08.19.08
Publicado em Recordar é viver às 8:12 pm pela Dadivosa

Foto: Toaster Museum
Torradeiras me lembram a Dona Gerda. Ela usava um exemplar de linhas retas, bege, onde cabiam confortavelmente seis metades de pão francês (nem por nada consigo me lembrar da marca, adoraria encontrá-la novamente, mesmo que numa foto). Caso algum conviva desejasse uma torrada mal-passada, podia resgatá-la antes dela pular usando uma pinça que mais parecia dois garfos, com três dentes cada, entrelaçados feito namorados.
Os lanches e cafés-da-manhã eram sempre sortidos na casa da Dona Gerda. Sortidos e perfumados pela fumacinha do mais tradicional pão de padaria tostado na hora. Sobre ele, manteiga com geléia caseira, manteiga com frios, manteiga com picles, ou uma delícia mezzo-carboidrato-com colesterol, mezzo-natureba que só vi por lá: manteiga com gersal.
Para um protótipo de apaixonada por cozinha, aquele lar era um festival de estímulos variados e deliciosos. Tinha o moderno, o tradicional, o quase-junk-food e o natural, tudo harmonizado numa combinação única, ‘irrepetível’ e inesquecívelmente querida.
Foi lá que vi o primeiro microondas, que mais parecia um rádio antigo. Foi lá que percebi, maravilhada, que as estações do ano podiam ser marcadas pelas frutas de época que viravam geléia caseira. Foi lá também que comi as primeiras comidas mineiras, vi os primeiros calendários de Natal feitos de chocolate e vindos da Alemanha e tive medo do poder duma faca elétrica da qual nem chegava muito perto.
Na hora de ajudar a pôr a mesa do café ou do lanche na casa da Dona Gerda, prontificava-me a levar os pratos e talheres, a cestinha de geléias, a manteiga, o gersal, os guardanapos de pano com suas argolinhas de madeira, o leite pelando e a enorme jarra de chá mate gelado. Só não me atrevia a cortar os pães com aquela faca massacrante, tudo menos isso! Mas arrumar os pães já cortados na cesta eu arrumava.
Eles não duravam muito tempo, não. De seis e seis metades, eram mergulhados na grade da imponente torradeira, que trabalhava por horas a fio, incansável e resignada, para gravar para sempre um perfume inconfundível na memória afetivo-gastronômica de todos que tiveram o privilégio de freqüentar aquela casa.
Estivesse ainda por aqui, convidaria Dona Gerda a colaborar com o Dadivosa. Mulher moderna à moda antiga que era, seria bem capaz ela mesma de criar seu próprio blog de comida. Tiraria de letra os meandros da internet, espalharia suas dádivas por aí e inspiraria um montão de leitoras e leitores com suas receitas e originalíssimas, cheias de tecnologia, praticidade, tradição e encanto.

Foto: Toaster Museum
Lembrei muito dela ao descobrir o Toaster Museum, que tem dos exemplares mais fofinhos, como este de porcelana pintada (que tem a cara da Casa da Chris), aos mais futuristas, de formatos diferentes, de madeira, cromados, de pé, deitadas e com cara de nave espacial. Ao passear pelas fotos, passeio também por minhas memórias e arrisco imaginar as histórias de lanches e cafés-da-manhã perfumados que essas torradeiras poderiam contar.
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08.12.08
Publicado em às 11:41 pm pela Dadivosa

Já vi gente se afogar com espinha de peixe. Embora não tenha eu mesma passado pela experiência, sei que o episódio é capaz de traumatizar. Dizem os antigos que nestas horas o líquido não ajuda, o certo é ter sempre por perto um bocado de pão, uma colheradona de arroz ou um punhado de farinha para ajudar a descer a lança que se prendeu na garganta.
É como o ardor da pimenta que, a contrário do que dizem os desenhos animados e o senso comum, não se aplaca com água nem cerveja. O líquido, neste caso, só faz espalhar a queimação por toda a boca. O iogurte neutraliza o tempero e restabelece um pouco a dignidade, mas na falta dele o incauto deve mesmo apelar é, novamente, para um naco e pão, um bocado de arroz, um tanto de farinha.
No intento de evitar que as lágrimas dos convivas sejam de pavor ou ardume e não de tanto rir, o jantar-urgente foi preparado com muito bem organizados filés de pescada branca, meticulosamente livres de espinhas e nadica de pimentas. O Leitor e a Leitora fiquem à vontade para adicionar outros temperos, na medida da malemolência e picância toleradas pelos integrantes de sua mesa. Tenho pra mim que uma pimenta dedo-de-moça saberia aqui muitíssimo bem, testarei em breve.
O peixe, por sua vez, também pode ser substituído (linguado, bacalhau fresco, robalo, o que sua vontade mandar), desde que muito asseado e sem surpresas, pois o colorido do prato não combinaria com o terror de presenciar o engasgo de um ente querido. Por via das dúvidas, seja ladino(a), cozinhe um arroz branco, deixe à vista uns pãezinhos e providencie um uma tigela com farinha
A receita a seguir, que já teve outras versões não registradas tão saborosas quanto, desta vez ganhou mais sustância com a companhia do grão de bico já cozido (aqueles prontos, no vapor ou na latinha, também hão de funcionar).
Ingredientes: (para três)
- 600 g de filé de pescada branca
- 4 dentes de alho esmagados
- 1 colher de sopa rasa de sal (ou a gosto)
- sumo de dois limões
- 1 colher de sopa de azeite
- 2 xícaras de grão de bico cozido
- 2 tomates grandes, bem maduros, em rodelas
- 1 cebola roxa em rodelas finas
- 1 pimentão amarelo em rodelas
- 200 ml de leite de coco
- 1 colher de sopa de azeite de dendê
- salsinha fresca a gosto
Como fazer:
- Ligue o forno para preaquecer.
- Lave o peixe em água corrente e deixe escorrer. Numa vasilha ou prato, misture o alho, o sal e o sumo de limão. Deixe o peixe marinar nesse tempero enquanto prepara o passo 3.
- Unte com azeite o fundo de uma travessa que possa ir ao forno e faça uma caminha de grão de bico. Sobre ele, arrume fatias de um tomate, depois a cebola e metade do pimentão.
- Acomode os filés de peixe na travessa, preferencialmente numa só camada. Sobre o peixe, disponha o restante do pimentão e as rodelas do outro tomate. Vai sobrar um pouco do tempero do peixe, pode derramar por cima de tudo.
- Despeje o leite de coco na travessa, pingue o azeite de dendê e leve ao forno, coberto com papel alumínio, por uns 20 minutos. Meu forno não é muito parâmetro para nada, de modos que convém dar uma espiadinha antes para checar se já está bom. Sirva com a salsinha fresca picada (ou, se gostar, coentro).
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08.04.08
Publicado em , às 12:02 pm pela Dadivosa
Simples e aromática, esta receita de liquidificador disputa com o Bolo de Milho Super Caseiro o posto de melhor bolo que já passou pela minha cozinha. Os ovos caipiras, a manteiga de boa qualidade, o iogurte feito em casa, a farinha de trigo especialíssima (tipo 00) e o clima finalmente um pouco mais fresco e úmido do domingo certamente contribuíram para o sucesso, mas a graça mesmo está na fofura e delicadeza da massa, que não exige prática alguma na cozinha.
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08.03.08
Publicado em às 12:34 pm pela Dadivosa

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08.01.08
Publicado em , , às 10:38 am pela Dadivosa

(foto: divulgação)
Nos almoços de família somos encarregados de levar o chanclich e o pão árabe. Sr. Dadivoso, conhecido por sua organização & método, esmaga o chaclich com azeite na proporção perfeita enquanto eu, embora conhecida por minha falta de jeito com facas, corto o pão em 2, depois 4, 8, 16 seções tal e qual bem caprichadas mini-fatias de pizza branca. Cortar o pão árabe para a família é minha missão na terra, diz a lenda.
Ao longo do tempo, fomos paulatinamente promovidos, acumulando o corte do assado e da torta/bolo/sobremesa, tarefas que também executamos com prazer e alegria.
O produto da foto, forminhas de torta individuais com jeito de fatias generosas, bastante prático e fofo, tiraria um pouco da graça, dos farelos e da folia desses momentos. Espero que uma coisa parecida para assar pão árabe em formato de fatiazinhas milimétrica e amorosamente cortadas não apareça tão cedo para desbancar a tradição familiar e me deixar sem propósito neste planeta! 
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