acolá, a obra que toma corpo no calor de muitos graus e uma assinatura inconfundível e despretensiosamente aplicada.

Sempre falo que o sapateiro olha pro sapato, expressão que ouvi pela primeira vez em resposta ladina e desconcertante do namorico de uma prima quando ela, baixinho e com as bochechas vermelhas, avisou que o zíper de sua calça estava aberto em pleno almoço de domingo. 

De minha parte, vejo similitudes com a cozinha até no ateliê do alfaiate. Difícil não relacionar os ofícios e comparar facas com tesouras, xícaras e colheres de medida com fitas métricas, formas com réguas de molde, panos de terno com exóticas especiarias e condimentos, ferro quente com fogão, cheiro de roupa passada com o de pão recém-assado, a etiqueta pregada no cós interno da calça ou no forro do paletó com aquele galho de salsinha sobre o guisado ou o pauzinho de canela sobre o bolo de fubá.

E fica ainda mais difícil dissociar a cozinha do ateliê quando seu Mario exibe o resultado de seu trabalho, naquela rara mistura de humildade e orgulho, como a cozinheira que oferece uma provinha do quitute. Pede ao marido que prove a calça para ver se ficou boa, examina concentrado, bota o olhômetro para funcionar, tira um dedinho da barra como quem adiciona uma pitada de tempero e, finda a tarefa, agarra um papo e nos arrebata prum outro tempo, outro mundo, quase.

Faço umas fotos dele, conforme prometido na outra visita. Comento sobre a luz bonita que entra pelas janelas, ele acrescenta que o lugar tem paz e felicidade, penso comigo que são ao mesmo tempo causas e conseqüências de se fazer o que se gosta. “O diretor de uma empresa grande aí às vezes vem aqui só pra conversar…” Impossível não imaginar um senhor de engenho que se despe por uns minutos de todo poder e vai, feito criança, buscar conforto aos pés do fogão de lenha, quem sabe trocar umas palavras sobre o tempo ou sobre a vida com a sábia e discreta cozinheira da família.

“Outro dia ligou assim, no meio do dia, perguntando se podia vir aqui falar comigo. Falei que sim, sempre, é um prazer. E ele veio, sabe? Sentou aqui nesse banco, tomou um café, conversou meia horinha sobre qualquer coisa, depois falou que já estava melhor, que só precisava de uma pausa para conseguir continuar o dia, que tava difícil. A gente fica contente, né?”

A gente também, seu Mario, fica contente. Contente e confortável como na mais aconchegante cozinha, na qual são tantos os carinhos e detalhes que a gente já entra sorrindo sem saber o porquê… Tem a voz macia, o sorriso largo e os olhos doces do calabrês que aprendeu o ofício com o pai. O balé silencioso dos outros senhores que na sala ao lado pregam botões, costuram bainhas e vincam calças com um ferro potente. As prateleiras repletas de tecidos nacionais, ingleses e italianos. As imensas e pesadas tesouras. As fichas de clientes que voltam há mais de 20 anos ou, se não mais podem voltar, deixam em vida recomendações para que os filhos perpetuem a tradição. As paredes decoradas com um croqui amarelado de paletó, um calendário-brinde que não lembro se era de padaria ou de posto de gasolina, uma foto da Calábria acima do retrato dos filhos, um pedaço de couro gravado com dizeres em italiano sobre vender fiado. E tem o café…

Ah, o café! Seu Mario aponta a diminuta cozinha e faz o esperado convite. Pára uns instantes para abrir a torneira do filtro de barro e encher a parte de baixo da cafeteira. De um pote de plástico amarelo, tira a medida certa de pó. Com um isqueiro branco, acende o fogãozinho de duas bocas, daqueles que se pode levar em acampamentos. Pergunta se é com açúcar. É sem, por favor, que esse café é bom demais pra pôr açúcar. Na parede oposta à pia, uma prateleira abriga um aparelho de som de onde sai a voz do Charles Aznavour. ‘Que c’est triste venice’, como por encanto, parece uma canção alegre. Gosto muito dele, seu Mario, que música linda. Gosto de música boa, diz, mostrando os últimos CDs que trouxe da Itália, as únicas compras que fiz por lá, sorri. 

O líquido começa a subir e borbulhar.  Na minúscula cozinha, tento me equilibrar numa cadeira para conseguir registrar a cafeteira. Ela tem um site de comida, seu Mario, seu café vai ficar ainda mais famoso, diz o marido. Seu Mario sorri, não sei se ele é muito ligado em Internet. Faço também uma foto dos dois, lindos, sorridentes, abraçados, equilibrando as xicrinhas. Mostro a eles, ih, você cortou meu braço, mais uma. Tento enquadrar melhor dessa vez, bem ligeiro, para aproveitar o café fumegante. É cheiroso, forte, energizante, doce como o sorriso do alfaiate. 

Peço permissão para mais umas fotos. Com a tesoura, na frente dos ternos, mostrando a etiqueta personalizada. Ele termina de acomodar as duas calças no cabide, agradece pelas fotos, eu é que agradeço, pede permissão para me beijar no rosto, permissão concedida. 

“Essas roupas vão trazer muita prosperidade”, abençoa-nos, como quem diz que o bolinho vai adoçar a vida. Falo que da próxima vez levarei as fotos para ele guardar, ele diz que vai pendurar na parede. Penso agora em levar também essas palavras, para que ele saiba que a motivação desse texto não foi a foto, que ficou bem mais ou menos, e sim o amor com que exerce seu ofício de cozinhar roupas e o prazer com que costura um café.

30 Comentários Dadivosos »

  1. Vicki said,

    October 15, 2008 at 9:15 am

    Afe, nao sei se e a TPM ou minha atual crise profissional, mas chorei de ler esse texto… Um beijo,

  2. Ziza said,

    October 15, 2008 at 12:10 pm

    que delícia de texto…
    bjs

  3. Leilah said,

    October 15, 2008 at 1:07 pm

    Putz Dadi, esse texto me calou fundo.
    Quem no mundo consegue tirar um texto desse de uma visita a um alfaiate? Só alguém com uma alma tão grande que não cabe nesse mundo!!
    Lindo lindo lindo!!
    Obrigada!
    Muitos beijos!

  4. Fer Guimaraes Rosa said,

    October 15, 2008 at 1:09 pm

    Que texto maravilhoso e emocionante, Fer!
    Adorei ler, guardarei para reler. Obrigada.

    um beijo e abraço apertado,

  5. Dadivosa said,

    October 15, 2008 at 1:58 pm

    Meninas, fiquei surpresa e feliz ao ver que vocês também sentiram o quanto o seu Mario é especial. Acho que ele também vai gostar de ler seus comentários.
    Um beijo grande,
    Dadi

  6. Rubão said,

    October 15, 2008 at 6:33 pm

    Clap! Clap! Clap!

  7. Eduardo Luz said,

    October 15, 2008 at 8:41 pm

    Estou com o Rubão e não abro ! Texto espetacular ! Mas, cadê a foto do seu Mário ?

  8. Dadivosa said,

    October 16, 2008 at 11:37 am

    Edu, vamos ver se o seu Mario topa aparecer :)

  9. wicca said,

    October 16, 2008 at 11:10 pm

    arrepiei! emocionei…

    obrigada!

  10. Paula said,

    October 17, 2008 at 2:07 am

    Este texto está bárbaro. Todos são, mas este…enxerguei o rosto do seu Mario e senti o cheiro do café.

  11. Babo said,

    October 17, 2008 at 9:56 am

    Como diria um atabalhoado prof. de matemática: Seu Mário é uma figura 1, 3, 5, 7, …., grande e destacada personalidade.
    Mãe
    Vou pegar carona neste comentário para dizer que fiquei com uma pontinha de inveja do Sr Mario, afinal uma homenagem desta não é para qualquer um.Achei maravilhoso,verdadeira obra prima.Parabens!

  12. Glaucia Maria Gripp said,

    October 17, 2008 at 10:23 am

    Dadi, não tem jeito, quando termino de ler um texto seu, as lágrimas já
    estão rolando! É tanta sensibilidade que não tem cristão que resista! Ain-
    da bem que meu marido já saiu para a labuta, senão ia dizer: “como vo-
    cê é bobinha…!”. Continue pois a vida precisa disso… Glaucia.
    Em tempo: amo quando Babo (seu pai, não é?) deixa comentários. Você
    tem a quem puxar…! e a mãe também. Parabéns!

  13. Ana Rosa said,

    October 17, 2008 at 5:13 pm

    Amei seu texto, você escreveu com o coração, tem tanta emoção nele! Mande um beijo e um abraço afetuoso para o Sr. Mário, diga que ele conquistou uma fã que para ele será sempre anônima.
    bjs.
    ANA ROSA

  14. Letícia said,

    October 21, 2008 at 9:23 am

    Lindo texto. Também, com um personagem desses, né ;-)
    Vou engrossar o coro dos que querem fotos do seu Mario!

    Beijos!

  15. Lelé said,

    October 21, 2008 at 2:37 pm

    Realmente, escrever não é para qualquer um.
    Parabéns pelo sentimento que você consegue colocar nas palavras.

    Lelé.

  16. Teobaldo said,

    October 22, 2008 at 6:19 am

    Voce é uma escritora! Quando vai lançar seu primeiro livro? Quero estar lá! ;)

  17. David Rogerio said,

    October 23, 2008 at 5:14 pm

    Lindo blog. Adorei suas receitas. meu amigo Rogerio freitas de Miguelopolis adorou as suas bananas.

    Bjs David

  18. Michel said,

    October 30, 2008 at 10:59 am

    Tirar um texto desse porte de uma simples visita ao alfaiate é sublime.
    Sua vida deve ser cheia de cores e momentos.
    Parabéns.

  19. Alessander Guerra said,

    October 31, 2008 at 5:52 pm

    Dadi, ficou sublime e poético! Fazer com carinho é a grande diferença!

    bjs
    Alessander Guerra
    http://www.cuecasnacozinha.com

  20. Dadivosa » Fotos do Seu Mario (a pedidos) said,

    November 1, 2008 at 5:28 pm

    [...] Dadivoso esteve hoje com seu Mario, o alfaiate*. Levou as fotos e um impresso com o texto e os comentários de seus novos fãs. Emocionou-se e permitiu a publicação de sua queridíssima [...]

  21. Maria Eugenia Farina said,

    November 2, 2008 at 5:42 pm

    Ola Dadi,

    Sou Maria Eugenia, sobrinha orgulhosa do tio Mario, e ao ler seu texto alem da emoção que provei fiquei muito muito feliz por voce com tua sensibilidade conseguir colocar em palavras o que sentimos ao estar com esta pessoa tao especial que é este homem, o alfaite Mario Ciliberti. Posso acrescentar que ele tambem é um tio MARAVILHOSO, alias a esposa e os filhos dele tambem são deliciosos.

    Obrigada mais uma vez

    Abraços

    Maria Eugenia

  22. Dadivosa said,

    November 2, 2008 at 8:51 pm

    Pessoal, as fotos do seu Mario estão aí!

    Maria Eugenia, seja bem-vinda! Eu é que fiquei emocionada com seu comentário, estou aqui “co zói chei d’água”
    Um beijo

  23. Karla said,

    November 3, 2008 at 3:35 pm

    Adorei ler esse texto cheio de palavras tão doces e carinhosas, Dadi.
    Beijo

  24. Véia said,

    November 7, 2008 at 8:02 pm

    …li tudo com o maior prazer!

  25. marlene said,

    November 7, 2008 at 9:27 pm

    Adorei o texto,muito inspirador, vou relê-lo.

    Beijos!

    Marlene

  26. maria said,

    November 9, 2008 at 6:29 pm

    cheguei aqui por acaso,mas acabei por ficar e sentar…deliciei-me com a tua escrita e em especial com o sr Mário.que pessoa especial e que olhar tao espressivo…o teu texto transmite tanto carinho!que nos dias de hoje ja se torna raro.falta amor pelo proximo.gostei mto :))beijinhos

  27. Rê Gallo said,

    November 14, 2008 at 6:34 pm

    Dadi, lindo, lindo seu texto. Parabéns. Bjs.

  28. Nelson almoualem said,

    November 15, 2008 at 1:28 pm

    sr Mario faz parte da familia, fez meu terno de Casamento em 1.979, aniversario de 01 ano do meu filho que hoje esta com 26 anos, recentemente foi ao casamento dele. Ele eh nosso parente por afinidade, carinhoso, conselheiro e nos abencoa a cada terno. Te amamos muito, sr Mario-Familia Almoualem.

  29. marly brandão said,

    November 16, 2008 at 12:45 am

    Dadi,
    Cheguei aqui por acaso, sem querer, passeando. Ainda não conheço nada aqui, vou olhar agora. Agora não, daqui a pouco. Vou dar uma andada pela casa, respirar fundo, tomar um cafezinho, dissolver a emoção. Que lindo o seu texto! Que lindo o seu sentir! Que coisa rara e maravilhosa essa interpenetração de ferro e fogão, utensilhos de costurar e cozinhar. Parece uma música, parece um ballet… Ainda não sei quem você é - vou saber depois do cafezinho - mas sei que acabo de ler o texto de uma escritora de muita qualidade. Obrigada pelo presente.

  30. EU MULHER said,

    December 26, 2008 at 2:03 am

    Olá querida!

    Eu estou encantada com seu espaço e mais ainda com essa belíssima crônica.
    Você tem uma sensibilidade enorme. Amei de verdade.

    Um beijão e Feliz 2009!

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