12.15.06
Um aspecto bem festivo
Ao chegar das festas de fim de ano, o leitor e a leitora podem, num arroubo de nostalgia, tomar como inspiração a decoração de mesa proposta no livro Receitas do meu Lar, de 1948 ![]()
Ao chegar das festas de fim de ano, o leitor e a leitora podem, num arroubo de nostalgia, tomar como inspiração a decoração de mesa proposta no livro Receitas do meu Lar, de 1948 ![]()

Clafoutis é mais uma daquelas palavras cuja sonoridade me encanta tanto quanto os sabores da receita.
Enquanto inventava essa versão salgada da sobremesa francesa (que os puristas me perdoem, mas não resisti à vontade de inovar), sussurrava o nome repetidas vezes, pausada e alegremente: clá-fu-tí!
Assim como a ratatouille, o clafoutis já diz a que veio logo na palavra, com suas vogais de alegria e cor.
Originária da região de Limousin, a receita tradicional leva cerejas negras e pode ser comida morna ou fria. O nome vem do occitano (antigo provençal) clafotís, que significa preencher, lotar, encher. A palavra harmoniza, pois, com a coisa: uma massa com consistência de pudim, repleta de cerejas.
Ontem, ao avistar tomatinhos-cereja mui simpáticos, tive o lampejo: porque não testar uma versão salgada para o jantar?
E pus-me a matutar, pois não me lembrava muito bem da receita (é daquelas achamos que sempre saberemos como fazer). Cheguei a um resultado bastante satisfatório, muito embora acredite que da próxima vez farei modificações.
Compartilho com a senhora e o senhor as medidas exatas que utilizei, à guisa de orientação.
Ingredientes:
Como fazer:
Os tomatinhos eclodem lindamente, seja no forno, seja na sua boca, provocando uma mistura mui delicada de sabores e texturas. Da próxima vez, suprimirei o majericão, pois ele resolveu aparecer muito. Também tentarei adicionar noz moscada à massa.
P.S.: Publiquei uma receita de clafoutis de banana uns tempos atrás. Para encontrá-la, digite uma palavra-chave no quadrinho do canto superior direito e depois clique em “pode bisbilhotar!”.
Experimente acrescentar uma folha de louro à tradicional água e sal para o cozimento de legumes.
Você acentuará o sabor naturalmente, sem apelar para aqueles cubinhos de caldo que deixam todas as comidas com o mesmo gosto ![]()

Outro dia contei à leitora e ao leitor o quanto os homens da família são dadivosos, cada um a sua maneira.
As mulheres também o são, salvo que em maior número e grau, motivo pelo qual necessitarei de muitos relatos para dar conta de falar de todas, ainda que superficialmente.
Fascina-me também a capacidade que corre na família para dar nomes às coisas, colocando apelidos que sempre combinam e “pegam”.
Existe uma receita muito apreciada na casa de mamãe que, se a vista não me pisca, foi batizada por um representante masculino do clã dos Dadivosos.
O nome, bastante conhecido da família, agora estará nos domínios da rede mundial de computadores para ser reproduzido em outros lares também: bataturgente.
Assim mesmo, tudo junto, falando rapidinho: bataturgente!
A autoria é nebulosa, não sei precisar se o termo foi cunhado pelo tio Ricardo ou pelo Babbo. Fato é que harmoniza com a rapidez do preparo e tem um quê de “ai que fome, preciso de alguma coisa rápida e gostosa para deixar a barriga quentinha”.
Tampouco a quantidade de ingredientes é muito precisa. A personalidade dessa batatinha reside num toque final do preparo, sendo importante usar uma panela com tampa para o feito.
Ingredientes:
Como fazer:
Na casa da mãe, a bataturgente é acompanhada de bife acebolado, arroz branco e salada de tomate-alface, consistindo na clássica “comidinha urgente” preparada na hora, com ingredientes frescos e com gostinho de família reunida.
P.S.: Peço desculpas pela foto desmaiada, que tão pouco valoriza as batatinhas. Hesitei muito em publicá-la, mas creio que sirva pelo menos como ilustração do formato.
Não tenho palavras para descrever o almoço com a Fer e com as jovens-senhoras-modernas que participaram do encontro, a saber:
O leitor e a leitora queridos devem conhecê-las quase todas de minhas recomendações de leitura. Pois reforço a dica, que os relatos do encontro estão um mais querido do que o outro.
A mãe da Fer, Dona Odete, me deixou com o coração quentinho, pois me lembrou um pouco a Vó Dinah, com seus cabelos pretos e seus olhos de amor. Agarrou-me uma emoção imensa!
Obrigada, queridas, pelo dia feliz!!!!
Aquele legume injustiçado que atende pelo simpático nome de chuchu tem em mim uma fã.
Sim, querida leitora e querido leitor, eu acredito que o fruto dessa trepadeira tem gosto. É delicado, bem verdade, mas não deve ser menosprezado!
Até porque, sendo a palavra também um apelido carinhoso, sinônimo de “queridinho”, “preferido” e “amorzinho”, entre outros carinhos, a coisa não poderia ser ruim, não é mesmo?
A receita a seguir é um acompanhamento aprazível e versátil, que fica pronto em menos de uma hora, não exige vigilância e tem um efeito visual bastante belo.
Poderia ter usado cenouras, batatas, mandioquinhas, ervilhas, vagens, brócolis, couve-flor… mas escolhi o chuchu por seu sabor sutil e por suas baixíssimas calorias, característica muito em voga neste período que antecede as festas.
O leitor e a leitora não devem dar crédito àquele tão démodé preconceito contra o machucho, pois até mesmo o Sr. Dadivoso, até então inimigo declarado do legume, não só aprovou como pediu mais de minha recém-inventada iguaria.
Ingredientes:
Como fazer:
.*. Uma dica Dadivosa .*.
Muitas senhoras e senhores têm asco daquela viscosidade que se desprende quando descascamos o chuchu. Eu evito o incômodo trabalhando o legume sob um fio de água corrente. Experimente! Suas mãos sentirão a diferença.

Apetece-me batizar meus cozinhados, sobretudo quando parecem que sairão de um jeito e o destino (meu eufemismo preferido para o atabalhoamento) dá conta de modificar o resultado, às vezes até produzindo algo melhor do que o planejado.
Foi assim com minha primeira flousse, a sobremesa que era para ser um flan mas ficou com jeito de mousse.
Decidida a repetir a feita, desta vez com mais sabor, para elaborar um docinho leve e sem açúcar para fechar o domingo, fui preparar um pequeno agrado para o fim do dia.
Fiquei tão faceira com a cor, da textura e o sabor de minha flousse que, após batizá-la, decidi que ela é forte candidata a se tornar um clássico de minha cozinha.
O leitor e a leitora podem substituir, nesta e noutras receitas, os itens marcados como “diet” pelos ditos “normais” sem medo de errar. As quantidades equivalentes de açúcar, tentarei estimá-las todas à guisa de orientação.
Ingredientes:
Como fazer:
P.S.: Notem que o topo da flousse está, por assim dizer, um pouco descabelado. É que a gelatina teimou em agarrar-se à tampinha em formato de coração, exigindo de minha parte uma operação cirúrgica para separá-las. Nem a tampa nem a gelatina saíram machucadas e a flousse teve alta essa manhã.

Não existo sem antes sorver um canecão de café preto. É um prazer inenarrável ao qual me dedico todas as manhãs. E o ritual fica ainda mais gostoso quando passo o café na hora, direto para dentro de uma das minhas canecas preferidas.
Com as constantes mudanças, algumas quebraram-se, outras decidiram por ficar onde estavam. É que às vezes, ao contrário de mim, elas criam raízes, apegam-se aos lugares e não arredam o pé, digo, a asa.
As mais queridas de todas são as da Unicef. Não só por serem lindas e funcionais, nem só por serem produtos de uma instituição de ajuda às crianças. O motivo principal é o fator Dona Gerda.
Para encurtar um pouco a conversa, ela foi apresentada à mãe por uma amiga em comum. Filha de alemães, casada com um militar brasileiro, tinha três filhos. A mais velha, Érika, o do meio, Martin, e a caçula-temporã, Mariane, que nasceu no mesmo dia e ano que eu.
Brincávamos que éramos gêmeas-separadas, que tínhamos duas mães, chamávamos uma à outra de “mana”, passávamos a noite inteira conversando, íamos juntas à praia, brincávamos de escritório e salão de beleza…
Mas eu estava falando mesmo era da Dona Gerda. Ela era Bandeirante, condecoradíssima, cheia de flâmulas, distintivos, medalhas e trevos da amizade. Eu achava aquilo tão lindo! Não intentava ser Bandeirante, sabia que aquela disciplina toda não combinaria comigo, mas gostava de ver os eventos e cheguei a ir a algumas reuniões junto com a Mariane.
Além das intensas atividades ligadas ao bandeirantismo, Dona Gerda cuidava de um quiosque da Unicef. Se a vista não me pisca, ela era uma espécie assim de central de abastecimento e controle. Em outubro/novembro chegavam os catálogos e semanas depois começavam a aportar as encomendas. Caixas e caixas de papel de carta, camisetas, joguinhos educativos, enfeites, agendas e as canecas. Ah, as canecas!
Foi ela quem me deu a primeira, com estampa de arabescos mui delicados, desenho feito por uma moça da Turquia. Um tempo depois, já maiorzinha, todo ano eu comprava uma. Poucas vezes falhei, fosse porque estava longe e não achava um quiosque da Unicef, fosse porque os modelos não me apeteciam.
Dona Gerda foi uma influência poderosíssima em minha personalidade cozinheira. Senti-me deveras importante quando, aos nove anos, ela me pediu que escrevesse os rótulos para suas geléias de pitanga.
E ela era brava, mas nem ralhou comigo quando quebrei a jarra de vidro de sua cafeteira. Acho que ela já sabia que meus ímpetos de bater bolinho seriam mais fortes do que o medo de destruir a cozinha ![]()

Dia desses, ao fazer uma escavação arqueológica em minha bolsa, deparei-me com um pedaço de papel coalhado de garatujas em caneta cor-de-rosa. O título dizia “Pão de Ervas - Andréa Espínola - Rainhas”.
Lembrei-me que, meses atrás, numa de minhas diversas visitas diárias ao Rainhas do Lar, havia anotado a lista de ingredientes muito às pressas e o modo de fazer assim pela metade, pois queria muito fazer a receita.
Não sei por que raios não imprimi ou copiei pro computador, mas lembro-me muito bem da decepção que me assolou quando constatei que meus tabletinhos de fermento já tinham cruzado Cabo da Boa Esperança. Não pude fazer o pão e o papel anotado ficou lá, no buraco-negro de minha bolsa, à espera de um milagre.
Pois sua hora chegou! E deste dia não passaria, pois tinha comprado fermento fresquíssimo e até uma farinha especial para pães. Lembrei-me de que a receita era grande, então resolvi fazer somente metade. A original você pode ver aqui. E aqui está o relato da Rainha Faby.
Preciso lembrar de evitar fazer meias receitas… não pela matemática, com a qual nunca tive problemas, mas pelo meu já conhecido avoamento. Tudo porque, após deitar os ovos, as ervas, óleo, sal e açúcar no copo do liquidificador, um telefonema-convite para “comer um japinha” com a amiga querida me fez interromper temporariamente a feitura do pão.
Na volta, com a barriga quentinha, o coração contente e a vontade de terminar a receita, recomecei a lida de onde havia parado. Peguei o líquido de dentro da geladeira, pus no copo do liquidificador, juntei o fermento esfarelado, a água morna, bati tudo e incorporei na farinha peneirada.
A mistura ficou muito mole e suspeitei de que algo havia dado errado na proporção. Mas é claro! “Olvidei-me de cortar pela metade a quantidade de água!”, exclamei em voz alta, arriscando ser advertida por violar a lei do silêncio.
O que seguiu, amiga leitora e amigo leitor, foi uma sucessão de eventos acelerados e desconexos. Esfarelei o resto do fermento, juntei a outra metade dos ovos e até hoje não me lembro se completei a proporção de farinha. Só sei que não completei a outra metade do óleo, coisa que me lembrei quando o pão já estava no forno e era tarde demais.
Levei a massa (que é linda, por sinal) a crescer. E ela cresceu. E cresceu. E antes que a danada se alastrasse por toda a cozinha, acudi prontamente com uma outra forma menor, deitando nela um terço da massa.
Levei os pães ao forno, mas não há meio de precisar quanto tempo ficaram lá, pois meus olhinhos já estavam pesados de sono. Só sei que em determinado momento desliguei o fogo, fui dormir e minutos depois acordei assustada só para levantar da cama e constatar que sim, eu tinha mesmo desligado o forno.
Fui conferir o resultado somente no dia seguinte, no café-da-manhã. Talvez não precisasse ter separado as formas, talvez devesse ter seguido a receita à risca, ou pelo menos anotado direito qual a “metade” que eu havia feito. O pãozinho ficou mais magro e baixinho, mas no fim, deu tudo certo. O sabor e a textura ficaram um esplendor.
Acho que tive mais sorte do que juízo ![]()

Rainha Katita noticiou que uma famosa marca de leite finalmente aderiu às práticas e higiênicas (mas não muito ecologicamente corretas) tampinhas plásticas em suas embalagens longa-vida.
Acontece que a solução não resolve meu problema (e o de algumas outras jovens senhoras estabanadas), pois ora aperto demais a embalagem e provoco um chafariz que bate no teto não sem antes passar por meus olhos, ora trisco a manicure para levantar a pontinha do plástico, ora escangalho o lacre de papel alumínio e preciso fazer uso da faca.
Tudo mudou quando adquiri meu primeiro exemplar do magnífico anti-leite-derrameitor, dispositivo de funcionamento mui simples e inteligente. Dotado de uma ponta em forma de parafuso vazado, o utensílio permite que a leitora e o leitor perfurem a embalagem sem derramar uma gota sequer de líquido.
Os cuidados com higiene, obviamente, são fundamentais:
Custa menos de dois dinheiros e pode ser encontrado em magazines de utensílios domésticos, feiras livres, camelôs e lojinhas de tranqueiras para o lar.