Queima-te Sésamo!

A leitora não deve pensar que tenho horror à cidade grande, pois minha relação com São Paulo é justamente oposta.  Ao meu ver, as benesses de se residir numa capital com milhões e milhões de habitantes ultrapassa em muito os reveses.

E não me canso de agradecer o fato de poder contar com estabelecimentos de secos & molhados de extrema qualidade que ficam abertos bem depois de findo o horário comercial, para o deleite de notívagos, gourmets, gourmands e dadivosos em geral.

Ontem fui às compras em minha mais nova descoberta, um horti-fruti mui simpático a duas quadras de casa que oferece também queijos, vinhos, acepipes, açougue, peixaria e fresquíssimos sushis e sashimis. Passei por volta das 21 horas e, além da bandeja de sashimi, carreguei comigo tofu, missô e cebolinha para preparar um missoshiro.

“Vou deitar uma bela mesa”, pensei. Pus-me, alegre e faceira, a preparar a guarnição. Levei ao fogo uma frigideirinha com sementes de gergelim e, enquanto aqueciam, fui cortar finíssimas fatias de pepinos. “Vou polvilhar com açúcar e sal, tal como vi outro dia naquela receita de saladinha nem me lembro onde”, pensei.

Eis que chega o marido, com os olhos arregalados e apontando para o fogão. “Tá pulando tudo ali!”, disse assustado.

Calmamente, tomei uma tampa de panela, cobri as sementinhas, desliguei o fogo e voltei para a lida. Lavei e cortei a cebolinha, pus a água para aquecer, dissolvi o missô, cortei o tofu em quadradinhos. Comprei do macio por engano, mas tudo bem. Levei à mesa meu fofys-jogo-americano de maçã, o potinho para shoyu, os hashis…

Foi quando olhei para a cã, ela também com cara de interrogação,que tomei tento de meu derredor: a fumaça tomava conta do recinto! Eu havia virado o botão do fogão ao contrário, decerto. Corri para desligar o fogo com cuidado para não tropicar e nem tive coragem de abrir a tampa da frigideira. Abri todas as janelas, escorri o pepino daquele jeito mesmo, finalizei o missoshiro e quando sentamos à mesa a fumaça já havia dado uma trégua. Ou quase, pois o aroma indescritível de esturro quase podia sentar-se à mesa conosco, de tão presente.

Ao final da refeição, fui espreitar o que havia sucedido dentro da frigideira e mais fumaça escapou. E pude ver que o que antes era sésamo tinha virado carvão. E minha vontade de comer gergelim torrado sobre um arroz branquinho só fez aumentar.

Por isso, à leitora prendada, faço um apelo: como a senhora faz para torrar sementes de gergelim sem incendiar a casa? Qual seria a técnica correta?

.*. Atualização .*.

Agradeço enormemente a contribuição das leitoras e leitores dadivosos que por aqui passaram em auxílio ao meu cafife com o gergelim.

Aparentemente, o processo é deveras simples e rápido, rapidez esta que pode vir a ser um óbice para a realização da feita, dada minha conhecida falta de destreza na cozinha.

A ver se consiguirei da próxima vez ;***

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E a chapa vai esquentar!

A vida nas grandes cidades muitas vezes não mais comporta a aquisição de dezenas de jogos de jantar, dúzias de panelas e centenas de utensílios eletrônicos.

A opção por habitar apartamentos urbanos limita-nos violentamente o espaço para utensílios da cozinha, obrigando-nos, por vezes, a refrear instintos consumistas tão singelos quanto adquirir o último modelo de grill-família-super-jumbo-com-espátula-e-termostato.

Mas descobri uma saída, estimada leitora, para driblar a falta de espaço e ainda assim obter um aparelho multiprático para grelhar carnes com perfeição, doirar aquele queijinho coalho, sapecar legumes como berinjelas e abobrinhas etc.

Trata-se da rústica e funcional chapa de ferro, utensílio que, embora essencial, até ontem não havia adentrado meu lar. Mediante o pagamento de cinqüenta dinheiros, granjeei um belo exemplar de formato quadrado, na cor das asas da graúna, munida de canaletas laterais para escorrer eventuais gotículas de gordura, com cabo anatômico de madeira e tamanho ideal para ir ao bico do fogão.

Caso deseje comprar sua própria chapa de ferro, a senhora dona de casa deve procurar por uma peça que tenha sido previamente tratada, para evitar aqueles procedimentos infindáveis antes-durante-depois do uso.

Eu mesma estive diante de uma chapa bonitinha porém ordinária, que exigia uma esfrega com inhame ou casca de mamão (!) e mais uma lista recomendações a ser cumprida como ritual todas as vezes para o resto de nossos dias. Custava a metade do preço, mas sua manutenção seria um enfado, sem dúvida.

À inauguração de minha chapa quente compareceram espetinhos de queijo coalho, dois bifes de alcatra e algumas pétalas de cebola. Todos resultaram excepcionalmente apetitosos.

Após a refeição, a chapa já morninha foi esfregada sem esforço com esponja e sabão, depois banhada em água corrente e levada ao lume para secar completamente. E depois de fria, pude acomodá-la com folga num cantinho da prateleira das panelas, sem causar estorvo algum em minha cozinha de apartamento.

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Bolo Rubi


Tomei conhecimento deste bolo de coloração ímpar num livreto editado pelo Senac com receitas saudáveis e muito baratas utilizando ingredientes de fácil obtenção para qualquer família brasileira.

O nome original não era assim tão pomposo e tive receio de que o título pudesse espantar aqueles leitores mais gastronomicamente ortodoxos, de forma que o batizei carinhosamente de Bolo Rubi, alcunha bastante mais meiga e aprazível.

Apesar de ter ido às compras exclusivamente para confeccioná-lo, olvidei-me de trazer laranjas, o que me obrigou a modificar um pouco a receita, como poderão ver nas observações. O resultado final não foi prejudicado, mas recomendo que você faça com a quantidade solicitada de suco (um copo) espremido na hora.

Sem mais delongas, deixo aqui minha própria versão da receita:

Ingredientes:

  • 1 copo (250ml) de suco de laranja [como só tinha uma laranja em casa, espremi a dita e arranjei-me completando o copo com água]
  • 4 xícaras de beterrabas picadas [orgânicas de preferência, bem lavadas, sem caules nem raízes, mas pode ser com um pouco da casca que faz bem]
  • 3 ovos [claras e gemas separadas]
  • 2 xícaras de açúcar  [achei muita coisa e cortei para uma]
  • ¾ xícara de óleo
  • 3 xícaras de farinha de trigo
  • 1 colher de sopa de fermento

[Opcional: calda de chocolate multiprática para cobertura ou açúcar de confeiteiro para polvilhar ou a cobertura que você preferir]

Como fazer:

  1. Ligue o forno na temperatura média para preaquecer.
  2. Unte a(s) forma(s) com margarina e polvilhe-a(s) com farinha de trigo.
  3. Coloque no copo do liquidificador o suco de laranja e as beterrabas. Bata bem até virar uma pasta. Na receita dizia que viraria um suco, mas acho improvável dada a quantidade da raiz tuberosa em comparação com o líquido. Reserve a papinha no copo do aparelho mesmo.
  4. Numa tigela grande, bata as gemas com o açúcar. A mistura formará uma espécie de gemada um pouco dura. Deite ali o óleo e bata com a colher de pau até ficar bem homogêneo, um pouco mais claro e fofo.
  5. A esse preparado amarelinho, vá deitando aos poucos a mistura de beterraba e misturando com a colher de pau. Pare um pouco e contemple: a cor não é espetacular? Não faça como eu! Mexa com cuidado e sem fazer muita balbúrdia para não respingar a massa rubra na roupa, no chão, nos olhos da cã companheira que assisita a tudo atentamente…
  6. Agora coloque a farinha aos poucos, sempre misturando com delicadeza até incorporar bem.
  7. Numa tigela menor, bata as claras em neve. Como na maioria das vezes sou uma jovem senhora à moda antiga, preferi fazer isso com um batedor de arame, ou fouet.
  8. Dotada de minúcia e paciência, coloque as claras na massa e vá mexendo de baixo para cima até misturar bem. Acrescente o fermento, misture e deite na(s) forma(s).
  9. Neste momento você notará que a quantidade de massa poderia bem servir para dois bolos de tamanho médio para grande. Aliás, da próxima vez devo fazer somente a metade da receita, pois a iguaria rendeu tanto que pude preencher seis forminhas de muffins mais uma forma de aro (daquelas com buraco no meio, de fazer pudim de leite).
  10. Leve ao forno, que já está preaquecido na temperatura média. Estarão prontos quando, ao enfiar um palito no meio, este saia limpo. Os muffins levaram exatos 40 minutos. O bolo grande levou uma hora.
  11. Espere esfriar um pouquinho, desenforme e aplique a cobertura que mais lhe aprouver. Pincelei uma finíssima camada de geléia de framboesas e polvilhei com açúcar de confeiteiro.

Estou aqui com a mente dadivosa a fervilhar com idéias de novas coberturas, mas vou deixar a estimada leitora decidir com o quê este bolinho sabe melhor ;)

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Segredo Culinário


Estimada Leitora, Estimado Leitor
Venho por meio desta singela reprodução fotográfica compartilhar um segredo culinário que mudará sua vida para sempre!

Clique na foto para ampliar e ler a revelação de como consertar maionese desonerada!

Extraído do livro:
Enciclopédia de arte culinária
Volume Segundo
Editôra [sic] Globo – 1951

.*. Atualização .*.

No afã de revelar o segredo, havia trocado as informações do livro-fonte. Agora foi devidamente corrigido.

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Expressões Expressivas

Ontem, ainda sob o efeito inebriante do pão que finalmente vingou, quedei-me pensativa a tentar enumerar palavras e ditos (afora os xingamentos) que representem o insucesso na cozinha, essa desdita que pode acometer até a mais prestimosa das cozinheiras.

Espero que a Estimada Leitora e o Estimado Leitor possam contribuir, logo ali nos comentários, com seus próprios regionalismos, arcaicismos e outros ismos lingüísticos e assim enriquecer minha modesta listinha de…

Expressões Expressivas do Malogro Culinário

  • EMBATUMADO = pro bolo que não prestou
  • ENCRUADO = pra massa que não assou direito
  • DESANDAR = quando a maionese não dá ponto
  • SOLADA = pra massa que não cresceu
  • TALHADO = pro molho que se separou
  • DESMILINGÜIDO = pro glacê que derreteu
  • DESABRIDO = sem tempero, segundo a vogra
  • ÁGUA DE BARRELA = pro café fraco
  • ÁGUA DE BATATA = pro café fraco também, segundo a vó da Patrícia
  • DESONERAR/ DESUNERAR = desandar (Márcia e Renata)
  • LANGANHENTO = uma gosma, uma gororoba, coisa grudenta e disforme
  • ARROZ DE CARNAVAL = porque vem em blocos (Silvia)
  • ARROZ DE DEUS = porque é mais que Papa (Silvia)
  • BOLO CHICLETE = borrachudo (Karen)
  • CHAFÉ = café fraco (Ana)
  • ARROZ CATÓLICO = uma Papa só (Ana)
  • UNIDOS VENCEREMOS = arroz papa (Gorete)
  • CAFÉ 6 F’s = frio, fraco e com formiga fazendo farra no fundo (do Osmyr da Karen)
  • BIFE “007″= duro,frio e com nervos de aço! (especialmente utilizado no Restaurante Universitário da UFSC – lembrança da Andréa)

Vale a pena ler as explicações nos comentários das leitoras :)

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Pão Integral


Ontem cheguei com ímpetos de sovar um pãozinho. Como sabem, tenho certo trauma, pois inúmeros foram os dias e noites em que malogrou-se minha massa! Porém, como moça dadivosa que sou, jamais desisto de uma receita, não importando o quão encruadas tenham sido as tentativas anteriores.

Então, como dizia, ontem precisava muito sovar um pãozinho. Recorri à mais prosaica das receitas, capturada da embalagem de uma farinha integral. Felizmente tenho por costume separar os ingredientes com antecedência, pois ao abrir o pacote de fermento fresco pressenti que algo não estava a contento e, ao verificar a data de validade, descobri que ele estaria passado dentro de algumas horas. Receosa de pôr tudo a perder mais uma vez, enchi-me de coragem e saquei da despensa um envelopinho de fermento seco mesmo.

Meu pão integral ficou macio, leve e fofinho. O motivo do sucesso? Ah, desta vez fui ladina e dediquei-me com afinco à sova da massa, concentrando-me enquanto os braços doíam por falta de prática. E foi mágico!

Ingredientes:

  • 2 xícaras de farinha de trigo integral
  • 2 xícaras de farinha de trigo comum
  • 1 1/2 colher de chá de sal
  • 1/2 colher de sopa de açúcar
  • 1 tablete (15g) de fermento biológico fresco (troquei por um envelope de 10g do seco)
  • 1 1/2 xícara de água morna
  • 1/2 xícara de óleo
  • farinha para polvilhar a mesa de trabalho
  • leite para pincelar o pão

Como Fazer:

  1. Misture os ingredientes secos. Se estiver usando o fermento biológico seco, misture-o agora, tomando muito cuidado para não colocá-lo em contato com o sal, para não afetar seus poderes de levedação.
  2. Adicione os ingredientes úmidos e mexa a massa com as mãos para unir os ingredientes.
  3. Agora é necessário amor de dedicação, amiga. Polvilhe um pouquinho (bem pouquinho mesmo) de farinha de trigo sobre sua mesa de trabalho e comece a trabalhar a massa. Eu sovei a dita por 20 minutos. Me deu um caloooor! Mas fiquei firme (e meus braços também). Você vai sentir que a massa muda de textura, vai ficando mais bonita e mais fácil de mexer.
  4. Faça uma bola com a massa, deite-a numa tigela bem grande, cubra com um plástico e depois com um pano de prato. Deixe-a ali, descansando, por uma hora. Ela vai dobrar de volume.
  5. Unte com um pouco de óleo uma forma grande de pão (ou duas pequenas). Coloque a massa na forma, cubra novamente com o plástico e com o pano e deixe descansar para crescer de novo. Vai levar mais uma hora. Na metade desse tempo, acenda o forno para preaquecer.
  6. Leve o pão ao forno médio e, quando começar a endurecer a casquinha, pincele a superfície com o leite. Não faça como eu! Use um pincel para fazer isso, pois, se você resolver passar o leite com as mãos, vai se pelar e queimar e xingar e descompor-se e excomungar.
  7. Seu pão estará pronto quando a crosta ficar moreninha. Espere esfriar um pouco para desenformar.

O processo todo, desde a separação dos ingredientes até a completa assadura, levou três horas – o que significa que precisei lutar contra o sono para não esquecer o forno ligado e carbonizar a casa.

.*. Atualização .*.

A Patrícia avisou, ali nos comentários, que o sal é inimigo tanto do fermento biológico seco quanto do fresco, viu?

Obrigada, querida!!!

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Refogadinho de Shimeji

A amiga leitora deve conhecer uma infinidade de receitas de shitake shimeji refogado e é provável que tenha ela mesma sua própria preparação secreta. 

Pois a minha varia enormemente, dependendo dos ingredientes disponíveis e das pequenas ortodoxias gastronômicas dos comensais.

Quando a despensa, a geladeira e os convivas entram em harmonia total e clima de abundância de sabores, posso acrescentar: gengibre, alho, molho de ostra, salsinha, cebola… só tomo o cuidado de não jogar tudo junto e escolher bem um ou outro para não matar o gosto delicado desse cogumelo.

É importante também observar que o preparado não carece de muita cocção. Alguns minutinhos de borbulhas são suficientes para deixar a iguaria no ponto certo.

Segue minha mais básica versão, que foi preparada ontem na casa de amigos queridos (que, de tão queridos, chegam a ceder a cozinha para uma Dadivosa em crise de abstinência, vejam só!)

Ingredientes:

  • 2 caixinhas de cogumelo shitake shimeji muito fresco
  • 2 colheres de sopa de manteiga
  • 1/2 colher de sopa de óleo vegetal
  • 1 xícara de saquê culinário
  • 1/2 xícara de shoyu
  • pitada de pimenta-do-reino
  • 1/2 xícara de cebolinha verde picada

Como fazer:

  1. A primeira providência, que no meu entendimento é a parte mais divertida, é abrir os galhinhos de shitake shimeji. Não gosto de usar faca, não. Vou puxando os cabinhos com cuidado para não magoar as cúpulas e deito os cogumelos,devidamente debulhados, numa vasilha grande e funda para que não se amassem uns aos outros. 
  2. A partir daqui, tudo será muito rápido, por isso recomendo que seja a última coisa a ser preparada em seu almoço-jantar-petisco-lanche-brunch etc.. Aqueça um wok ou frigideira grande. Derreta ali a manteiga, junto com o óleo que é para não queimar.
  3. Deite os cogumelos com cuidado e vá virando para que fiquem todos bem untados com a manteiga quente. Assim que eles murcharem um pouco, pode adicionar o saquê culinário.
  4. Deixe o saquê evaporar por um a dois minutos, adicione o shoyu, revolva tudo mais um pouco e experimente, que você não é de ferro :D
  5. Um minuto depois, polvilhe um tantinho de pimenta-do-reino, mexa, adicione a cebolinha, mexa de novo e apague o fogo.
  6. Rende umas 3 a 4 xícaras, mais ou menos. Como o shitake shimeji perde água e murcha um pouco no cozimento, imagine que o volume final será cerca de metade do que era quando os galhinhos ainda estavam crus. Fica delicioso sobre torradas, brusquetas, na omelete, acompanhando um arroz, com uma massa curta, sobre a polenta, purê de batata, dentro de uma tapioca…

.*. Atualização .*.

Graças ao Julio, Leitor Dadivoso e mui atento, pude corrigir a informação de que o refogadinho foi de shimeji, e não de shitake! Passei a tarde corrigindo a amiga na cozinha e acabo por publicar o nome errado, ora vejam que ironia :)

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