01.07.07
Bolo de Laranja da Vó Nair

Bati este bolinho com a mãe durante minhas semiférias, numa tarde de muito calor. Trata-se de um clássico que não pode faltar na praia desde que me entendo por gente, pois a Vó sempre o fazia à tarde, para comermos quando chegávamos com aquela fome acumulada de horas debaixo do sol e dentro do mar.
Tentarei detalhar ao máximo o processo, os ingredientes, temperaturas, seqüência e truques de forma que o Leitor e a Leitora possam reproduzir em seus próprios lares esta receita de deleitamento familiar.
Faço saber, todavia, que as diretivas que torno públicas a partir de agora de nada adiantarão se o bolinho for batido numa batedeira elétrica ou se o(a) cozinheira encontrar-se em estado de ranhetice ou alquebramento.
- Caso seja acometido(a) por uma preguiça extrema, deixe para fazer o bolo outro dia. No meu entendimento, a falta de vontade para bater o clássico Bolo de Laranja da Vó Nair é um indício de que a pessoa não merece comê-lo. Pelo menos não nesse dia, não nesse estado de espírito. Aguarde um dia feliz para melhor saboreá-lo. (Não pretendo aqui fazer sermão contra aparelhos eletrônicos que muito facilitam nossa vida, até porque costumo utilizá-los com freqüência. Nem posso dizer que o bolo não vingará se for utilizado um suco industrializado, por exemplo. Mas posso garantir que o resultado não será o mesmo.)E se você realmente estiver com ímpetos de bater um bolinho, porque não seguir as instruções de fio a pavio? O prazer da confecção – e da degustação, certamente – será muito maior. E se você realmente estiver com ímpetos de bater um bolinho, porque não seguir as instruções ? O prazer da confecção – e da degustação, certamente – será muito maior.
- Tampouco faça pouco caso da qualidade dos ingredientes. Prefira ovos muito frescos, manteiga e farinha de boa qualidade e laranjas-pêra de casca fina e brilhante, pois são as mais suculentas.
- As condições lhe serão mais favoráveis se puder dispor de uma pessoa querida ao seu lado durante a execução, à guisa de companhia para bater as claras e/ou um bom papo.
Ingredientes:
- 100 g de manteiga sem sal (pode ser margarina, a Vó usava uma ou outra sem problemas)
- 2 xícaras de açúcar
- 4 ovos
- 3 xícaras de farinha de trigo
- 1 xícara de suco de laranja (usam-se umas três ou quatro)
- 3 colheres de chá bem cheias de fermento em pó
Para a calda:
- 1 xícara mal cheia de suco de laranja
- 3 colheres de sopa de açúcar
Como fazer:
- Conforme dito anteriormente, a execução, embora muito simples, precisa ser seguida à risca. Caso tenha um momento de rebeldia, peço-lhe que se exima de chamar de Bolo de Laranja da Vó Nair sua criação que poderá ter ficado deliciosa, mas, insisto, não será a mesma coisa.
- Isso posto, vamos às orientações. A primeira providência é tirar a manteiga (e quaisquer outros ingredientes) da geladeira. Isso porque, para a massa vingar e seus braços não fraquejarem, tudo precisa estar em temperatura ambiente.
- Ligue o forno para preaquecer.
- Unte uma forma grande de buraco no meio (ou várias pequenas, ou um tabuleiro) com margarina e polvilhe com farinha de trigo.
- Caso seus ingredientes já estejam em temperatura ambiente, pode separá-los. Sim, a Vó Nair, cujas receitas sempre davam certo, não se furtava de uma pequena dose de organização.
- Comece peneirando a farinha de trigo. Para facilitar o trabalho, despeje a quantidade certa num recipiente e, com a colher, vá despejando aos poucos numa peneira sobre uma outra vasilha.
- Faça o mesmo com o açúcar. Além de deixar a massa mais fofa esse procedimento simples e rápido facilita a tarefa de bater à mão.
- Separe as claras das gemas. As claras devem ser deitadas em recipiente muito limpo, diria imaculado. Deixe-as ali.
- Agora você vai espremer o sumo das laranjas. É importante deixar para a última hora sim, pois essa fruta oxida rapidamente e o gosto do bolo pode ser prejudicado caso o líquido tenha sido feito, digamos, há mais de 15 minutos.
A Vó fazia assim: cortava três ou quatro laranjas ao meio e usava um espremedor daqueles de plástico para retirar o suco. Na falta de um, apenas apertava as metades com as mãos. Seja qual for o método manual escolhido, é importante coar para dentro de uma xícara para garantir que a quantidade correta foi atingida. - Sua manteiga, em temperatura ambiente, deve estar com a consistência de pomada. Adicione o açúcar e, com a colher de pau, bata vigorosamente. Os dois ingredientes formarão primeiramente uma espécie de farofa, depois começarão a se amalgamar. O próximo estágio é um creme fofo e claro. Só então você poderá parar de bater. NO meu caso, foi coisa de menos de cinco minutos.
- Adicione as gemas e bata mais um pouco até incorporá-las bem.
- Junte a farinha, dando uma leve mexida com a colher. A massa ficará dura e não vai ligar ainda. Não insista em querer homogeneizar, nem se irrite com isso. Passe para o próximo item.
- Despeje aquele suco vistoso (faça um pouco mais e beberique você também, se quiser) na farinha. Agora sim! Você verá que, ao bater com a colher de pau, algo mais parecido com massa de bolo começará a se formar. Certifique-se de que sua mistura esteja livre de grumos e pelotinhas. Reserve.
- Se tiver companhia, a esta altura o(a) ajudante já deverá ter batido as claras em neve, usando um bom batedor de arame. Caso esteja só, pode abandonar a massa por uns instantes e entregar-se à mágica de afofar as claras, batendo-as em castelo.
- Agrada-me a expressão inglesa que indica a adição de claras em neve: fold in. Pois o movimento de incorporação dessa nuvem de claras é uma espécie de dobrar. Com o batedor de arame ou colher de pau e muito cuidado, puxe um pouco de massa do fundo e traga para cima. Repita por toda a volta da tigela, quantas vezes forem necessárias para que a massa e as claras virem uma coisa só: um creme fofo com leve aroma de laranja.
- Adicione o fermento e mexa com cuidado.
- Deite a massa na forma untada e enfarinhada e leve ao forno. O tempo de cocção dependerá muito de casa para casa. Recomendo, portanto, uma leve vigília. Pode aproveitar para lavar os utensílios, passar um café, conversar mais um pouco. Estará pronto quando, ao enfiar um palito bem no meio da massa, ele sair limpo.
- Espere o bolinho arrefecer um pouco, o suficiente para conseguir desenformar sem a ajuda de luvas ou panos. Com o garfo, faça alguns furos na superfície.
- Hora de preparar a calda: esprema mais algumas laranjas, misture com o açúcar e reserve.
- Não foram poucas as vezes em que a Vó me deixou aspergir a calda no bolo ainda quente. Digo aspergir mesmo, pois não é para verter, derramar ou despejar. A manobra ideal consiste em molhar delicadamente a superfície com o auxílio de uma colher de sopa. Assim mesmo, às colheradas, com vagar e atenção, para que a massa fofa leve o tempo que desejar para absorver a calda. Você verá que, quanto mais paciência tiver nessa hora, mais rápido o bolo conseguirá sorver todo o líquido.
- Esse bolo também deve ficar bom no dia seguinte, mas eu, particularmente, nunca o vi durar mais do que alguns poucos minutos.
P.S.: Sr. Dadivoso está em viagem de trabalho. E hoje, num chuvoso fim de tarde, cheias de saudade, perrita e eu fizemos a receita usando essa mini-forma de coração só para lembrá-lo de nosso gigantesco amor.



Eliana Scaramal said,
January 7, 2007 at 8:45 pm
Dadivosa adoro ler suas histórias, sabe eu quando criança morava numa fazenda com meus avós, no interior de goiás e tenho também muitas lembranças cheia de sabores dessa época, o fogão a lenha sempre quente com lenha queimando e café fresco que perfumava toda a cozinha e aquele bolinho saindo do forno a lenha pra acompanhar, doces lembranças. O seu bolo ficou tão lindo nessa forma, adorei! Sabe eu nunca parei pra pensar que alguém poderia usar suco de laranja pronto pra fazer bolo, eu nem compro esses sucos, aqui só natural e olha que faço todos os dias, no almoço no lanche e no jantar, meu filhote não toma suco de caixinha nem de pó nem refrigerante acredita?! risos
miki said,
January 7, 2007 at 10:48 pm
dadi, que fôrma + linda!
e a historinha então? adoro historinha!
bjs, miki
Akemi said,
January 8, 2007 at 9:15 am
Já estava a sentir saudades de suas estórias!
E este bolo, meu Deus, que delicado! Deve ser muito perfumado e saboroso por certo!
Vou fazê-lo sem falta! Já estou a imagina-me comendo-o com uma xícara de chá do lado…hummmm
Cinara said,
January 8, 2007 at 10:50 am
Que bolinho mais lindo, Dadi! E com uma explicação destas, chega a ser uma receita épica! Adorei… Beijos!
Silvia Arruda said,
January 8, 2007 at 11:03 am
Dadi, suas histórias são deliciosas como seus quitutes…
Viu sua criação lá no Doce Casinha? Saiba que já fiz a coroa delicada mais de uma vez…
Este bolo deve ter aquele gostinho de vó, mesmo, né?
Bjo
Márcia said,
January 8, 2007 at 11:06 am
Dadi, adouuuro suas estórias, mas nessa aqui, o que mais me tocou foi a declaração de amor. Ai, estou tããão romântica esses dias…
Se chegar em casa com coragem,, baterei esse bolinho - mas não prometo, pq a jornada ainda vai ser longa, e talvez eu não chegue no clima dele…
Bjos, e que bom tê-la de volta!
Márcia said,
January 8, 2007 at 12:25 pm
Menina, vc é demais, heim?!
Eu estou aqui pensando com meus botões que eu jamais teria coragem de escrever desta forma para que se tornasse público, morro de vergonha.
Mas quanto ao bolo, vou fazer e mostrar a fotinho pra vc e olha que não costumo nem passar perto da cozinha, só que eu amo bolo e acho que devo ter a idade da tua avó, pq eu tenho umas “manias” meio parecidas com as dela… organizar tudo antes de começar a fazer o bolo, tirar tudo da geladeira, achar boas laranjas… Me chamam de chata, muito chata… rsssssss… Pronto, já falei demais, rs…
Bjo
Angelina said,
January 8, 2007 at 12:38 pm
Ola, é a primeira vez que visito seu blog. Adorei , como escreves . Por acaso és escritora ?
Márcia said,
January 8, 2007 at 1:53 pm
Ops, temos homônimas aqui…
Vou passar a assinar “Márcia lefouet” em todos os blogs amigos… kkkkkkkkkkkkkkkk
Bjos, Dadi.
Marina said,
January 8, 2007 at 4:22 pm
Gosto de bolo de laranja e já até tenho uma receita que sempre faço,mas qdo comecei a ler a sua receita, não consegui parar…é tão fofinho do jeito que vc fala, ou melhor escreve…rs
Vou testar o bolo, se for tão bão qto ao bolo de milho hummmmmmmm, esotu perdida!!rs
feliz 2007!
Marina T.
valentina said,
January 8, 2007 at 4:35 pm
Dadi,não conhecia de fio a pavio. que expressÃo legal.Blogar também é cultura.Este bolinho é lindo.amei. e estou anotando para os dias especiais.e vai no caderninho lindo que ganhei da fofa da Miki.Seguirei tudo a letra para que os braços não fraquejem e o bolo não desande.bjs.
Cris said,
January 8, 2007 at 4:59 pm
Dadi, você deveria lançar um livro com estas histórias recheadas de culinária, tão bem que maneja o vernáculo, impressionante, tem hora que preciso de dicionário! Beijos!
LUCIA said,
January 8, 2007 at 5:54 pm
ahhhhhhh essa sua receita… Você tem toda razão quando diz que o bolo fica diferente quando batido na mão. faço sempre que tenho disposição e fica com o sabor diferente e bem mais gostoso .
Maria Helena said,
January 8, 2007 at 8:34 pm
Adorei! Amo bolo de laranja e esse deve mesmo ser divino, digno de vó.
Beijocas!!!
Camila Lipsi said,
January 9, 2007 at 2:18 pm
Concordo com a Cris! Devias lançar um livro… Já leu “As mulheres frnacesas nào engordam”? Pois é, tens o mesmo estilo, de junto com a receita contar uma história (ou seria junto com a história, dar-nos uma receita?). AMEI! Adoro bolo de laranja… e esse é dos originais! Pq aquele q bate a laranja no liquid. com casca e tudo quebra um galho das lombrigas, mas amarga mto fácil.. Beijão e continue assim: tudibão!
Patricia said,
January 9, 2007 at 3:53 pm
Que bolo lindo, Dadi!!
Sou doida por laranja e esta receita está bem convidativa.
Adorei o formato de coração e a dedicatória ao Sr. Dadivoso. ;D
Márcia / Quarto de Melancia said,
January 9, 2007 at 11:01 pm
Dadi.
Arranjei um jeito de me desculpar. Farei o bolo em sua homenagem, ok?
Bjokas
Mariana said,
January 10, 2007 at 12:30 pm
ai que texto mais lindo! aliás, como todos, em especial o do vô e da casquinha… : )
e esse bolo hmmmmmm. deu vontade de tentar. eu ontem quase destruí parte consideravel da cozinha fazendo um almoço. entao aproveito para dizer a minha muy modesta resolucao culinaria para 2007, incentivada por voce e pela fezoca: libertar a dadivosa que existe em mim e conseguir preparar alguma coisa, qualquer coisa, que vá alem de macarrao e legumes no vapor. de preferencia destruindo apenas uns 10% da cozinha : )
roberta said,
January 10, 2007 at 6:48 pm
Olha, a receita é linda. E também é muito lindo da sua parte passar ela assim, tin-tin por tin-tin. Vou seguir à risca.
Abraço!
Brisa said,
January 13, 2007 at 4:26 am
Dadivosa, voce nao me conhece..mas passei por akih pra dizer que acabei de assar esse teu bolinho e a casa inteira (estou no 2o andar) esta com um cheiro maravilhoso!! O bolo esta lindo tb, soh faltando colocar o caldinho por cima..Hmmmm!!:))Soh nao posso tirar fotinha pois perdih minha camera mes passado e as outras da casa estao tomadas (filhos & marido)..
Obrigada por uma receita tao facil e cheirosa..e aposto que gostosa tb:))
Abs
Bri
Chá para bebês com tosse « O Recanto da Deusa Doméstica said,
May 8, 2007 at 1:03 pm
[…] você quer saber qual é o bolo de hoje? Foi uma adaptação do Bolo de Laranja da Vó Nair da Dadivosa. Eu já havia dito que adorava as receitas de bolo da Dadivosa, que queria experimentar […]
diogo said,
May 13, 2007 at 11:54 am
belo bolo favor enviar mais se possivel obrigado
Dadivosa » Bolo de Laranja da Preguiçosa said,
September 10, 2007 at 8:39 am
[…] Se desejar, faça aquela calda do Bolo de Laranja da Vó Nair. […]
Lenita said,
September 17, 2007 at 7:20 pm
MARAVILHA! Parabéns pelo espaço! A receita, o humor, os passos, o astral…AMEI!
Sou, também, uma jovem senhora, também, dadivosa e, ultimamente, minha dadivosa está ofuscando as demais em minha pessoa…Encontrei aqui…um “prato” ou melhor um campo salivador-fomentador para minha dadivosa e ela se regogizou nestas receitas.
A receita deste bolo, é isto mesmo, o astral, a energia da vovó é o melhor tempero. Afinal, é o que nossas dadivosas buscam, o amor aglutinador e universal! Sucesso!
Bjs de luz e paz
Lenita- Rj- Brasil
Ana Cristina Santos e Silva. said,
November 14, 2007 at 6:11 am
Olá
bom de bolo
Ana paula said,
November 28, 2007 at 11:36 am
Estava eu procurando uma receita de bolo de laranja na internet para atender o pedido da filhota de 4 anos, e também porque adoro cozinhar( fazer receitas e às vezes até me arrisco a criá-las)., quando me encantei com a sua. Na mesma hora imprimi e entreguei-me de corpo e alma( gosto de seguir à risca as receitas, sabe?). Realmente, tudo que vc descreve sobre o bolo, é verdade!
Maravilhoso, delicioso, explendido!!!
Todos aprovaram, Parabéns!.
bjs, fique com DEUS.
Ana
zeze said,
January 10, 2008 at 2:59 pm
fa;aram tanto desse bolo que sou obrigada a fazer, nao vou resistir prometo!!!!
andrea brito said,
January 17, 2008 at 5:21 pm
adorei essa receita fiz no mesmo dia que vi essa receita. Só queria saber se pode colocar a calda de laranja ainda quente no bolo também quente? E outra declare seu amor pois nada melhor do que ter um amor de verdade, achei lindo! Também gosto de fazer comodinhas para o meu marido.
Eliane said,
February 7, 2008 at 12:06 pm
Fiquei simplesmente encantada com sua maneira de contar uma receita simples e, ao mesmo tempo, tão especial!
Vou ver se faço ainda hoje. Parabéns!
Fabiana said,
March 29, 2008 at 1:10 pm
Adorei a sua história.Tenha certeza que também irei fazer esse bolo na minha cozinha,tenho certeza que ele é uma delicía!
Beijos
Débora Cprrea said,
April 16, 2008 at 11:35 am
Que maravilha de bolo! E olha que foi um dos primeiros que eu fiz, já que sou principiante!!! Escolhi tentar a receita pela história, afinal, bolo de vó costuma ser infalível! E eu não me arrependi! Divino!!!