Pois que comam brioches!

Uma lenda dá conta de que Maria Antonieta proferiu essa frase ao saber que o povo não tinha pão para comer. Historiadores, portanto, afirmam que não passa de folclore.

Pelo sim, pelo não, ontem tive uma vontade de fazê-los, malgrado meu já conhecido débil talento com pães. Munida da receita que veio com a forma de silicone cor de-rosa, fui para a cozinha (não sem muitos pontos de interrogação na cachola).

Para encurtar uma história longa e enfadonha, digo que falta-me uma balança de precisão (como medir dois gramas de fermento sem ela?) e talvez um curso intensivo de padaria. Fato é que deitei fora a massa, já na metade do andamento da receita, quando dei-me conta de que estava líquida demais.

Voltei atrás, intrépida que sou, recomecei e tratei de mudar tudo, fazendo adaptações e concessões e improvisos de forma que hoje não saberia listar as quantidades do que usei, exceto que a massa acabou por vingar inexplicavelmente.

O gosto não ficou ruim, tampouco maravilhoso como os brioches caseiros que já tive a oportunidade de comer. Devo ter infringido alguma proporção determinante, muito embora tenha conseguido produzir algo vagamente semelhante à delícia da padaria francesa.

Fica aqui um apelo, então, para o Leitor e a Leitora queridos e prendados. Algum de vocês teria uma receita (quase) infalível de brioches usando medidas caseiras de colheres e xícaras para recomendar?

Agradeço de antemão, pois pretendo fazer sair do terreno das lendas a forma cor-de-rosa repleta de bolinhas de massa dourada, perfumada e saborosa para inaugurar o utensílio como se deve.

O Senhor da Razão

Cozinhar tem o poder de provocar-me a perda da noção do tempo. Um bolinho para bater, um ramo de alecrim, uma vulgar pitada de sal e sou facilmente transportada para outras dimensões.

Sinto-me como a criança que brinca sem notar que escureceu, como o velho que joga dominó na praça até que sua véia venha lhe buscar chacoalhando o rolo de macarrão, ou como aquela moça que dança sozinha na festa, de olhos fechados, alheia ao sol que chega e aos poucos viventes que a observam.

Numa espécie de fluxo de consciência, quando tenho por companhia as panelas e colher de pau custo a seguir qualquer linearidade ou procedimento. Não raro me perco nas receitas e quantidades, emimesmada e distraída, ao misturar ingredientes com lembranças-planos-sentimentos.

As conseqüências variam bastante, como o Leitor e a Leitora mais assíduos já puderam acompanhar. Olvido-me de um ingrediente importante, ponho sal duas vezes ou nehhuma, perigo botar fogo no mundo, deito tudo fora e começo outra vez.

Muito embora extraia imenso prazer de abandonar-me à cozinha desse modo assim despretensioso e não-planejado, tendo como intenção nada além de produzir uma refeição simples e acolhedora, hei de admitir que qualquer cozinheiro, por menos sistemático que seja, necessita às vezes cuidar em marcar o tempo de cozimento de algumas coisas.

Ao ver esses dispositivos de cronometrar, com suas sinetas diferentes e formatos tentadores, namorava todos eles e chegava mesmo a escolher um bem lindo, mas relutava - consciente ou inconscientemente - em inserir nos arredores do fogão qualquer objeto que pudesse estorvar meus instantes jamesjoyceanos.

Mas rendi-me toda ao receber, de uma prima querida e astuta, o timer de ovinho que nos observa aí na foto.

De aviso discretíssimo, tem a sineta no volume certo para provocar um despertar tranqüilo sem quebrar o encanto dos devaneios nem fazer queimar o bolo.

Marca de um a 60 minutos, bastando para isso girar seu corpo sobre os sapatos num sentido que ainda não decorei se é horário ou anti-horário.

Tornou-se imediatamente um daqueles utensílios do coração e ocupa agora o posto de Marcador Dadivoso do Tempo – aquele que dizem ser o senhor da razão.

Sutiã Culinário

Mini-cocotte Le Creuset

O Leitor e a Leitora, se puxarem pela memória, devem ter lá suas exigências quando às marcas de determinados utensílios e ingredientes. Tenho para mim que, ignorando-se os modismos, a idolatria cega e as afetações, certos fabricantes têm mesmo um feitiço especial (além da qualidade superior, evidentemente).

Encanta-me o desenho dessas panelas de ferro fundido, robustas e imponentes, cujo exterior é pintado de azul, vermelho, laranja…

O exemplar da foto é uma miniatura, uma mini-cocotte em cerâmica que pode ir ao forno (jamais diretamente ao lume). Foi-me ofertada pelo Sr. Dadivoso e deverá dar início a uma pequena coleção da qual será o destaque.

É que, assim como aquela história do sutiã, a primeira Le Creuset a gente nunca esquece!

.*. Atualização .*.

No Brasil, ela pode ser adquirida aqui.

Casquinha de Siri

Casquinha de Siri

O Vô Juju, pai do pai, criava uns passarinhos em casa. Manons, bicos-de-lacre, canários-do-reino, curiós, acho. Lembro-me muito bem da lata marrom de pomada que ele passava nas patinhas deles, do anel de marcação que punha com cuidado nos “tornozelos” e da papinha que fazia para dar na boca dos filhotes (ou dos doentes, não sei ao certo).

A mesma paciência que tinha com os passarinhos, tinha com a madeira. Eu devia ter uns sete, oito anos quando ele fez aqueles mágicos carrinhos de boneca para presentear a todas as netas. A Vó nair costurou o pano da cadeirinha, em estampas miúdas diferentes, retiráveis e laváveis. E o carrinho, pintado de branco e todinho feito em madeira torneada, fazia com que eu me sentisse toda adulta nos incontáveis passeios com a boneca-bebê pela rua.

Outro afago do vô que me vem com freqüência ao coração é a carne de siri. Sentado conosco no degrau da porta da cozinha na casa da praia ele passava horas a destrinchar cascos e patinhas em busca dos nacos mais deliciosos de pura carne para nos dar na boca. Nesses momentos, éramos como os passarinhos dele, de certa forma. Pequeninos e famintos!

Por conta desse mimo, nunca aprendi direito a tirar o siri do casco. Fiquei com preguiça e, nas vezes que tentei não tinha o mesmo gosto, acabava metendo os dentes num pedaço de cartilagem ou da casca.

Pretendo aprender, sim, para poder mimar meu espetáculo de sobrinho e as outras crianças que, se tudo der certo, hão de vir por aí. Talvez no próximo verão com o Tio Renato, que faz uma sopa de siri inesquecível de gostosa.

Numa compra por impulso, resolvi testar um pacote de carne de siri “pré-destrinchada”. Fiz a casquinha da foto e não gostei.

O Leitor e a Leitora devem desconsiderar minha opinião, totalmente enviesada por conta da altíssima expectativa e da quantidade de memória afetiva embarcada. Descontado isso, acho que estava gostoso sim. Comi duas, até.

Ingredientes:
(para umas 12 casquinhas, mais ou menos)

  • 2 colheres de sopa de azeite
  • 1/2 cebola picadinha
  • 1 colher de sopa de pimentão vermelho picadinho
  • 1 colher de sopa de pimentão amarelo picadinho
  • 1 colher de sopa de molho de pimenta pronto (ou a quantidade que preferir)
  • 4 tomates sem pele picadinhos
  • 200 g de carne de siri
  • 4 colheres de sopa de leite de coco
  • sal o quanto baste
  • cheiro verde picado a gosto
  • queijo ralado para polvilhar
  • conchas de vieiras (como recipientes)
  • sal grosso para equilibrar as conchinhas

Como fazer:

  1. Ligue o forno para preaquecer.
  2. Refogue a cebola e os pimentões no azeite. Quando estiverem murchinhos, adicione a pimenta, um pouco de sal e os tomates.
  3. Apure o molho por uns cinco, seis minutos e acrescente a carne de siri. Quando ferver, adicione um pouco de água (se precisar) e o leite de coco.
  4. Mexa bem, adicione cheiro verde e desligue o fogo.
  5. Num tabuleiro, faça um caminho com o sal grosso, em altura suficiente para apoiar as conchas. Recheie-as com o refogado (não precisa untar), acomode-as sobre a cama de sal grosso e leve-as ao forno para gratinar.
  6. Sirva sobre montinhos de sal grosso ou uma colherada de purê de batata.

Tag Resoluções… ou Intenções Culinárias para 2007

O Daniel, do É isso, convidado pela Mawá, passou-me a incumbência de escrever cinco resoluções de ano novo.

Como não gosto muito do termo “promessa” ou “resolução”, fico com a simpática e sábia denominação que o Dauro usou para sua lista: modestas intenções.

Vamos a elas:

  1. Reduzir em 50% o número de mini-acidentes envolvendo forno quente, portas de armário, copos quebrados, facas e outros utensílios (perigosos ou não).
  2. Fazer a mudança para a casa nova e menos provisória até o final de janeiro, para poder receber amigos e família com mais conforto.
  3. Provar e empregar novos sabores, quem sabe até transformar em novo amigo pelo menos um de meus desafetos culinários.
  4. Incitar mais pessoas a libertar suas Dadivosas interiores. Calculo que a libertação de uma Dadivosa por mês seria uma boa meta.
  5. Manter o delicioso e saudável hábito de sempre cozinhar com prazer!

A quem interessar possa, deixo aberto o convite para contarem nos comentários - ou nas próprias cozinhas virtuais - suas Intenções Culinárias para 2007.

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Bolo de Laranja da Vó Nair

Bolo de Laranja da Vó Nair

Bati este bolinho com a mãe durante minhas semiférias, numa tarde de muito calor. Trata-se de um clássico que não pode faltar na praia desde que me entendo por gente, pois a Vó sempre o fazia à tarde, para comermos quando chegávamos com aquela fome acumulada de horas debaixo do sol e dentro do mar.

Tentarei detalhar ao máximo o processo, os ingredientes, temperaturas, seqüência e truques de forma que o Leitor e a Leitora possam reproduzir em seus próprios lares esta receita de deleitamento familiar.

Faço saber, todavia, que as diretivas que torno públicas a partir de agora de nada adiantarão se o bolinho for batido numa batedeira elétrica ou se o(a) cozinheira encontrar-se em estado de ranhetice ou alquebramento.

  • Caso seja acometido(a) por uma preguiça extrema, deixe para fazer o bolo outro dia. No meu entendimento, a falta de vontade para bater o clássico Bolo de Laranja da Vó Nair é um indício de que a pessoa não merece comê-lo. Pelo menos não nesse dia, não nesse estado de espírito. Aguarde um dia feliz para melhor saboreá-lo. (Não pretendo aqui fazer sermão contra aparelhos eletrônicos que muito facilitam nossa vida, até porque costumo utilizá-los com freqüência. Nem posso dizer que o bolo não vingará se for utilizado um suco industrializado, por exemplo. Mas posso garantir que o resultado não será o mesmo.)E se você realmente estiver com ímpetos de bater um bolinho, porque não seguir as instruções de fio a pavio? O prazer da confecção – e da degustação, certamente – será muito maior. E se você realmente estiver com ímpetos de bater um bolinho, porque não seguir as instruções ? O prazer da confecção – e da degustação, certamente – será muito maior.
  • Tampouco faça pouco caso da qualidade dos ingredientes. Prefira ovos muito frescos, manteiga e farinha de boa qualidade e laranjas-pêra de casca fina e brilhante, pois são as mais suculentas.
  • As condições lhe serão mais favoráveis se puder dispor de uma pessoa querida ao seu lado durante a execução, à guisa de companhia para bater as claras e/ou um bom papo.

Ingredientes:

  • 100 g de manteiga sem sal (pode ser margarina, a Vó usava uma ou outra sem problemas)
  • 2 xícaras de açúcar
  • 4 ovos
  • 3 xícaras de farinha de trigo
  • 1 xícara de suco de laranja (usam-se umas três ou quatro)
  • 3 colheres de chá bem cheias de fermento em pó

Para a calda:

  • 1 xícara mal cheia de suco de laranja
  • 3 colheres de sopa de açúcar

Como fazer:

  1. Conforme dito anteriormente, a execução, embora muito simples, precisa ser seguida à risca. Caso tenha um momento de rebeldia, peço-lhe que se exima de chamar de Bolo de Laranja da Vó Nair sua criação que poderá ter ficado deliciosa, mas, insisto, não será a mesma coisa.
  2. Isso posto, vamos às orientações. A primeira providência é tirar a manteiga (e quaisquer outros ingredientes) da geladeira. Isso porque, para a massa vingar e seus braços não fraquejarem, tudo precisa estar em temperatura ambiente.
  3. Ligue o forno para preaquecer.
  4. Unte uma forma grande de buraco no meio (ou várias pequenas, ou um tabuleiro) com margarina e polvilhe com farinha de trigo.
  5. Caso seus ingredientes já estejam em temperatura ambiente, pode separá-los. Sim, a Vó Nair, cujas receitas sempre davam certo, não se furtava de uma pequena dose de organização.
  6. Comece peneirando a farinha de trigo. Para facilitar o trabalho, despeje a quantidade certa num recipiente e, com a colher, vá despejando aos poucos numa peneira sobre uma outra vasilha.
  7. Faça o mesmo com o açúcar. Além de deixar a massa mais fofa esse procedimento simples e rápido facilita a tarefa de bater à mão.
  8. Separe as claras das gemas. As claras devem ser deitadas em recipiente muito limpo, diria imaculado. Deixe-as ali.
  9. Agora você vai espremer o sumo das laranjas. É importante deixar para a última hora sim, pois essa fruta oxida rapidamente e o gosto do bolo pode ser prejudicado caso o líquido tenha sido feito, digamos, há mais de 15 minutos.
    A Vó fazia assim: cortava três ou quatro laranjas ao meio e usava um espremedor daqueles de plástico para retirar o suco. Na falta de um, apenas apertava as metades com as mãos. Seja qual for o método manual escolhido, é importante coar para dentro de uma xícara para garantir que a quantidade correta foi atingida.
  10. Sua manteiga, em temperatura ambiente, deve estar com a consistência de pomada. Adicione o açúcar e, com a colher de pau, bata vigorosamente. Os dois ingredientes formarão primeiramente uma espécie de farofa, depois começarão a se amalgamar. O próximo estágio é um creme fofo e claro. Só então você poderá parar de bater. NO meu caso, foi coisa de menos de cinco minutos.
  11. Adicione as gemas e bata mais um pouco até incorporá-las bem.
  12. Junte a farinha, dando uma leve mexida com a colher. A massa ficará dura e não vai ligar ainda. Não insista em querer homogeneizar, nem se irrite com isso. Passe para o próximo item.
  13. Despeje aquele suco vistoso (faça um pouco mais e beberique você também, se quiser) na farinha. Agora sim! Você verá que, ao bater com a colher de pau, algo mais parecido com massa de bolo começará a se formar. Certifique-se de que sua mistura esteja livre de grumos e pelotinhas. Reserve.
  14. Se tiver companhia, a esta altura o(a) ajudante já deverá ter batido as claras em neve, usando um bom batedor de arame. Caso esteja só, pode abandonar a massa por uns instantes e entregar-se à mágica de afofar as claras, batendo-as em castelo.
  15. Agrada-me a expressão inglesa que indica a adição de claras em neve: fold in. Pois o movimento de incorporação dessa nuvem de claras é uma espécie de dobrar. Com o batedor de arame ou colher de pau e muito cuidado, puxe um pouco de massa do fundo e traga para cima. Repita por toda a volta da tigela, quantas vezes forem necessárias para que a massa e as claras virem uma coisa só: um creme fofo com leve aroma de laranja.
  16. Adicione o fermento e mexa com cuidado.
  17. Deite a massa na forma untada e enfarinhada e leve ao forno. O tempo de cocção dependerá muito de casa para casa. Recomendo, portanto, uma leve vigília. Pode aproveitar para lavar os utensílios, passar um café, conversar mais um pouco. Estará pronto quando, ao enfiar um palito bem no meio da massa, ele sair limpo.
  18. Espere o bolinho arrefecer um pouco, o suficiente para conseguir desenformar sem a ajuda de luvas ou panos. Com o garfo, faça alguns furos na superfície.
  19. Hora de preparar a calda: esprema mais algumas laranjas, misture com o açúcar e reserve.
  20. Não foram poucas as vezes em que a Vó me deixou aspergir a calda no bolo ainda quente. Digo aspergir mesmo, pois não é para verter, derramar ou despejar. A manobra ideal consiste em molhar delicadamente a superfície com o auxílio de uma colher de sopa. Assim mesmo, às colheradas, com vagar e atenção, para que a massa fofa leve o tempo que desejar para absorver a calda. Você verá que, quanto mais paciência tiver nessa hora, mais rápido o bolo conseguirá sorver todo o líquido.
  21. Esse bolo também deve ficar bom no dia seguinte, mas eu, particularmente, nunca o vi durar mais do que alguns poucos minutos.

P.S.: Sr. Dadivoso está em viagem de trabalho. E hoje, num chuvoso fim de tarde, cheias de saudade, perrita e eu fizemos a receita usando essa mini-forma de coração só para lembrá-lo de nosso gigantesco amor.