12.03.07
Um homem inebriante, inesquecível, cheiroso…

Morava numa cidade onde havia, em quase todo bairro, um indiano em cada esquina, indiano servindo para designar desde lojinhas de conveniência que vendiam leite com prazo de validade vencido, até portinhas quase suspeitas que entregavam fumegantes e aromáticas refeições em embalagens de alumínio, passando pelos movimentados restaurantes de paredes vermelhas com garçons de reluzentes cabelos negros e profundos olhos amendoados.
Variados foram os momentos felizes que tiveram o aroma das especiarias indianas como pano de fundo. No indiano da esquina dava um pulo naquelas horas em que me agarrava a vontade de bater um bolinho de cenoura e, no meio da função, descobria estar sem chocolate para a cobertura, pois o mercado mais próximo era longe demais para o adiantado da hora ou para o frio que fazia.
Era para o indiano da esquina que ligávamos quando não havia energia ou tempo para preparar o jantar, já que batatas fritas, sanduíches e pizzas de massa grossa não nos apeteciam, já havíamos recorrido ao chinês da esquina há poucas semanas e se era para comer algo em frente à TV, então que fosse gostoso, colorido, repleto de vegetais, com diversão para a boca e acalanto para o coração.
Foi num restaurante de paredes vermelhas e garçons de cabelo lustroso e olhos amendoados que, diante de um copo de lassi e em meio às palavras desconexas de uma frase desastrada, ensaiada e disfarçadamente corriqueira, ouvi um tímido e apaixonado eu te amo num idioma que não era o meu.
A paixão foi um pouco mais intensa e durou um tanto mais do que o ardido daquele frango ao curry que me arrebatou as pupilas gustativas e cujo fogaréu nem o lassi deu conta de abrandar. Vão-se os amores, ficam os sabores, já disse d’outra feita. E meu caso de amor com as especiarias indianas tem hoje mais anos de vida do que qualquer namoro ou casamento, daqui e d’alhures.
Pode ser pela conveniência de estar sempre logo ali, pode até bem ser pela alegria de receber à porta a pequena pilha de quentinhas variadas quando o estômago ronca e não há forças para ir ao fogão. Suspeito, no entanto, que foi a lembrança daquela noite no restaurante, da tão singela e ao mesmo tempo forte declaração de amor, da simpatia e cumplicidade dos garçons do cabelos pretos, do coração que pulava pela boca dormente de pimenta, do lassi geladinho a descer pela garganta, do sorriso bobo e das lágrimas que escapavam dos olhos de nós dois, que o curry ficou pra sempre marcado em minha memória gustativo-afetiva como ingrediente aconchegante, perfeito para comidas de alma.
Nostalgia é falta de memória, e enquanto revivo o momento para encontrar lá no fundo do baú as palavras que possam descrever a primeira vez que experimentei um curry típico, são mais nítidas as paredes, os barulhos, o tilintar dos talheres, os aromas e a ardência da língua do que a expressão facial, as palavras, a data, o bairro, a voz e o sotaque exato que me proporcionaram aquele momento tão caro. Se é verdade que o sapateiro olha pro sapato, a cozinheira em mim fez questão de lembrar com fidelidade a sensação do tempero, a despeito do que lhe disse o rapaz por quem estava enamorada.
O curry é feito homem inebriante e exótico, tinhoso e doce, gentil e cheiroso, forte e adorável, um ciumento incorrigível. Não dá bola pra chimango, acachapa a concorrência e faz soressair seus encantos diante de todo e qualquer outro ser vivente. Reina em minha despensa desde então, até pouco tempo somente na versão em pó. Foi uma rainha que me fez lembrar que tinha dele outra versão a testar.
Em formato de pasta, empreguei-o nesta receita simples e rápida para reconfortar-me, ao mesmo tempo com exuberância e leveza, às dez e tanto da noite de uma segunda-feira.
Ingredientes:
- 1 colher de sopa de azeite ou óleo
- 1 peito de frango em cubos
- 1/2 cebola picada
- 1 cenoura grande em rodelas finas
- 1 colher de sopa bem cheia de curry em pasta
- 200 ml de leite de coco
- sal a gosto
Como fazer:
- Leve a manteiga com azeite ao fogo até aquecer bem. Frite nela o frango até dourar.
- Acrescente a cebola e a cenoura, refogue até aquecer, misture a pasta de curry e acrescente meia xícara de água quente para dissolver. Ele vai tomar corpo e engrossar o molho lindamente.
- Quando a cenoura estiver macia, porém ainda al dente, adicione o leite de coco.
- Deixe ferver até engrossar como mais goste, prove, corrija o sal e sirva com algum arroz branco aromático (usei arroz de jasmim, polvilhei com gergelim preto). Ao comer, aproveite para relembrar o momentos simples e felizes do passado, depois agradeça pelo privilégio do presente e finalize imaginando as alegrias da semana vindoura.



scalabis said,
December 4, 2007 at 8:36 am
Maravilhoso post! Parabéns!
witchie said,
December 4, 2007 at 8:44 am
Adorei o post, tão bonito, tão evocativo. E partilho desse amor pela comida indiana, o meu mais recém-descoberto mas também apaixonado e curioso. O sonho actual é conhecer, também, a Índia, além da comida que dela nos chega.
Beijo *
ana de toledo said,
December 4, 2007 at 9:21 am
CLAP!CLAP! CLPA! Você é a melhor!!! Inigualável!!!!!!!!!Adoro!!
marcia said,
December 4, 2007 at 2:28 pm
Que texto delicioso, o perfume me levou de volta a Delhi. Adoro a comida indiana fora da India. Lá passei 39 dias comendo bolacha de água, maçãs e água mineral, depois do primeiro fogaréu no melhor restô de Delhi. Mentira, comi bem demais na Cashemira e em Goa. E quando dava sorte de ter restaurante chines no hotel, como em Amedabad por exemplo.
Fer Guimaraes Rosa said,
December 4, 2007 at 2:36 pm
Fer, never mind the curry! Nada pode se equiparar a essa sua prosa di-vi-na!
beijooooooo,
Lunalestrie said,
December 5, 2007 at 1:55 pm
Não tem nem o que dizer. Uma história deliciosa.
Faby said,
December 5, 2007 at 3:17 pm
Ô meu bem, eu não disse que vc ia curtir? Só que isso aí vicia viu beesha? rsrsrsrs… e carne de panela, em cubinhos com esse curry e gengibre ralado? AFFF MARIA!
Sua prosa continua linda, as usual
Bjuca!
Alessander Guerra said,
December 5, 2007 at 5:23 pm
Um grande tratado de paixão pela comida. E como algo tão simples e prático de fazer pode nos fazer tão bem, né?
até e parabéns pelo aromático e delicioso poema
Alessander Guerra
www.cuecasnacozinha.blogspot.com
sylvia said,
December 5, 2007 at 5:32 pm
Nao conhecia o seu blog ,mas me apaixonei pela maneira que escrevestes este
post , uma verdadeira declaração de amor a aromas e sabores e nada pode exemplificar melhor isso que os aromas intensos (como os olhos amendoados e profundos do garçom) da cozinha indiana. Adorei seu blog e vou linkalo ao meu para nao perde-lo de vista.
Rosane said,
December 5, 2007 at 9:21 pm
Dadivosa, me deliciei imensamente com o texto. Evocou-me tantas coisas, cheiros, sabores, olhares e declarações… ficaram as receitas. bjs.
Cláudia said,
December 6, 2007 at 12:30 am
Bela prosa com aromas e sabores, uma leve sensualidade no ar, e prazerosa por demais de ler, cheirar, degustar. Adorei seu texto e sua história, que parece que viajamos no tempo e encontramos pessoas diferentes e ao mesmo tempo tão como nós! Bjs.
Vivi said,
December 6, 2007 at 6:31 pm
Amei o blog, já está nos meus favoritos, o único problema é ve-lo de barriga vazia, da uma fominha rsrsrsrsrs
Chris said,
December 9, 2007 at 5:43 pm
Olá Dadivosa,
Há muito que eu acompanho o teu blog. Gosto muito do teu estilo, tanto de escrever quanto do que você faz. Sou uma antiga leitora de blogs de comida, mas sou muuuito preguiçosa para cozinhar, gosto mais de ver as receitas, os blogs, os livros, e de receber amigos.
Recentemente comecei a escrever um blog, por motivos totalmente distintos da cozinha, e, com isso, a navegar ainda mais pelos blogs de comida. Até que um dia desses eu fiz contato com a Laila do Comidinhas do Bem, e, alguma coisa nessa nova amizade me empolgou a cozinhar mais e a postar alguns comentários como este, elogiando os blogs que eu mais visito e admito.
Parabéns pelo blog, obrigada pelos momentos de diversão e um super beijo
Chris
www.chrises.com.br
Cammie said,
December 10, 2007 at 1:44 pm
Parabéns!! Adorei o post!
Coincidentemente, este fim de semana eu estava conversando com uma amiga australiana que veio morar no Brasil recentemente e falamos de comida indiana. Ela me fez uma pergunta que eu não soube responder… Alguém saberia onde em São Paulo pode-se encontrar bons produtos indianos para culinária??? Temperos, lentilhas e outras coisinhas… EU só consegui responder a ela que talvez encontrasse temperinhos no Santa Maria ou Santa Luzia… mas queria algo mais “focado”… please, me ajudem!!
Beijão e boa semana!
Eduardo said,
December 12, 2007 at 12:16 pm
hhehe vim aqui só para agradecer oa comentário no nosso recém-inaugurado blog !
Pode parecer pouco mas é uma honra ter a dona do blog que frequento quase diariamente nos dando uma força !
Teremos novidades nos próximos dias .. só esperar essas malditas provas finais ahhaa
beijos
Filipe said,
December 12, 2007 at 11:42 pm
Aproveitando a oprtunidade, venho agradecer pelo incentivo ao nosso blog. É ótimo receber elogios e sugestoes, e acatando a sua dica, com certeza vamos nos divertir com o site.
Como ja disse meu amigo, novidades estão por vir, entao nao esqueça de aparecer por la nesse final de semama!
Frequento tb esse belissimo blog, atraves do Eduardo, confesso, e adoro as ótimas fotos, receitas e descrições. Parabens.
Filipe do
Filipe said,
December 12, 2007 at 11:43 pm
do … www.messinplace.blogspot.com
Faby said,
December 19, 2007 at 11:31 am
Vamos almoçar juntas semana que vem? Eu, vc e Dani?
Bjo!
Faby
Paulucha said,
December 20, 2007 at 2:38 pm
Olá,
… passei por aqui para espreitar as novidades, como habitualmente e aproveito para lhe desejar um Santo Natal junto de todos os que lhe são queridos e um 2008 pleno de concretizações.
Saudações culinárias,
Paulucha.
www.allsogno.blogspot.com
Alessander Guerra said,
December 21, 2007 at 12:47 pm
Só passei para desejar-lhe um ótimo Natal e um 2008 pleno de realizações.
até
Alessander Guerra
www.cuecasnacozinha.blogspot.com
cris couto said,
December 22, 2007 at 2:40 am
dadivosa, adorei seu blog! parabéns!
uma braço,
cris couto
Virtual Chef said,
December 22, 2007 at 9:08 pm
…de passagem apenas para lhe desejar um Feliz Natal e um Fantástico Ano de 2008.
Beijo.
Davi Silva said,
December 23, 2007 at 8:24 pm
Olá!
Boas Festas e um Ano Novo espetacular!