10.14.08
O Café do Alfaiate

Utensílios afiados, apetrechos para medir, ingredientes que preenchem muitas e coloridas prateleiras, olhos bem treinados, mãos ágeis e ao mesmo tempo cuidadosas, um pouco marcadas por uma espetada aqui e uma queimadura acolá, a obra que toma corpo no calor de muitos graus e uma assinatura inconfundível e despretensiosamente aplicada.
Sempre falo que o sapateiro olha pro sapato, expressão que ouvi pela primeira vez em resposta ladina e desconcertante do namorico de uma prima quando ela, baixinho e com as bochechas vermelhas, avisou que o zíper de sua calça estava aberto em pleno almoço de domingo.
De minha parte, vejo similitudes com a cozinha até no ateliê do alfaiate. Difícil não relacionar os ofícios e comparar facas com tesouras, xícaras e colheres de medida com fitas métricas, formas com réguas de molde, panos de terno com exóticas especiarias e condimentos, ferro quente com fogão, cheiro de roupa passada com o de pão recém-assado, a etiqueta pregada no cós interno da calça ou no forro do paletó com aquele galho de salsinha sobre o guisado ou o pauzinho de canela sobre o bolo de fubá.
E fica ainda mais difícil dissociar a cozinha do ateliê quando seu Mario exibe o resultado de seu trabalho, naquela rara mistura de humildade e orgulho, como a cozinheira que oferece uma provinha do quitute. Pede ao marido que prove a calça para ver se ficou boa, examina concentrado, bota o olhômetro para funcionar, tira um dedinho da barra como quem adiciona uma pitada de tempero e, finda a tarefa, agarra um papo e nos arrebata prum outro tempo, outro mundo, quase.
Faço umas fotos dele, conforme prometido na outra visita. Comento sobre a luz bonita que entra pelas janelas, ele acrescenta que o lugar tem paz e felicidade, penso comigo que são ao mesmo tempo causas e conseqüências de se fazer o que se gosta. “O diretor de uma empresa grande aí às vezes vem aqui só pra conversar…” Impossível não imaginar um senhor de engenho que se despe por uns minutos de todo poder e vai, feito criança, buscar conforto aos pés do fogão de lenha, quem sabe trocar umas palavras sobre o tempo ou sobre a vida com a sábia e discreta cozinheira da família.
“Outro dia ligou assim, no meio do dia, perguntando se podia vir aqui falar comigo. Falei que sim, sempre, é um prazer. E ele veio, sabe? Sentou aqui nesse banco, tomou um café, conversou meia horinha sobre qualquer coisa, depois falou que já estava melhor, que só precisava de uma pausa para conseguir continuar o dia, que tava difícil. A gente fica contente, né?”
A gente também, seu Mario, fica contente. Contente e confortável como na mais aconchegante cozinha, na qual são tantos os carinhos e detalhes que a gente já entra sorrindo sem saber o porquê… Tem a voz macia, o sorriso largo e os olhos doces do calabrês que aprendeu o ofício com o pai. O balé silencioso dos outros senhores que na sala ao lado pregam botões, costuram bainhas e vincam calças com um ferro potente. As prateleiras repletas de tecidos nacionais, ingleses e italianos. As imensas e pesadas tesouras. As fichas de clientes que voltam há mais de 20 anos ou, se não mais podem voltar, deixam em vida recomendações para que os filhos perpetuem a tradição. As paredes decoradas com um croqui amarelado de paletó, um calendário-brinde que não lembro se era de padaria ou de posto de gasolina, uma foto da Calábria acima do retrato dos filhos, um pedaço de couro gravado com dizeres em italiano sobre vender fiado. E tem o café…
Ah, o café! Seu Mario aponta a diminuta cozinha e faz o esperado convite. Pára uns instantes para abrir a torneira do filtro de barro e encher a parte de baixo da cafeteira. De um pote de plástico amarelo, tira a medida certa de pó. Com um isqueiro branco, acende o fogãozinho de duas bocas, daqueles que se pode levar em acampamentos. Pergunta se é com açúcar. É sem, por favor, que esse café é bom demais pra pôr açúcar. Na parede oposta à pia, uma prateleira abriga um aparelho de som de onde sai a voz do Charles Aznavour. ‘Que c’est triste venice’, como por encanto, parece uma canção alegre. Gosto muito dele, seu Mario, que música linda. Gosto de música boa, diz, mostrando os últimos CDs que trouxe da Itália, as únicas compras que fiz por lá, sorri.
O líquido começa a subir e borbulhar. Na minúscula cozinha, tento me equilibrar numa cadeira para conseguir registrar a cafeteira. Ela tem um site de comida, seu Mario, seu café vai ficar ainda mais famoso, diz o marido. Seu Mario sorri, não sei se ele é muito ligado em Internet. Faço também uma foto dos dois, lindos, sorridentes, abraçados, equilibrando as xicrinhas. Mostro a eles, ih, você cortou meu braço, mais uma. Tento enquadrar melhor dessa vez, bem ligeiro, para aproveitar o café fumegante. É cheiroso, forte, energizante, doce como o sorriso do alfaiate.
Peço permissão para mais umas fotos. Com a tesoura, na frente dos ternos, mostrando a etiqueta personalizada. Ele termina de acomodar as duas calças no cabide, agradece pelas fotos, eu é que agradeço, pede permissão para me beijar no rosto, permissão concedida.
“Essas roupas vão trazer muita prosperidade”, abençoa-nos, como quem diz que o bolinho vai adoçar a vida. Falo que da próxima vez levarei as fotos para ele guardar, ele diz que vai pendurar na parede. Penso agora em levar também essas palavras, para que ele saiba que a motivação desse texto não foi a foto, que ficou bem mais ou menos, e sim o amor com que exerce seu ofício de cozinhar roupas e o prazer com que costura um café.



