Sábado é dia de Cuca

De origem alemã, esse bolo-pão com cobertura doce é muito apreciado no Sul do Brasil, onde recebe a alcunha de cuca (ao que tudo indica, uma corruptela de ‘kuchen’).
De origem alemã também era a Vó Nair, exímia fazedora de variadas e aromáticas cucas atraidoras de visitas para o café no meio da tarde. Às vezes ela me deixava descascar, picar e passar em açúcar e canela as bananas da cobertura enquanto preparava a massa úmida. Por maior que fosse a quantidade de tabuleiros a preencher, por mais frenética que fosse a lida de preparar a massa, a farofa, o creme de coco com gemas e o café, a vó não se abalava.
A mansidão de seu andar já cansadinho persistia também na voz e no linguajar. Se o leite transbordasse, sujando todo o fogão enquanto ela tinha as duas mãos na massa (e eu era ainda muito pequena para que ela deixasse chegar perto do fogo), o máximo do mau-humor que deixava escapar era um estalar de língua e um ‘ai, o leite!’. Palavrões e xingamentos não faziam parte de seu falar.
Mas quando a cuca ficava pronta… ah, quando a cuca ficava pronta e o cheirinho de banana com canela, massa de pão fresquinha e coco queimado invadiam e alegravam o mundo ao redor, a vó ficava malina. Nessa hora, costumava proferir uma frase célebre, mezzo-trocadilho-mezzo-piada-interna. Empostava um sotaque alemão que não tinha, punha um olhar maroto e, usando o nome de algum filho, falava:
“Marquinho, não deixa o cuca aí!”
Quando a vó não estava ou não fazia cuca, a gente saía para comprar. Mas tinha de ser cuca verdadeira, não valia ser de padaria. De modo que, logo após o almoço, fazíamos pequenas viagens em busca de alguma ’Cuca da Alemoa’, num raio de 100 a 200 quilômetros de curvilínias estradas de terra batida. E ao chegar lá, após escolher uns quatro ou cinco pedaços de sabores diferentes, quando a moça loira de bochechas rosadas já havia desaparecido para dentro da casa estilo enxaimel, invariavelmente alguém a chamava de volta: “Moça, ô moça… não deixa o cuca aí!” E a moça ficava vermelha e ria um riso gostoso com a cumplicidade de quem também devia ouvir a mesma brincadeira desde sempre.
Ontem me agarrou uma saudade e fiz duas cucas: a primeira foi de ricota e mel (ensinada pela Carla Pernambuco em seu livro Carlota: Balaio de Sabores), depois repeti a massa para essa aí da foto, de uva preta. A receita, comentada, testada e aprovada, vem para a semana.
April 13th, 2008 at 11:13 pm
Uma das delícias da vida é poder recontar nossa história, nossas lembranças mais queridas. São elas que nos perpetuam e imortalizam pessoas que nos ajudaram a ser que somos, como nossos avós e pais. Lindo post. lembrei de minha avó, que fazia o melhor doce de banana que já experimentei. Um beijo.
April 14th, 2008 at 8:13 am
Dadi, estou ridno aqui com o Cuca aí… Vós são uma graça, né?
Em regra não sou muito chegada às cucas, pois as que vi são de banana ou maçã, e levam sempre canela, q detesto. Mas essa de uvas pretas aí, me atiçou o apetite… Adoro essas uvinahs suculentas!!!
Bjos!
April 14th, 2008 at 1:10 pm
ahh a da cuca da vó Nair….
eu fiz uma de banana na sexta feira, também garrou-me a saudade e não resisti ao delicioso sabor da verdadeira cuca.
=)
April 14th, 2008 at 2:23 pm
Aguardo ansiosamente por tão perfeita cuca!!!
Beijinhos
April 16th, 2008 at 12:09 am
Fiquei uma temporada no Sul do país…comia cuca todos os dia, de todas as cores e sabores…uma delícia… a sua ficou fantástica!!!
Beijos!!!
April 16th, 2008 at 1:10 pm
Ai, Dadi…nem fala das adoradas vozinhas que eu me derreto de saudades das minhas Maria e Clara…Elas moravam em duas casas na mesma quadra, na mesma rua, uma ao lado da outra…veja que delicia!
E ‘malina’ é expressão do tempo delas que eu ouvia a todo tempo…não que eu o fosse, veja bem..rs…os netos nunca eram..apenas as crianças das vizinhas.rs..
Ai, Dadi…nem falo mais…falo apenas que sua cuca de uva preta está formosíssima!
Um beijo muito fofo…
April 23rd, 2008 at 9:34 pm
Ops.. não tenho site… Mas, entrei pela Página do Gaucho, me bandeei pro c=Ceguinho do Churrasco e acabei chegando por aqui. Que maravilha… seu relato sobre a vózinha, tambem me remeteu a mais de meio século atrás, quando as vós (e tambem minha mãe, depois) faziam as cucas da minha infância. Há poucos dias, eu, minha esposa e uma das filhas falavamos como o tempo extravia a gente… e como os cuidados com uma alimentação “mais saudável” (farofa de cuca = açucar e gordura = bomba atomica, ahahahah) fizeram deixar de lado as cucas, o tempo passou, as receitas perderam-se, uma pena… Espero achar a receita da verdadeira cuca ALEMÃ por aqui… Te desejo sucesso e que continues espalhando felicidades, porque assim a terás. De Cerejeiras, Rondônia, um abraço.
April 27th, 2008 at 6:49 am
é de deixar uma gulosa que em eu com vontade de entrar pelo PC e dar uma mordidona! ficou linda.
beijinhos
April 28th, 2008 at 7:42 pm
Ah, minha avó Frida (que com esse nome só podia ser germânica) fazia tanta cuca gostosa pra gente… Saudade que deu agora!
May 20th, 2008 at 9:22 pm
hmmmm que coisa mais gostosa!
saudades, amiga!
June 22nd, 2008 at 11:05 am
Este texto informando a origem do bolo cuca irá me ajudar muito!!!!! com essas informações irei ganhar nota da professora.Muito obrigada .
September 2nd, 2008 at 4:02 pm
gostaria de receber a receita de cucade uva e de ricota e mel.
antecipadamente agradeço.
luena
November 28th, 2008 at 4:55 pm
Cadê a receita..???.quero aprender,por favor me ensina a fazer esta delicia. beijos lena